Plano de parto e escolhas informadas na primeira gestação

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é um plano de parto (e o que ele não é)

O plano de parto é um documento simples, escrito por você (com apoio do(a) obstetra e/ou enfermeira obstetra), que registra suas preferências para o trabalho de parto, parto e cuidados imediatos com o bebê. Ele funciona como uma forma objetiva de comunicação com a equipe, especialmente em momentos em que você pode estar com dor, cansada ou emocionalmente vulnerável.

Ele não é um “contrato” que obriga a equipe a seguir tudo ao pé da letra. É um guia de preferências que pode ser ajustado conforme a evolução do parto e a segurança materno-fetal. O objetivo é alinhar expectativas, reduzir mal-entendidos e facilitar decisões com base em consentimento informado.

Como o plano de parto ajuda a comunicar preferências

1) Ambiente e acolhimento

  • Privacidade (menos entradas e saídas no quarto, quando possível).
  • Luz mais baixa, silêncio, música, aromaterapia (se permitido).
  • Liberdade para se movimentar e escolher posições.
  • Preferência por explicações antes de qualquer toque ou procedimento.

2) Manejo da dor (com e sem medicação)

  • Métodos não farmacológicos: banho morno, bola, massagens, compressas, técnicas de respiração, rebozo, TENS (se disponível).
  • Analgesia farmacológica: quando considerar, como solicitar, e quais opções existem no serviço (por exemplo, analgesia peridural/raqui-peridural, se disponível).
  • Preferência por tentar medidas não farmacológicas antes de medicação (ou o contrário).

3) Posições e condução do parto

  • Preferência por posições verticalizadas (cócoras, quatro apoios, lateral, banqueta) ou outra posição confortável.
  • Desejo de evitar permanecer deitada de barriga para cima por longos períodos, se não houver necessidade clínica.
  • Preferência por puxos espontâneos (seguir o corpo) versus puxos dirigidos (orientados), quando possível.

4) Acompanhante e rede de apoio

  • Quem será o acompanhante e se haverá doula (conforme regras do local).
  • Como o acompanhante pode ajudar (massagem, hidratação, apoio emocional, intermediar comunicação).
  • Preferência de que a equipe explique também ao acompanhante o que está acontecendo, quando você pedir.

5) Intervenções e procedimentos

O plano de parto é especialmente útil para registrar como você prefere lidar com intervenções comuns, por exemplo:

  • Toques vaginais: frequência mínima necessária e sempre com explicação e consentimento.
  • Monitorização fetal: contínua ou intermitente, conforme indicação e disponibilidade.
  • Rompimento artificial da bolsa (amniotomia): discutir indicações e alternativas.
  • Uso de ocitocina para indução/aceleração: quando considerar, como será monitorado, e quais sinais levariam a reduzir/suspender.
  • Episiotomia: preferência por evitar de rotina e usar apenas se houver indicação clara.
  • Manobra de pressão no fundo do útero: preferência por não realizar (por ser controversa e não recomendada rotineiramente em muitos protocolos).

Opções de parto apresentadas de forma neutra: vaginal e cesárea

Parto vaginal

Em geral, o parto vaginal envolve trabalho de parto com dilatação progressiva e nascimento pela via vaginal. Pode ocorrer de forma espontânea ou com intervenções (por exemplo, indução). Algumas pessoas valorizam a recuperação mais rápida e a possibilidade de mobilidade precoce; outras podem ter receio da dor ou de lacerações. O importante é entender como o serviço conduz o trabalho de parto e quais recursos de alívio de dor estão disponíveis.

Cesárea

A cesárea é um parto cirúrgico. Pode ser indicada por motivos maternos ou do bebê, ou planejada em situações específicas. Também pode ocorrer após tentativa de parto vaginal, se surgirem indicações durante o trabalho de parto. Algumas pessoas se sentem mais seguras com a previsibilidade; outras preferem evitar cirurgia por conta da recuperação e riscos inerentes. Uma escolha informada considera benefícios, riscos, histórico clínico e contexto do serviço.

