Prevenção de engasgo na alimentação infantil e do idoso: alimentos de risco e técnicas de preparo

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é engasgo e por que acontece

Engasgo (obstrução de vias aéreas) ocorre quando um alimento ou objeto entra “no caminho errado” e bloqueia parcial ou totalmente a passagem de ar. Crianças pequenas e idosos têm maior risco porque podem ter coordenação ainda em desenvolvimento (crianças), reflexos mais lentos, menor força de mastigação, redução de sensibilidade oral, uso de próteses dentárias ou dentes ausentes (idosos). O objetivo aqui é reduzir o risco com escolhas de alimentos e preparo adequado, além de hábitos seguros durante as refeições.

Engasgo x tosse protetora: como diferenciar

Tosse protetora é um mecanismo de defesa: a pessoa tosse, faz barulho, consegue respirar e pode até chorar/falar (no caso de crianças). Nessa situação, a tosse ajuda a expulsar o alimento e, em geral, o melhor é não interferir com “tapinhas” nas costas enquanto a pessoa está tossindo e respirando, apenas manter vigilância e oferecer calma.

Engasgo grave sugere obstrução importante: dificuldade para respirar, ausência de som (não consegue tossir ou falar), lábios/rosto arroxeados, expressão de pânico, mãos no pescoço, queda de consciência. Isso é emergência e exige ação imediata (acionar serviço de emergência local e aplicar manobras de desobstrução conforme treinamento).

Alimentos com alto risco de engasgo e como oferecer com segurança

Alguns alimentos têm formato, textura ou dureza que favorecem “tampar” a via aérea (redondos, lisos, duros, elásticos ou quebradiços). A regra prática é: reduzir tamanho, mudar o formato e/ou amolecer.

Alimento de riscoPor que é perigosoForma mais segura de oferecer
Uvas inteirasFormato redondo e liso, pode vedar a via aéreaCortar longitudinalmente (em 4 partes no sentido do comprimento). Para idosos com mastigação fraca, considerar retirar casca/semente e oferecer em pedaços menores
Nozes e castanhasDuras, pequenas, podem ser aspiradas; exigem boa mastigaçãoEvitar inteiras; usar trituradas bem finas (farinha/“pó”) misturadas em preparações (iogurte, frutas amassadas, mingau). Atenção a alergias em crianças
PipocaSeca, irregular, pode fragmentar e aspirar; cascas prendemEvitar para crianças pequenas e para idosos com mastigação/deglutição comprometidas; se for consumir, preferir em contexto de baixo risco e com supervisão, mas não é opção segura para grupos vulneráveis
Salsicha em rodelasRodelas formam “moeda” que pode vedar a via aéreaNunca em rodelas grossas; cortar longitudinalmente (ao meio e depois em tiras) e então picar miúdo; cozinhar até ficar macia
Cenoura cruaMuito dura e quebradiçaRalar bem fino ou cozinhar (vapor/água) até ficar macia; depois picar em pedaços pequenos
Maçã duraDura e escorregadia em pedaços grandesRalar, cozinhar/assar até amolecer, ou oferecer em fatias finas e pequenas; para idosos, preferir cozida ou em compota sem pedaços grandes
Pedaços grandes de carneFibrosa, exige mastigação eficiente; pode formar “bolo” grandePreferir desfiada (fibras curtas), moída bem cozida e úmida, ou em cubos muito pequenos; cozinhar até maciez e manter suculência (molhos ajudam)
Balas (duras, mastigáveis) e chicletesEscorregadias, podem ser aspiradas; exigem controle oralEvitar para crianças pequenas e para idosos com risco; substituir por sobremesas macias (fruta amassada, iogurte, pudim macio) conforme necessidade

Checklist rápido: “mudanças que reduzem risco”

  • Redondos (uvas, tomatinhos, azeitonas): cortar no sentido do comprimento, nunca apenas ao meio em “moedas”.
  • Duros (cenoura crua, maçã dura): ralar ou cozinhar até maciez.
  • Fibrosos/elásticos (carnes): desfiar, moer e manter úmido.
  • Pequenos e duros (nozes): triturar muito fino e misturar em preparações.
  • Secos e quebradiços (pipoca): preferir evitar para grupos vulneráveis.

