Objetivo da triagem rápida (30–60 segundos)
A triagem rápida é uma checagem curta e repetível para identificar sinais de risco imediato e organizar a informação que você vai passar ao veterinário. Ela não substitui o exame clínico: serve para responder rapidamente a três perguntas: o animal está consciente? está respirando adequadamente? a circulação parece adequada? Em seguida, você complementa com temperatura (quando possível) e dor evidente.
Use sempre a mesma ordem. Isso reduz erros quando você está nervoso e ajuda a comparar mudanças ao longo do tempo (por exemplo, a cada 5–10 minutos durante o deslocamento).
Protocolo 30–60 segundos: Consciência, Respiração, Circulação + complementos
Antes de começar: posição e observação rápida
- Observe por 3–5 segundos sem tocar: postura (em pé, deitado, caído), movimentos respiratórios, presença de sangue/vômito, distensão abdominal, tentativa de levantar.
- Se o animal estiver deitado, tente manter a cabeça e o pescoço alinhados (sem hiperestender) e evite comprimir o tórax.
1) Consciência e resposta (5–10 s)
O que checar: nível de alerta e resposta a estímulos simples.
- Chame pelo nome e observe se ele acompanha com o olhar, mexe a cabeça, tenta levantar.
- Toque leve no ombro/peito (evite rosto em animais assustados) e veja se reage.
- Se não responde, observe se há movimentos involuntários, rigidez, tremores ou desmaio.
Como registrar (exemplos): “alerta e responsivo”, “sonolento, responde ao toque”, “não responsivo”.
2) Respiração: padrão e esforço (10–15 s)
O que checar: se está respirando, como está respirando e se há esforço.
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- Veja o tórax/abdômen: sobe e desce? há pausas longas?
- Conte a frequência por 15 segundos e multiplique por 4 (aproximação rápida).
- Procure esforço respiratório: pescoço estendido, cotovelos afastados, barriga “empurrando” para respirar, narinas muito abertas, respiração ruidosa (chiado/estridor), boca aberta (em gatos é especialmente preocupante).
- Observe a posição: muitos animais com falta de ar preferem ficar sentados/esternados e resistem a deitar.
Como registrar (exemplos): “respira 40/min, ofegante com esforço abdominal”, “respiração lenta e superficial”, “respiração ruidosa”.
3) Circulação: mucosas, tempo de preenchimento capilar e pulso (15–25 s)
3.1 Cor das mucosas (gengiva/conjuntiva)
- Levante o lábio e observe a gengiva (ou a parte interna da pálpebra inferior se não permitir boca).
- Normal: rosa.
- Alerta: pálida (pouco sangue), branca (choque grave), azulada/arroxeada (pouco oxigênio), muito vermelha (pode ocorrer em calor/algumas intoxicações), amarelada (icterícia; importante, mas nem sempre emergência imediata).
3.2 Tempo de preenchimento capilar (TPC)
- Pressione a gengiva com o dedo por 1 segundo até ficar mais clara e solte.
- Normal: volta ao rosa em até ~2 segundos.
- Alerta: >2 segundos (perfusão ruim/choque) ou muito rápido com gengiva muito vermelha (pode indicar vasodilatação).
3.3 Pulso (quando possível)
- Em cães: tente sentir na parte interna da coxa (artéria femoral). Em gatos pode ser mais difícil.
- Não perca muito tempo: se não achar em 10 segundos, registre “pulso não palpável” e siga.
- O que notar: presença, regularidade e “força” (cheio vs fraco/filiforme).
Como registrar (exemplos): “gengiva pálida, TPC 3 s, pulso fraco”, “mucosa azulada, TPC difícil de avaliar, pulso não palpável”.
4) Temperatura corporal (se for seguro e o animal permitir) (10–20 s)
A temperatura ajuda a identificar hipertermia (calor) ou hipotermia (choque/exposição). Use termômetro digital retal com lubrificante, se você já tem prática e o animal está estável o suficiente para permitir.
- Se houver risco de mordida, dor intensa, agitação ou falta de ar, não tente medir agora. Priorize deslocamento e informe ao veterinário que não foi possível.
- Registre o valor e o horário. Se não medir: “temperatura não aferida”.
5) Dor evidente e sinais associados (5–10 s)
O que observar: vocalização, agressividade súbita, tremores, postura encolhida, abdômen “duro”, relutância em se mover, lambedura insistente de uma área, pupilas dilatadas, respiração acelerada sem calor aparente.
