Pipeline prático de um modelo de Redes Neurais: preparação de dados, treino e avaliação confiável

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é um pipeline prático e reprodutível

Um pipeline é uma sequência organizada de etapas que transforma dados brutos em um modelo treinado e avaliado de forma confiável. Ele é reprodutível quando outra pessoa (ou você no futuro) consegue executar o mesmo fluxo e obter resultados equivalentes, graças a decisões explícitas: divisão de dados bem definida, transformações aprendidas apenas no treino, métricas adequadas e validação consistente.

Em redes neurais, um pipeline bem feito evita dois problemas frequentes: (1) otimismo artificial na avaliação (por vazamento de dados ou métricas inadequadas) e (2) resultados instáveis (por falta de controle de aleatoriedade e validação).

Visão geral do fluxo (do dado ao relatório)

  • Definir tarefa e unidade de previsão: classificação (binária/multiclasse/multirrótulo) ou regressão; qual é o alvo; qual é a granularidade (por usuário, por transação, por janela temporal).
  • Separar dados: treino/validação/teste (ou validação cruzada), respeitando o tipo de dado (i.i.d., temporal, por grupo).
  • Pré-processar features: normalização/padronização de numéricos; codificação de categóricos; tratamento de faltantes; tudo aprendido no treino e aplicado nos demais splits.
  • Codificar rótulos: mapear classes para índices; garantir consistência entre splits; lidar com classes raras.
  • Treinar: executar o loop de treino com controle de sementes e registro de hiperparâmetros.
  • Avaliar: escolher métricas alinhadas ao objetivo; reportar intervalos/variação quando aplicável; analisar erros.
  • Validar e ajustar hiperparâmetros: processo controlado com validação; evitar “espiar” o teste.

Passo a passo prático: divisão de dados (split) sem armadilhas

1) Treino, validação e teste: papéis diferentes

  • Treino: usado para ajustar os pesos do modelo.
  • Validação: usado para escolher hiperparâmetros, limiares de decisão, e comparar variantes.
  • Teste: usado uma única vez (ou poucas) para estimar desempenho final; não deve influenciar decisões.

2) Como dividir depende do tipo de dado

  • Dados i.i.d. (sem dependência temporal ou por grupo): split aleatório estratificado (em classificação) para preservar proporção de classes.
  • Séries temporais: split por tempo (treino no passado, validação/teste no futuro). Evita “ver o futuro”.
  • Dados por grupo (ex.: múltiplas amostras por paciente/cliente): split por grupo (Group Split) para impedir que o mesmo indivíduo apareça em treino e teste.

3) Controle de aleatoriedade

Para reprodutibilidade, registre e fixe sementes (quando possível) e documente versões de bibliotecas. Em pipelines, a semente deve afetar: embaralhamento, inicialização, amostragem e divisão de dados.

Pré-processamento de features: normalização/padronização e codificações

Padronização vs normalização (quando usar)

  • Padronização (z-score): transforma cada feature numérica para média 0 e desvio 1. Útil quando escalas variam muito (idade vs renda) e para estabilizar otimização.
  • Normalização (min-max): mapeia para um intervalo (ex.: 0 a 1). Útil quando você quer limites fixos e interpretáveis, ou quando há restrições de faixa.

Regra de ouro: o “ajuste” do scaler (média, desvio, mínimo, máximo) deve ser feito somente no treino. Depois, aplica-se a mesma transformação em validação e teste.

Tratamento de valores faltantes

  • Numéricos: imputação por mediana/média (ajustada no treino) ou um valor sentinela + indicador de ausência.
  • Categóricos: categoria “desconhecido” ou imputação pela moda (ajustada no treino).

Codificação de variáveis categóricas

  • One-hot: bom para baixa cardinalidade; aumenta dimensionalidade.
  • Ordinal/label encoding: cuidado em impor ordem inexistente; pode ser aceitável em certos modelos, mas em redes neurais costuma ser melhor usar embeddings para alta cardinalidade.
  • Embeddings: mapeiam categorias para vetores densos treináveis; exigem atenção a categorias raras e “out-of-vocabulary”.

