Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: triagem rápida do animal (consciência, respiração e circulação)

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Objetivo da triagem rápida (30–60 segundos)

A triagem rápida é uma checagem curta e repetível para identificar sinais de risco imediato e organizar a informação que você vai passar ao veterinário. Ela não substitui o exame clínico: serve para responder rapidamente a três perguntas: o animal está consciente? está respirando adequadamente? a circulação parece adequada? Em seguida, você complementa com temperatura (quando possível) e dor evidente.

Use sempre a mesma ordem. Isso reduz erros quando você está nervoso e ajuda a comparar mudanças ao longo do tempo (por exemplo, a cada 5–10 minutos durante o deslocamento).

Protocolo 30–60 segundos: Consciência, Respiração, Circulação + complementos

Antes de começar: posição e observação rápida

  • Observe por 3–5 segundos sem tocar: postura (em pé, deitado, caído), movimentos respiratórios, presença de sangue/vômito, distensão abdominal, tentativa de levantar.
  • Se o animal estiver deitado, tente manter a cabeça e o pescoço alinhados (sem hiperestender) e evite comprimir o tórax.

1) Consciência e resposta (5–10 s)

O que checar: nível de alerta e resposta a estímulos simples.

  • Chame pelo nome e observe se ele acompanha com o olhar, mexe a cabeça, tenta levantar.
  • Toque leve no ombro/peito (evite rosto em animais assustados) e veja se reage.
  • Se não responde, observe se há movimentos involuntários, rigidez, tremores ou desmaio.

Como registrar (exemplos): “alerta e responsivo”, “sonolento, responde ao toque”, “não responsivo”.

2) Respiração: padrão e esforço (10–15 s)

O que checar: se está respirando, como está respirando e se há esforço.

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  • Veja o tórax/abdômen: sobe e desce? há pausas longas?
  • Conte a frequência por 15 segundos e multiplique por 4 (aproximação rápida).
  • Procure esforço respiratório: pescoço estendido, cotovelos afastados, barriga “empurrando” para respirar, narinas muito abertas, respiração ruidosa (chiado/estridor), boca aberta (em gatos é especialmente preocupante).
  • Observe a posição: muitos animais com falta de ar preferem ficar sentados/esternados e resistem a deitar.

Como registrar (exemplos): “respira 40/min, ofegante com esforço abdominal”, “respiração lenta e superficial”, “respiração ruidosa”.

3) Circulação: mucosas, tempo de preenchimento capilar e pulso (15–25 s)

3.1 Cor das mucosas (gengiva/conjuntiva)

  • Levante o lábio e observe a gengiva (ou a parte interna da pálpebra inferior se não permitir boca).
  • Normal: rosa.
  • Alerta: pálida (pouco sangue), branca (choque grave), azulada/arroxeada (pouco oxigênio), muito vermelha (pode ocorrer em calor/algumas intoxicações), amarelada (icterícia; importante, mas nem sempre emergência imediata).

3.2 Tempo de preenchimento capilar (TPC)

  • Pressione a gengiva com o dedo por 1 segundo até ficar mais clara e solte.
  • Normal: volta ao rosa em até ~2 segundos.
  • Alerta: >2 segundos (perfusão ruim/choque) ou muito rápido com gengiva muito vermelha (pode indicar vasodilatação).

3.3 Pulso (quando possível)

  • Em cães: tente sentir na parte interna da coxa (artéria femoral). Em gatos pode ser mais difícil.
  • Não perca muito tempo: se não achar em 10 segundos, registre “pulso não palpável” e siga.
  • O que notar: presença, regularidade e “força” (cheio vs fraco/filiforme).

Como registrar (exemplos): “gengiva pálida, TPC 3 s, pulso fraco”, “mucosa azulada, TPC difícil de avaliar, pulso não palpável”.

4) Temperatura corporal (se for seguro e o animal permitir) (10–20 s)

A temperatura ajuda a identificar hipertermia (calor) ou hipotermia (choque/exposição). Use termômetro digital retal com lubrificante, se você já tem prática e o animal está estável o suficiente para permitir.

  • Se houver risco de mordida, dor intensa, agitação ou falta de ar, não tente medir agora. Priorize deslocamento e informe ao veterinário que não foi possível.
  • Registre o valor e o horário. Se não medir: “temperatura não aferida”.

5) Dor evidente e sinais associados (5–10 s)

O que observar: vocalização, agressividade súbita, tremores, postura encolhida, abdômen “duro”, relutância em se mover, lambedura insistente de uma área, pupilas dilatadas, respiração acelerada sem calor aparente.

  • Se suspeitar de dor abdominal: observe distensão, tentativas de vomitar sem sair nada, inquietação alternando com prostração.
  • Se suspeitar de dor em membro: evite manipular; observe apoio, inchaço e deformidade.

Como registrar (exemplos): “dor ao tocar abdômen, postura encolhida”, “não apoia membro anterior direito, chora ao mover”.

Como registrar achados para relatar ao veterinário (modelo rápido)

Use um registro curto, com horário, para facilitar a tomada de decisão. Você pode anotar no celular.

