Papel da Enfermagem na Triagem e Classificação de Risco em Urgência e Emergência

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Objetivos da triagem no pronto atendimento

A triagem e a classificação de risco no pronto atendimento têm como objetivo principal identificar rapidamente quem precisa de atendimento imediato, quem pode aguardar com segurança e quais recursos devem ser mobilizados para reduzir risco de deterioração clínica. Na prática, isso significa organizar o fluxo assistencial com base em gravidade, risco e necessidade de intervenção, e não por ordem de chegada.

  • Priorizar risco de morte e perda de função: reconhecer sinais de instabilidade (respiratória, hemodinâmica, neurológica) e acionar resposta imediata.
  • Direcionar o paciente ao local certo: sala de emergência, sala de procedimentos, consultório, observação, isolamento, entre outros.
  • Reduzir tempo até intervenções críticas: oxigênio, monitorização, acesso venoso, glicemia capilar, ECG, analgesia conforme protocolo, entre outras medidas iniciais.
  • Padronizar decisões e diminuir variabilidade: usar critérios objetivos e protocolos para aumentar consistência e justiça no atendimento.
  • Aumentar segurança do paciente: evitar atrasos em quadros tempo-dependentes e reduzir eventos adversos relacionados à espera.

Responsabilidades da enfermagem, limites de atuação e prioridades assistenciais

Responsabilidades centrais da enfermagem na triagem

  • Acolher e identificar risco imediato: reconhecer sinais de alarme e iniciar medidas de suporte conforme protocolos institucionais.
  • Coletar dados essenciais com foco em risco: queixa principal, início e evolução, sinais vitais, nível de consciência, dor, comorbidades relevantes, uso de anticoagulantes, alergias e fatores de vulnerabilidade (idoso frágil, gestante, imunossuprimido).
  • Classificar o risco e definir prioridade: atribuir categoria de risco conforme protocolo adotado no serviço, registrando justificativa clínica objetiva.
  • Direcionar fluxo e acionar equipe: encaminhar para o setor adequado e comunicar imediatamente casos críticos ao médico e à equipe multiprofissional.
  • Implementar intervenções iniciais padronizadas: medidas previstas em protocolos de enfermagem (por exemplo, monitorização, posicionamento, oxigênio, glicemia capilar, ECG quando indicado, analgesia protocolada, coleta de exames quando previsto).
  • Reavaliar e reclassificar quando necessário: monitorar pacientes em espera e detectar piora clínica.
  • Documentar de forma completa e rastreável: horário de chegada, horário de triagem, sinais vitais, categoria, condutas iniciais, orientações e reavaliações.

Limites de atuação: o que a enfermagem deve observar

Os limites de atuação variam conforme legislação, protocolos institucionais e competências profissionais. Na triagem, a enfermagem atua com autonomia técnica para avaliar, classificar risco e iniciar medidas previstas em protocolos, mas deve reconhecer situações que exigem avaliação médica imediata e evitar extrapolar para diagnóstico médico ou prescrição fora de protocolos.

  • Não substituir avaliação médica em situações de instabilidade: sinais de choque, rebaixamento de consciência, insuficiência respiratória, dor torácica sugestiva de síndrome coronariana, sinais de AVC, convulsão ativa, entre outros.
  • Evitar “diagnosticar”: registrar achados e hipóteses de risco (ex.: “dor torácica com sudorese e náuseas”) em vez de afirmar diagnóstico (“infarto”).
  • Intervenções somente conforme protocolos: analgesia, antieméticos, broncodilatadores, fluidos, exames e outros devem seguir diretrizes locais e prescrição quando aplicável.
  • Garantir consentimento e privacidade: especialmente em queixas sensíveis (violência, saúde sexual, psiquiatria), mantendo confidencialidade e segurança.