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Quando condutas podem mudar (e por quê)

Mesmo com um plano bem feito, algumas situações podem exigir mudanças. Exemplos de cenários em que a equipe pode propor outra conduta:

  • Sinais de sofrimento fetal (alterações persistentes nos batimentos do bebê).
  • Trabalho de parto que não progride apesar de medidas adequadas (por exemplo, dilatação estacionada com contrações insuficientes).
  • Febre materna ou suspeita de infecção.
  • Sangramento importante ou suspeita de descolamento placentário.
  • Alterações de pressão com repercussão clínica.
  • Apresentação fetal desfavorável identificada tardiamente (por exemplo, transversa) ou outras condições que mudem o risco-benefício.

Nesses momentos, o plano de parto continua útil porque orienta como você quer ser informada, quais alternativas deseja considerar e quais limites são importantes para você, sempre dentro do que for seguro.

Consentimento informado: como garantir escolhas reais

Consentimento informado significa que você recebe informação clara, compreensível e suficiente para decidir, sem pressão indevida. Na prática, ajuda usar um roteiro curto para qualquer proposta de intervenção. Você pode pedir que a equipe responda, de forma objetiva:

  • O que está sendo proposto?
  • Por que é necessário agora?
  • Quais benefícios esperados?
  • Quais riscos e efeitos colaterais?
  • Quais alternativas existem (inclusive esperar e reavaliar)?
  • O que acontece se eu disser “não” ou “ainda não”?

Uma forma prática de lembrar é o mnemônico BRAIN:

B - Benefits (benefícios)
R - Risks (riscos)
A - Alternatives (alternativas)
I - Intuition (como você se sente / valores)
N - Nothing (o que acontece se não fizer agora)

Você pode registrar no plano de parto que deseja que qualquer intervenção seja explicada usando esse roteiro, sempre que houver tempo clínico.

Passo a passo prático para criar seu plano de parto

Passo 1: Defina prioridades (o “essencial” e o “desejável”)

Liste 3 a 5 itens inegociáveis (por exemplo: presença do acompanhante, comunicação clara, contato pele a pele se o bebê estiver bem) e 5 a 10 preferências desejáveis (por exemplo: luz baixa, banho, posições).

Passo 2: Conheça as regras e recursos do local

Antes de finalizar, confirme o que o hospital/centro de parto oferece e o que é permitido. Isso evita frustração e ajuda a adaptar o plano ao cenário real (por exemplo: disponibilidade de banqueta, bola, analgesia, presença de doula, política de visitas).

Passo 3: Escreva curto, em tópicos, com linguagem objetiva

Evite textos longos. A equipe precisa ler rapidamente. Use frases como “Prefiro…”, “Gostaria de…”, “Se for necessário… então…”.

Passo 4: Inclua “planos alternativos”

Além do “cenário ideal”, descreva preferências caso haja indução, necessidade de ocitocina, analgesia, parto instrumental (se aplicável no serviço) ou cesárea. Isso reduz decisões no susto.

Passo 5: Revise com a equipe e leve versões impressas

Leve o plano para discutir em consulta e ajuste termos. No final, imprima 2 a 3 cópias (uma para você, uma para o prontuário, uma para o acompanhante). Se possível, tenha também uma versão no celular.

Modelo de plano de parto preenchível (tópicos objetivos)

Como usar: copie e preencha. Marque o que faz sentido para você e risque o que não se aplica.