Passo a passo prático: como preparar e servir com mais segurança

1) Antes de servir: observe a pessoa e o contexto

  • Verifique se a pessoa está bem acordada e com boa postura para comer.
  • Evite oferecer alimentos de risco quando houver pressa, cansaço ou agitação (criança chorando, idoso sonolento).
  • Para idosos, confirme se a prótese dentária está bem encaixada e confortável; prótese solta reduz a mastigação e aumenta risco.

2) Ajuste o alimento (tamanho, formato e maciez)

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  • Cortar: transforme itens redondos em tiras ou quartos longitudinais; depois, se necessário, pique menor.
  • Amolecer: cozinhe até ficar macio ao apertar com garfo (cenoura, maçã, carnes).
  • Desfiar/fragmentar: carnes desfiadas, frango desfiado, peixe em lascas pequenas (verificando espinhas).
  • Ralar: frutas e legumes duros podem ser ralados finos para reduzir necessidade de mordida forte.
  • Umedecer: molhos e caldos ajudam a formar uma porção mais coesa e fácil de controlar na boca (especialmente para carnes).

3) Sirva porções pequenas e em ritmo calmo

  • Ofereça pequenas quantidades por vez (uma colher pequena ou pedaços pequenos no prato).
  • Espere a pessoa terminar de mastigar e engolir antes de oferecer mais.
  • Evite “encher” a boca da criança ou do idoso com várias colheradas seguidas.

4) Postura e ambiente: reduza distrações

  • Comer sentado, com tronco ereto e cabeça alinhada.
  • Evitar comer andando, deitado ou no carro em movimento (quando possível).
  • Evitar telas, brincadeiras e sustos durante a refeição; distração aumenta o risco de engolir sem mastigar bem.

5) Supervisão ativa (especialmente com crianças)

  • Um adulto deve estar próximo e atento, observando mastigação e ritmo.
  • Evite oferecer alimentos de risco quando não houver supervisão (ex.: pipoca em festas, uvas inteiras em lanches rápidos).

Boas práticas e segurança doméstica relacionadas

Regras de ouro durante a alimentação

  • Não correr, não brincar e não falar com a boca cheia: combine regras simples com a criança e reforce com consistência.
  • Não oferecer balas, chicletes e nozes inteiras a crianças pequenas; em idosos com risco, também evitar.
  • Organize o prato: deixe os pedaços já cortados e adequados; não dependa de cortar “na hora” com a pessoa já comendo.
  • Cuidado com alimentos mistos: sopas com pedaços grandes, saladas com itens duros e carnes em cubos podem esconder riscos; revise o tamanho dos pedaços.

Atenção especial às próteses dentárias (idosos)

  • Prótese mal ajustada pode levar a mastigação incompleta e engolir pedaços grandes.
  • Se houver queixa de dor, instabilidade, feridas ou “escapar” ao mastigar, prefira alimentos mais fáceis de mastigar e busque avaliação profissional.
  • Evite alimentos muito pegajosos ou duros que possam deslocar a prótese (ex.: balas mastigáveis, carnes secas).

Quadro “faça e evite” (aplicação imediata)

FaçaEvite
Cortar uvas e itens redondos longitudinalmente (em 4)Oferecer uvas inteiras ou tomatinhos inteiros
Ralar maçã/cenoura ou cozinhar até ficar macioDar maçã dura em pedaços grandes ou cenoura crua em palitos grossos
Desfiar carnes e manter úmidas (molho/caldo)Servir cubos grandes de carne seca ou fibrosa
Triturar nozes/castanhas bem finas e misturar em receitasOferecer nozes inteiras ou pedaços grandes
Servir porções pequenas, ritmo lento e com supervisãoPressa, colheradas grandes, “mais uma rapidinho”
Refeição com a pessoa sentada e sem distraçõesComer correndo, brincando, deitado ou com muita distração
Checar prótese dentária antes de refeições mais sólidasIgnorar prótese solta/desconfortável e manter alimentos difíceis
Manter atenção aos sinais: tosse forte (protetora) x silêncio/dificuldade de respirar (emergência)Dar “tapinhas” aleatórios enquanto a pessoa tosse e respira, ou demorar para buscar ajuda em sinais de obstrução grave

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante uma refeição, uma criança ou um idoso começa a tossir com força, faz barulho e consegue respirar. Qual é a conduta mais adequada nesse momento para reduzir riscos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando há tosse protetora (tosse forte, com som e respiração preservada), ela ajuda a expulsar o alimento. A melhor conduta é não interferir com tapinhas, manter vigilância e acalmar. Sinais de silêncio e dificuldade de respirar indicam emergência.

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