Codificação de rótulos (targets) e consistência

Classificação

  • Binária: mapear para {0,1}. Defina claramente qual é a classe positiva (isso afeta precisão/recall, AUC e limiar).
  • Multiclasse: mapear classes para índices (0..K-1). Mantenha um dicionário de mapeamento persistido.
  • Desbalanceamento: considere pesos de classe, amostragem ou métricas robustas (F1, AUC, PR-AUC).

Regressão

  • Escala do alvo: em alguns casos, normalizar o alvo (ex.: z-score) pode ajudar; mas lembre-se de reverter a escala para interpretar métricas no domínio original.
  • Outliers: podem distorcer MSE; avalie MAE e análise de resíduos.

Escolha de métricas: alinhar com o objetivo do problema

Classificação: acurácia, F1, AUC (ROC e PR)

Acurácia mede a fração de acertos. É adequada quando classes são balanceadas e custos de erro são similares. Em desbalanceamento, pode ser enganosa.

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F1-score é a média harmônica entre precisão e recall. É útil quando você quer equilibrar falsos positivos e falsos negativos, especialmente com classes raras. Em multiclasse, especifique: macro (média por classe) ou weighted (ponderada pelo suporte).

AUC-ROC avalia a capacidade de ranquear positivos acima de negativos, independente de limiar. É útil para comparar modelos quando o limiar ainda não está definido. Em forte desbalanceamento, considere também PR-AUC (área sob curva Precisão-Recall), mais sensível à classe positiva rara.

Regressão: MAE e MSE

  • MAE (erro absoluto médio): mais robusto a outliers; interpreta-se na unidade do alvo.
  • MSE (erro quadrático médio) e RMSE: penalizam mais erros grandes; úteis quando grandes desvios são especialmente ruins.

Exemplo de tabela de decisão de métricas

CenárioMétrica recomendadaPor quê
Classes balanceadasAcurácia + F1Acurácia é informativa; F1 complementa
Classe positiva raraF1 + PR-AUCFoca na classe rara e no trade-off precisão/recall
Ranking importa mais que limiarAUC-ROC (e PR-AUC se desbalanceado)Compara capacidade de ordenação
Regressão com outliersMAE (e análise de resíduos)Menos sensível a extremos
Regressão penalizando grandes errosMSE/RMSEErros grandes pesam mais

Validação confiável: como estimar desempenho sem se enganar

Validação simples (holdout) bem feita

Use um conjunto de validação para escolher hiperparâmetros e um teste separado para a estimativa final. Esse método é simples e eficiente quando há dados suficientes e o problema é relativamente estável.

Validação cruzada (quando faz sentido)

Na validação cruzada, você treina e avalia em múltiplas partições e agrega os resultados (média e desvio). É útil quando o dataset é pequeno ou quando você quer reduzir variância da estimativa.

  • K-fold: divide em K partes; cada parte vira validação uma vez.
  • Estratificado: preserva proporção de classes em cada fold (classificação).
  • Por grupo: garante que grupos não vazem entre folds.
  • Temporal: usa janelas crescentes (walk-forward) em séries temporais.

Importante: em redes neurais, validação cruzada pode ser cara. Uma alternativa prática é usar holdout + múltiplas sementes e reportar média/variância.

Ajuste de hiperparâmetros como processo controlado

O que entra como hiperparâmetro no pipeline

  • Pré-processamento: tipo de scaler, estratégia de imputação, dimensionalidade de embeddings.
  • Treino: taxa de aprendizado, batch size, número de épocas, scheduler, pesos de classe.
  • Arquitetura: número de camadas/unidades, dropout, normalizações, etc. (sem entrar em detalhes de arquitetura aqui, o foco é o processo).

Regras para não contaminar a avaliação

  • Escolha hiperparâmetros somente com base no conjunto de validação (ou folds).
  • Não ajuste decisões (ex.: limiar, seleção de features) olhando o teste.
  • Registre cada experimento: hiperparâmetros, seed, split, métrica e artefatos (scaler, mapeamento de rótulos).

Busca em grade vs aleatória

  • Grid search: testa combinações em uma grade fixa. Bom quando há poucos hiperparâmetros e faixas pequenas.
  • Random search: amostra combinações aleatórias. Frequentemente encontra bons resultados mais rápido quando há muitos hiperparâmetros e alguns são mais importantes que outros.