Horário: 14:20  Espécie/porte: cão médio (18 kg)  Idade: 7 anos (aprox.)  Evento: queda da escada há 10 min  Medicações: nenhuma  Alergias: desconhecidas  Doenças: cardiopatia (sim/não)  Consciência: sonolento, responde ao toque  Respiração: 48/min, ofegante com esforço abdominal  Mucosas: pálidas  TPC: 3 s  Pulso: fraco e rápido  Temperatura: não aferida  Dor: abdômen sensível, inquieto  Outros: distensão abdominal leve, tentativa de vomitar sem produzir

Dica: se você repetir a triagem durante o trajeto, registre como “14:30: mucosas mais pálidas, respiração piorou” — a tendência (melhora/piora) é tão importante quanto o número.

Tabela: sinais de alerta e o que fazer imediatamente

Sinal de alerta na triagemO que pode indicarO que fazer imediatamente (até chegar ao veterinário)O que relatar
Respiração ofegante com esforço (abdômen trabalhando, cotovelos abertos, pescoço estendido, ruído, gato respirando de boca aberta)Falta de oxigenação, obstrução, dor intensa, edema pulmonar, crise asmática (gatos), trauma
  • Minimize estresse e manipulação; mantenha em posição confortável (geralmente esternal).
  • Não force deitar e não comprima tórax/pescoço.
  • Ambiente ventilado; evite calor.
  • Saída imediata para atendimento.
Frequência estimada, presença de esforço/ruído, posição em que respira melhor, se piora com movimento
Mucosas pálidas ou brancas e/ou TPC > 2 sChoque, hemorragia interna/externa, desidratação grave
  • Priorize transporte urgente.
  • Mantenha aquecido (cobertor) se estiver frio ao toque, sem superaquecer.
  • Evite oferecer água/comida se houver prostração, vômitos, distensão abdominal ou risco de cirurgia.
Cor da mucosa, TPC, pulso (fraco/rápido), presença de sangramento, histórico de trauma
Mucosas azuladas/arroxeadas (cianose)Hipóxia grave (pouco oxigênio), emergência crítica
  • Transporte imediato com mínima manipulação.
  • Evite focinheira se estiver com dificuldade respiratória.
  • Se houver colapso e ausência de respiração, trate como parada respiratória e busque atendimento emergencial imediatamente.
Quando começou, se há ruído/engasgo, se houve vômito, trauma, exposição a fumaça
Fraqueza súbita, colapso, desmaioArritmia, choque, hipoglicemia, hemorragia, intoxicação, dor intensa
  • Deite em local seguro e observe respiração.
  • Mantenha aquecido e transporte.
  • Se recuperar, ainda é urgência: pode repetir.
Duração do episódio, se houve tremores/rigidez, cor de mucosas durante o evento, medicações/possível ingestão
Distensão abdominal (barriga aumentando, dura), inquietação, tentativas de vomitar sem sair nadaDilatação/torsão gástrica (principalmente cães grandes), hemorragia interna, obstrução
  • Emergência absoluta: transporte imediato.
  • Não ofereça água/comida.
  • Evite deitar de lado se piorar a respiração; mantenha posição mais confortável.
Início e progressão, tentativas de vômito improdutivas, tamanho/raça, última refeição e horário
Sangramento ativo (jato, encharcando pano, não para)Hemorragia externa com risco de choque
  • Compressão direta contínua com pano limpo/gaze.
  • Não retire o pano encharcado; coloque outro por cima e mantenha pressão.
  • Eleve o membro se for em pata e não houver suspeita de fratura grave.
  • Transporte urgente.
Local, intensidade, tempo de sangramento, se há ferida profunda ou objeto preso

Valores e referências úteis (para orientar sua descrição)

ItemO que é comum em repousoQuando preocupar na triagem
RespiraçãoCães: ~10–30/min; Gatos: ~15–30/minEsforço evidente, ruído, boca aberta (gatos), respiração muito rápida persistente, pausas/respiração muito superficial
MucosasRosaPálida/branca, azulada/arroxeada, muito pegajosa e seca
TPCAté ~2 s>2 s (principalmente com mucosa pálida) ou difícil de obter por perfusão ruim
Pulso femoralPresente, regular, “cheio”Muito fraco/filiforme, irregular, ausente ao toque rápido
TemperaturaEm geral ~38,0–39,2 °C (varia por espécie/porte)Muito alta (suspeita de hipertermia) ou baixa com prostração (suspeita de choque/hipotermia)

Erros comuns que atrapalham a triagem

  • Gastar tempo demais procurando pulso: se não achar rápido, registre e siga.
  • Confundir ofegação por estresse/calor com falta de ar: o diferencial é o esforço (abdômen trabalhando, postura fixa, piora ao deitar) e sinais de mucosa alterada.
  • Medir temperatura em animal instável/agitado: pode piorar estresse e respiração; priorize sinais vitais observáveis.
  • Não anotar horário: a evolução temporal é crucial para o veterinário.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a triagem rápida, qual conduta é mais adequada ao tentar avaliar o pulso e não conseguir palpá-lo rapidamente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para evitar atrasos, não se deve gastar muito tempo procurando o pulso. Se não for palpável em cerca de 10 segundos, registre o achado e continue avaliando os demais itens (mucosas, TPC, respiração) e priorize o transporte.

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