Prioridades assistenciais na triagem (ordem prática)

  1. Identificar risco imediato (primeiros segundos): aparência geral, fala, esforço respiratório, perfusão, sangramento ativo, convulsão, agitação extrema.
  2. ABC e sinais vitais essenciais: saturação, frequência respiratória, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, glicemia quando indicado.
  3. Queixa principal e tempo de início: reconhecer condições tempo-dependentes (ex.: dor torácica, déficit neurológico súbito, sepse, anafilaxia).
  4. Dor e sofrimento: mensurar e tratar conforme protocolo, sem atrasar reconhecimento de gravidade.
  5. Risco de deterioração na espera: comorbidades, idade extrema, gestação, imunossupressão, anticoagulação, sinais de desidratação, vômitos persistentes.

Diferença prática entre acolhimento, triagem, classificação de risco e reavaliação

Acolhimento

É a abordagem inicial centrada na pessoa: escuta qualificada, orientação do fluxo, identificação de necessidades imediatas e garantia de acesso. Pode ocorrer antes, durante ou após a triagem, e não se limita a atribuir prioridade. Exemplo prático: paciente chega ansioso e com dor; a equipe acolhe, orienta sobre o processo, verifica rapidamente se há sinais de gravidade e garante privacidade.

Triagem

É a avaliação clínica breve e estruturada para identificar gravidade e necessidades imediatas. Envolve coleta dirigida de dados e exame focado. Exemplo prático: medir sinais vitais, avaliar nível de consciência, caracterizar a queixa (início, fatores associados) e identificar sinais de alarme.

Classificação de risco

É a decisão resultante da triagem: atribuir uma categoria/prioridade que define tempo máximo recomendado para atendimento e destino inicial. Exemplo prático: paciente com dispneia e saturação baixa é classificado como alta prioridade e encaminhado diretamente para área de emergência.

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Reavaliação

É a rechecagem periódica do paciente que aguarda atendimento ou está em observação inicial, para detectar piora e ajustar prioridade/destino. Exemplo prático: paciente inicialmente estável com dor abdominal passa a apresentar hipotensão e sudorese; a enfermagem reavalia, reclassifica e aciona equipe imediatamente.

Mapa do processo: da chegada ao destino assistencial

A seguir, um mapa prático do fluxo, com pontos de decisão e destinos possíveis. O objetivo é reduzir atrasos em condições críticas e evitar que pacientes de alto risco permaneçam em sala de espera.

Chegada do paciente → Acolhimento inicial (observação rápida) → Triagem (dados essenciais) → Classificação de risco → Definição de destino → Intervenções iniciais + Reavaliação (se houver espera)

1) Chegada do paciente: observação rápida e segurança

O que a enfermagem faz: observa sinais evidentes de gravidade antes mesmo de iniciar perguntas longas. Se houver risco imediato, interrompe o fluxo comum e aciona atendimento emergencial.

  • Decisão: há ameaça imediata à vida?
  • Se sim: encaminhar direto para sala de emergência e acionar equipe.
  • Se não: seguir para triagem estruturada.

Exemplo: paciente chega cianótico, com fala entrecortada e uso de musculatura acessória. Consequência de atraso: piora rápida da hipóxia, risco de parada respiratória.

2) Acolhimento inicial: escuta e orientação sem perder tempo crítico

O que a enfermagem faz: identifica a queixa principal, orienta sobre etapas e verifica necessidades imediatas (cadeira de rodas, maca, isolamento, acompanhante, risco de queda).

  • Decisão: há necessidade de isolamento imediato (ex.: sintomas respiratórios com febre, exantema, diarreia intensa em surto)?
  • Se sim: direcionar para área definida e aplicar precauções.

Exemplo: paciente com tosse intensa e febre alta em período de circulação viral: direcionar para área respiratória reduz exposição de outros pacientes e equipe.