- Se suspeitar de dor abdominal: observe distensão, tentativas de vomitar sem sair nada, inquietação alternando com prostração.
- Se suspeitar de dor em membro: evite manipular; observe apoio, inchaço e deformidade.
Como registrar (exemplos): “dor ao tocar abdômen, postura encolhida”, “não apoia membro anterior direito, chora ao mover”.
Como registrar achados para relatar ao veterinário (modelo rápido)
Use um registro curto, com horário, para facilitar a tomada de decisão. Você pode anotar no celular.
Horário: 14:20 Espécie/porte: cão médio (18 kg) Idade: 7 anos (aprox.) Evento: queda da escada há 10 min Medicações: nenhuma Alergias: desconhecidas Doenças: cardiopatia (sim/não) Consciência: sonolento, responde ao toque Respiração: 48/min, ofegante com esforço abdominal Mucosas: pálidas TPC: 3 s Pulso: fraco e rápido Temperatura: não aferida Dor: abdômen sensível, inquieto Outros: distensão abdominal leve, tentativa de vomitar sem produzirDica: se você repetir a triagem durante o trajeto, registre como “14:30: mucosas mais pálidas, respiração piorou” — a tendência (melhora/piora) é tão importante quanto o número.
Tabela: sinais de alerta e o que fazer imediatamente
| Sinal de alerta na triagem | O que pode indicar | O que fazer imediatamente (até chegar ao veterinário) | O que relatar |
|---|---|---|---|
| Respiração ofegante com esforço (abdômen trabalhando, cotovelos abertos, pescoço estendido, ruído, gato respirando de boca aberta) | Falta de oxigenação, obstrução, dor intensa, edema pulmonar, crise asmática (gatos), trauma |
| Frequência estimada, presença de esforço/ruído, posição em que respira melhor, se piora com movimento |
| Mucosas pálidas ou brancas e/ou TPC > 2 s | Choque, hemorragia interna/externa, desidratação grave |
| Cor da mucosa, TPC, pulso (fraco/rápido), presença de sangramento, histórico de trauma |
| Mucosas azuladas/arroxeadas (cianose) | Hipóxia grave (pouco oxigênio), emergência crítica |
| Quando começou, se há ruído/engasgo, se houve vômito, trauma, exposição a fumaça |
| Fraqueza súbita, colapso, desmaio | Arritmia, choque, hipoglicemia, hemorragia, intoxicação, dor intensa |
| Duração do episódio, se houve tremores/rigidez, cor de mucosas durante o evento, medicações/possível ingestão |
| Distensão abdominal (barriga aumentando, dura), inquietação, tentativas de vomitar sem sair nada | Dilatação/torsão gástrica (principalmente cães grandes), hemorragia interna, obstrução |
| Início e progressão, tentativas de vômito improdutivas, tamanho/raça, última refeição e horário |
| Sangramento ativo (jato, encharcando pano, não para) | Hemorragia externa com risco de choque |
| Local, intensidade, tempo de sangramento, se há ferida profunda ou objeto preso |
Valores e referências úteis (para orientar sua descrição)
| Item | O que é comum em repouso | Quando preocupar na triagem |
|---|---|---|
| Respiração | Cães: ~10–30/min; Gatos: ~15–30/min | Esforço evidente, ruído, boca aberta (gatos), respiração muito rápida persistente, pausas/respiração muito superficial |
| Mucosas | Rosa | Pálida/branca, azulada/arroxeada, muito pegajosa e seca |
| TPC | Até ~2 s | >2 s (principalmente com mucosa pálida) ou difícil de obter por perfusão ruim |
| Pulso femoral | Presente, regular, “cheio” | Muito fraco/filiforme, irregular, ausente ao toque rápido |
| Temperatura | Em geral ~38,0–39,2 °C (varia por espécie/porte) | Muito alta (suspeita de hipertermia) ou baixa com prostração (suspeita de choque/hipotermia) |
Erros comuns que atrapalham a triagem
- Gastar tempo demais procurando pulso: se não achar rápido, registre e siga.
- Confundir ofegação por estresse/calor com falta de ar: o diferencial é o esforço (abdômen trabalhando, postura fixa, piora ao deitar) e sinais de mucosa alterada.
- Medir temperatura em animal instável/agitado: pode piorar estresse e respiração; priorize sinais vitais observáveis.
- Não anotar horário: a evolução temporal é crucial para o veterinário.