SeçãoMinhas preferências
IdentificaçãoNome: ____ Data provável do parto: ____ Acompanhante: ____ Doula (se houver): ____ Contato: ____
Comunicação e consentimento( ) Quero explicação antes de qualquer procedimento e tempo para perguntas quando possível. ( ) Prefiro que usem linguagem simples. ( ) Quero que meu acompanhante esteja presente nas explicações importantes. ( ) Usar roteiro BRAIN para decisões.
Ambiente( ) Luz baixa ( ) Música ( ) Poucas interrupções ( ) Privacidade ( ) Permitir movimentação livre quando possível.
Acompanhante( ) Presença contínua do acompanhante. ( ) Acompanhante autorizado a fotografar/filmar: sim ( ) não ( ) conforme regras do local.
Alívio de dor (sem medicação)( ) Banho/chuveiro ( ) Banheira ( ) Bola ( ) Massagem ( ) Compressas ( ) Técnicas de respiração ( ) TENS (se disponível) ( ) Outros: ____
Alívio de dor (com medicação)( ) Quero tentar sem analgesia inicialmente e reavaliar. ( ) Considero analgesia se: ____ (ex.: exaustão, dor intensa). ( ) Quero informações sobre opções disponíveis e efeitos.
Monitorização e exames( ) Preferência por monitorização intermitente se estiver tudo bem. ( ) Aceito monitorização contínua se houver indicação clínica. ( ) Toques vaginais: apenas quando necessário, com consentimento e explicação.
Intervenções no trabalho de parto( ) Se sugerirem romper bolsa, quero entender motivo e alternativas. ( ) Se sugerirem ocitocina, quero discutir dose, monitorização e critérios de pausa. ( ) Se sugerirem indução, quero saber método, tempo esperado e plano de reavaliação.
Período expulsivo (hora de nascer)( ) Preferência por posições: ____ (ex.: lateral, cócoras, quatro apoios). ( ) Prefiro puxos espontâneos quando possível. ( ) Episiotomia: evitar de rotina; aceitar apenas com indicação e explicação. ( ) Não realizar pressão no fundo do útero.
Se houver necessidade de cesárea( ) Quero que expliquem a indicação e alternativas, se houver tempo seguro. ( ) Acompanhante presente na sala (se permitido). ( ) Cortina baixa/transparente: sim ( ) não ( ) indiferente. ( ) Contato pele a pele assim que possível. ( ) Fotos: sim ( ) não ( ) conforme regras.
Cuidados imediatos com o bebê( ) Contato pele a pele na primeira hora se bebê e mãe estiverem bem. ( ) Amamentação na primeira hora com apoio. ( ) Procedimentos (pesagem, medidas, banho) após a primeira hora, se possível. ( ) Clampeamento do cordão: aguardar ( ) tempo: ____ ( ) conforme avaliação clínica. ( ) Vitamina K e colírio: quero orientação e consentimento antes.
Se o bebê precisar de cuidados especiais( ) Quero ser informada imediatamente. ( ) Acompanhante deve acompanhar o bebê sempre que possível. ( ) Quero contato assim que liberado. ( ) Ordenha/extração de leite orientada, se necessário.
Preferências adicionais____

Perguntas para discutir com a equipe (checklist de consulta)

Sobre o local e a equipe

  • Quem costuma estar presente no trabalho de parto e no parto (médico, enfermeira obstetra, pediatra/neonatologista)?
  • Quais práticas são padrão aqui (monitorização, acesso venoso, dieta/hidratação, mobilidade)?
  • Qual é a política para acompanhante e doula?
  • Quais recursos existem para alívio de dor (banho, bola, analgesia)? Em quais horários estão disponíveis?

Sobre intervenções e tomada de decisão

  • Em quais situações vocês recomendam indução? Quais métodos usam e como escolhem entre eles?
  • Quando vocês sugerem romper a bolsa? O que muda se eu preferir esperar?
  • Como vocês definem “trabalho de parto sem progressão” e quais medidas tentam antes de indicar cesárea?
  • Como é feita a monitorização do bebê? Quando ela precisa ser contínua?
  • Como vocês lidam com lacerações e episiotomia? Em que casos indicam?

Sobre analgesia e conforto

  • Quais opções de analgesia existem e quanto tempo costuma levar para serem realizadas após eu pedir?
  • Se eu quiser tentar sem analgesia, que suporte prático a equipe oferece (banho, posições, massagens, bola)?
  • Posso comer e beber durante o trabalho de parto? Em quais condições isso muda?

Sobre cesárea (se necessária ou planejada)

  • Quais são as indicações mais comuns de cesárea no serviço?
  • Se for necessária, meu acompanhante pode ficar comigo o tempo todo?
  • É possível contato pele a pele na sala de cirurgia? Se não, qual é o plano alternativo?
  • Como é o controle de dor no pós-operatório imediato?

Sobre o bebê logo após nascer

  • Como vocês organizam a primeira hora (pele a pele, amamentação, procedimentos)?
  • Em que situações o bebê vai para avaliação imediata e por quanto tempo?
  • Se o bebê precisar ir para observação, o acompanhante pode acompanhar?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual afirmação descreve melhor a função de um plano de parto na primeira gestação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O plano de parto registra preferências e facilita a comunicação e decisões com consentimento informado. Não é um contrato e pode mudar se o quadro exigir, priorizando segurança materno-fetal.

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