3) Triagem: avaliação breve, objetiva e focada em risco

Passo a passo prático (modelo aplicável):

  1. Identificação e queixa principal: “O que trouxe você hoje?” e “Quando começou?”
  2. Sinais vitais essenciais: PA, FC, FR, SpO2, temperatura; glicemia capilar quando indicado.
  3. Avaliação rápida neurológica: nível de consciência, orientação, sinais de déficit focal, convulsão recente.
  4. Avaliação respiratória e perfusão: esforço respiratório, cianose, enchimento capilar, pele fria/pegajosa.
  5. Dor: intensidade, localização, irradiação, fatores associados; considerar analgesia conforme protocolo sem mascarar sinais de gravidade.
  6. Riscos específicos: gestação, anticoagulantes, alergias, comorbidades relevantes, imunossupressão, fragilidade.
  7. Registro objetivo: dados e horários, com linguagem descritiva.

Exemplo: dor torácica há 40 minutos, sudorese, náusea, PA limítrofe, SpO2 92%. Consequência de atraso: aumento do tempo até ECG e terapias tempo-dependentes.

4) Classificação de risco: transformar dados em prioridade e tempo

O que a enfermagem faz: atribui a categoria de risco conforme protocolo do serviço, com justificativa baseada em sinais/sintomas e parâmetros. A classificação deve ser auditável: quem classificou, quando, por quê.

Situação na triagemDecisão práticaDestino provávelRisco do atraso
Instabilidade respiratória (SpO2 baixa, esforço intenso)Prioridade máxima, acionar equipeSala de emergênciaParada respiratória, hipóxia grave
Déficit neurológico súbito (fala arrastada, hemiparesia)Atendimento imediato, fluxo de AVCSala de emergência / imagemPerda de janela terapêutica
Dor intensa sem instabilidade, mas com sinais de alarme (ex.: abdome rígido)Alta prioridade, avaliação rápidaConsultório prioritário / procedimentosPerfuração, sepse, choque
Queixa leve, sinais vitais normais, sem red flagsBaixa prioridade, orientar espera e sinais de retornoConsultórioBaixo, mas exige reavaliação se houver mudança

5) Definição de destino: para onde o paciente vai e por quê

Destinos comuns e critérios práticos:

  • Sala de emergência: instabilidade atual ou risco iminente (via aérea, respiração, circulação, consciência, sangramento importante). A enfermagem deve garantir monitorização, acesso rápido a equipamentos e comunicação imediata.
  • Sala de procedimentos: necessidade de intervenção breve e direcionada (ex.: curativo complexo, sutura, imobilização, medicação parenteral protocolada, ECG imediato quando indicado). Deve haver critério para não “estacionar” paciente grave nesse local.
  • Consultório/atendimento médico: paciente estável que precisa avaliação diagnóstica e conduta, sem necessidade de monitorização contínua.
  • Observação: necessidade de monitorização seriada, medicações e reavaliação clínica (ex.: dor que precisa reavaliação após analgesia, broncoespasmo leve a moderado após nebulização, desidratação leve com reposição). Exige plano de reavaliação e critérios de alta/encaminhamento.

Exemplo de decisão: paciente com crise asmática moderada, SpO2 94%, fala frases curtas, melhora parcial após primeira nebulização. Destino: observação para ciclos terapêuticos e reavaliação. Consequência de atraso na reavaliação: piora silenciosa, fadiga respiratória.

6) Intervenções iniciais e comunicação: o que não pode falhar

Intervenções iniciais devem ser executadas conforme protocolos e disponibilidade, sem atrasar encaminhamento do paciente grave. Comunicação deve ser clara, objetiva e com prioridade definida.

  • Comunicação de caso crítico: informar achados-chave, sinais vitais, tempo de início, intervenções realizadas e resposta.
  • Registro: horários (chegada, triagem, encaminhamento, reavaliações) e justificativa da prioridade.

Exemplo de comunicação objetiva (modelo):

Paciente 62a, dor torácica há 40 min, sudorese, náusea. PA 90/60, FC 112, SpO2 92%. Classificado alta prioridade. Encaminhado à emergência para ECG e monitorização imediata.