Validação cruzada para tuning (quando aplicável)

Quando o dataset é pequeno, você pode usar validação cruzada para escolher hiperparâmetros. Em cenários de alto risco de overfitting na validação, considere validação cruzada aninhada (nested CV): um loop interno para tuning e um externo para estimar desempenho. Isso aumenta custo, mas reduz viés de seleção.

Exemplo de pipeline reprodutível (pseudocódigo)

O ponto central é encapsular transformações e garantir que fit aconteça apenas no treino.

# 1) Definir seed e split (ex.: estratificado para classificação i.i.d. ou por tempo/grupo quando necessário) seed = 42 train_idx, val_idx, test_idx = split_indices(X, y, seed=seed, strategy="stratified") X_train, y_train = X[train_idx], y[train_idx] X_val, y_val     = X[val_idx], y[val_idx] X_test, y_test   = X[test_idx], y[test_idx] # 2) Ajustar pré-processamento SOMENTE no treino scaler = StandardScaler() scaler.fit(X_train_numeric) X_train_num = scaler.transform(X_train_numeric) X_val_num   = scaler.transform(X_val_numeric) X_test_num  = scaler.transform(X_test_numeric) label_map = fit_label_encoder(y_train) y_train_enc = transform_labels(y_train, label_map) y_val_enc   = transform_labels(y_val, label_map) y_test_enc  = transform_labels(y_test, label_map) # 3) Treinar e selecionar hiperparâmetros usando validação best_cfg = None best_score = -inf for cfg in sample_hyperparams(method="random", n=30, seed=seed): model = build_model(cfg) model.fit(X_train_processed, y_train_enc) val_pred = model.predict_proba(X_val_processed) score = metric(y_val_enc, val_pred) if score > best_score: best_score = score best_cfg = cfg # 4) Re-treinar com melhor configuração (opcional: treino+val) final_model = build_model(best_cfg) final_model.fit(concat(X_train, X_val), concat(y_train_enc, y_val_enc)) # 5) Avaliar UMA vez no teste test_pred = final_model.predict_proba(X_test_processed) report_metrics(y_test_enc, test_pred)

Erros comuns (e como evitar)

1) Vazamento de dados (data leakage)

Vazamento ocorre quando informação do conjunto de validação/teste influencia o treino, direta ou indiretamente, inflando métricas.

  • Scaler/imputação ajustados no dataset inteiro: errado. Ajuste apenas no treino.
  • Seleção de features antes do split: errado. Qualquer seleção baseada no alvo deve ocorrer dentro do treino/validação.
  • Target leakage: features que carregam o alvo disfarçado (ex.: “status_final” para prever “inadimplência”). Remova ou redefina a janela temporal.
  • Duplicatas e quase-duplicatas: a mesma entidade aparece em treino e teste (ex.: imagens muito similares, registros replicados). Deduplicar e/ou split por grupo.

2) Métricas inadequadas para o objetivo

  • Acurácia em dataset desbalanceado: pode parecer alta mesmo com modelo inútil. Use F1, PR-AUC, matriz de confusão e métricas por classe.
  • Otimizar AUC e operar com limiar ruim: AUC não escolhe limiar. Defina limiar com validação (ex.: maximizar F1, ou custo esperado) e reporte desempenho nesse limiar.
  • Comparar MAE e MSE sem considerar impacto: MSE penaliza grandes erros; escolha conforme o custo do erro.

3) Avaliação em distribuição diferente (dataset shift)

O desempenho pode cair quando a distribuição do dado em produção difere da do treino/teste.

  • Shift temporal: comportamento muda com o tempo. Use split temporal e monitore degradação.
  • Shift de população: novos tipos de usuários/itens. Faça validação por coortes e verifique cobertura de categorias.
  • Shift de instrumentação: mudança em sensores, coleta ou pré-processamento. Versione o pipeline e valide novamente.

Uma prática útil é reportar métricas por fatias (ex.: por região, por faixa etária, por dispositivo) para detectar degradações localizadas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um pipeline reprodutível de redes neurais, qual prática reduz o risco de vazamento de dados durante o pré-processamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para evitar vazamento, as estatísticas do pré-processamento (média, desvio, mínimos/máximos, imputação) devem ser aprendidas apenas no treino. Depois, aplica-se a mesma transformação em validação e teste, mantendo a avaliação confiável.

Próximo capitúlo

Depuração e interpretação em Redes Neurais: curvas de aprendizado, ablações e análise de erros

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