7) Reavaliação na espera: evitar deterioração “invisível”

Quando há fila, a reavaliação é uma barreira de segurança. A enfermagem deve definir intervalos de rechecagem conforme prioridade e risco, e reclassificar se houver mudança clínica.

  • O que reavaliar: dor, nível de consciência, padrão respiratório, perfusão, sinais vitais, sangramento, vômitos, febre, comportamento (agitação/sonolência).
  • Gatilhos para reclassificação imediata: queda de pressão, aumento importante de FC/FR, queda de saturação, confusão mental, piora da dor, palidez intensa, sudorese fria, sangramento ativo, convulsão, vômitos incoercíveis.

Exemplo: paciente aguardando com febre e mal-estar passa a ficar confuso e taquicárdico. Consequência de atraso: progressão para sepse grave sem reconhecimento oportuno.

Impacto na segurança do paciente: decisões e consequências de atrasos

Na triagem, atrasos não são apenas “tempo de espera”: podem significar perda de janela terapêutica, piora clínica e aumento de eventos adversos. A enfermagem atua como barreira de segurança ao reconhecer precocemente risco e ao manter vigilância ativa.

Ponto do processoErro/atraso comumConsequência possívelAção preventiva da enfermagem
ChegadaNão reconhecer instabilidade na portaParada cardiorrespiratória em sala de esperaObservação rápida e acionamento imediato
TriagemColeta incompleta de sinais vitaisSubclassificação de riscoChecklist de sinais vitais essenciais e red flags
ClassificaçãoBasear prioridade só na queixa, sem parâmetrosFila inadequada para paciente graveJustificar com dados objetivos e protocolo
DestinoEncaminhar paciente instável para consultórioAtraso em monitorização e suporteCritérios claros de encaminhamento e escalonamento
EsperaSem reavaliação programadaDeterioração não detectadaReavaliação por risco e gatilhos de reclassificação

Exemplos integrados de fluxo (decisão → destino)

Cenário 1: dor torácica com sinais de instabilidade

  • Chegada: paciente pálido, sudorese.
  • Triagem: PA baixa, FC alta, SpO2 reduzida, dor opressiva.
  • Classificação: prioridade máxima/alta.
  • Destino: sala de emergência para monitorização e ECG imediato.
  • Se atrasar: piora hemodinâmica, arritmias, aumento de dano miocárdico.

Cenário 2: corte em mão com sangramento controlado e sinais vitais normais

  • Chegada: sangramento já contido com compressão.
  • Triagem: sinais vitais normais, sem sinais de choque, dor moderada.
  • Classificação: baixa a média prioridade conforme extensão e risco funcional.
  • Destino: sala de procedimentos/consultório para avaliação de sutura e profilaxias conforme rotina.
  • Se atrasar: aumento de dor, maior risco de contaminação e pior resultado funcional se houver lesão tendínea não reconhecida (exige atenção a sinais de alarme e reavaliação).

Cenário 3: idoso com fraqueza e confusão recente

  • Chegada: acompanhante relata início nas últimas horas.
  • Triagem: alteração do nível de consciência, possível febre, taquicardia; checar glicemia capilar quando indicado.
  • Classificação: alta prioridade por risco de sepse, hipoglicemia, AVC ou outras causas graves.
  • Destino: emergência ou área de monitorização/observação com avaliação imediata.
  • Se atrasar: progressão de sepse, queda, broncoaspiração, piora neurológica.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem em pronto atendimento, qual conduta da enfermagem melhor atende ao objetivo de reduzir risco de deterioração clínica e aumentar a segurança do paciente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A triagem organiza o fluxo por gravidade e risco, não por ordem de chegada. A enfermagem coleta dados essenciais, classifica e justifica a prioridade, direciona o destino, inicia intervenções conforme protocolos e reavalia pacientes em espera para detectar deterioração.

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