O que é comunicação clara e objetiva (na prática)
Comunicação clara é quando a pessoa entende sua mensagem na primeira vez, sem precisar “adivinhar” o que você quis dizer. Comunicação objetiva é quando você entrega o essencial com o mínimo de desvio: sem excesso de contexto, sem voltas, sem detalhes que não mudam a decisão do público.
Uma fala pode ser correta e ainda assim confusa. Normalmente isso acontece por três motivos: falta de intenção (por que estou falando?), falta de mensagem central (o que quero que fique?) e falta de ajuste ao público (para quem estou falando?).
Os 3 pilares de uma fala clara
1) Intenção: o que você quer causar no público
Intenção é o efeito desejado ao final da fala. Exemplos de intenções bem definidas:
- Informar: “Quero que entendam o novo processo e saibam o que fazer.”
- Convencer: “Quero que aprovem a proposta X hoje.”
- Alinhar: “Quero que todos saiam com as mesmas prioridades da semana.”
- Ensinar: “Quero que consigam aplicar o passo a passo sem ajuda.”
Quando a intenção não está clara, você tende a falar “de tudo um pouco”, e o público não sabe o que fazer com a informação.
2) Mensagem central: a frase que resume o núcleo
Mensagem central é a ideia única que organiza todo o resto. Ela funciona como um filtro: se uma informação não ajuda a provar/explicar essa mensagem, ela sai.
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Exemplos de mensagem central:
- “Vamos reduzir retrabalho padronizando a entrada de pedidos.”
- “O projeto é viável se ajustarmos prazo e escopo.”
- “A prioridade do trimestre é aumentar retenção, não aquisição.”
3) Público: o que eles já sabem, o que valorizam e o que temem
Clareza depende do repertório do público. A mesma ideia pode ser clara para um time técnico e confusa para um time comercial. Para ajustar, responda:
- O que eles já sabem? (evita explicar o óbvio ou pular o básico)
- O que eles precisam decidir/fazer? (orienta o foco)
- Que termos podem gerar confusão? (evita jargões)
- O que eles valorizam? (tempo, risco, custo, qualidade, impacto)
Como reduzir ruídos de comunicação
Ruído é tudo que atrapalha a compreensão: palavras vagas, excesso de informação, estrutura confusa, termos técnicos sem tradução, exemplos inexistentes, frases longas e mudanças de assunto sem aviso.
Checklist de ruídos comuns (e como corrigir)
| Ruído | Como aparece | Correção prática |
|---|---|---|
| Abstração | “Precisamos melhorar a experiência do cliente.” | Defina comportamento observável: “Reduzir o tempo de resposta no chat de 10 para 3 minutos.” |
| Jargão | “Vamos otimizar o pipeline com um framework.” | Traduza: “Vamos organizar as etapas do funil e definir responsáveis por etapa.” |
| Excesso de contexto | Começa “do começo do mundo” | Comece pelo objetivo e pelo pedido; contexto só se mudar a decisão. |
| Frases longas | Uma frase com 4 ideias | Quebre em 2–4 frases curtas, uma ideia por frase. |
| Redundância | Repete a mesma ideia com palavras diferentes | Escolha a melhor formulação e corte o resto. |
| Transições invisíveis | Muda de tema sem sinalizar | Use transições explícitas: “Agora, o segundo ponto…” |
Metodologia prática: Objetivo em 1 frase + 3 ideias-chave + exemplos concretos
Passo 1 — Defina o objetivo da fala em uma frase
Use um modelo simples. Escolha um e preencha:
- Modelo A (ação): “Ao final, quero que o público faça ______.”
- Modelo B (decisão): “Ao final, quero que o público decida ______.”
- Modelo C (entendimento): “Ao final, quero que o público entenda ______ para ______.”
Exemplos preenchidos:
- “Ao final, quero que o time adote o novo padrão de abertura de chamados a partir de segunda.”
- “Ao final, quero que a liderança aprove o orçamento do projeto com o ajuste de escopo.”
- “Ao final, quero que todos entendam as 3 prioridades da semana para evitar retrabalho.”
Teste de clareza: se você não consegue escrever o objetivo em uma frase, provavelmente sua fala ainda está grande demais.
Passo 2 — Selecione 3 ideias-chave (e só 3)
Três ideias são fáceis de acompanhar e lembrar. Para escolher, use o filtro: “Se eu só pudesse dizer três coisas para cumprir meu objetivo, quais seriam?”
Estrutura recomendada para as 3 ideias:
- Por quê isso importa (motivação/impacto)
- O quê vai mudar (mensagem principal)
- Como fazer (passos/combinações)
Exemplo (objetivo: adotar novo padrão de chamados):
- Ideia 1 (por quê): “Hoje perdemos tempo porque os chamados chegam incompletos.”
- Ideia 2 (o quê): “A partir de segunda, todo chamado terá 4 campos obrigatórios.”
- Ideia 3 (como): “Vou mostrar o modelo e onde encontrar; depois faremos um exemplo juntos.”
Passo 3 — Transforme termos abstratos em exemplos concretos
Termos abstratos são palavras que cada pessoa interpreta de um jeito: “melhorar”, “otimizar”, “qualidade”, “alinhamento”, “eficiência”, “experiência”, “inovação”. Para concretizar, use uma das três formas abaixo.
3 formas rápidas de concretizar
- Número: troque “mais rápido” por “de 48h para 24h”.
- Comportamento observável: troque “mais alinhamento” por “reunião de 15 minutos com pauta e decisão registrada”.
- Caso curto: descreva uma situação real em 2–3 frases.
Exemplos de conversão:
- Abstrato: “Precisamos melhorar a comunicação.” Concreto: “Vamos confirmar entendimento ao final: cada pessoa repete em uma frase o que vai entregar e até quando.”
- Abstrato: “Queremos elevar a qualidade.” Concreto: “Antes de enviar, vamos checar 3 itens: ortografia, dados atualizados e link funcionando.”
- Abstrato: “Vamos ser mais eficientes.” Concreto: “Vamos reduzir de 5 para 2 aprovações e definir um responsável final.”
Como construir mensagens com linguagem simples
Princípios de linguagem simples
- Uma ideia por frase (se tiver “e, e, e…”, provavelmente tem mais de uma).
- Verbos fortes (fazer, decidir, escolher, enviar, aprovar) em vez de “realizar/efetuar/viabilizar”.
- Palavras comuns em vez de termos rebuscados.
- Preferir voz ativa: “Nós vamos mudar o formulário” em vez de “O formulário será alterado”.
- Evitar “muletas vagas”: “basicamente”, “tipo”, “de certa forma”, “meio que”.
Frases curtas: um método de edição
Pegue uma frase longa e aplique:
- Corte o aquecimento (começos como “Eu queria só comentar rapidamente que…”).
- Quebre em blocos (2 a 4 frases).
- Troque substantivos abstratos por verbos (“fazer a implementação” → “implementar”).
Exemplo:
Antes: “Eu queria só comentar rapidamente que, considerando os últimos acontecimentos e os desafios que a gente vem enfrentando, seria interessante a gente pensar numa melhoria do processo de atendimento.”
Depois: “Temos atrasos no atendimento. A causa principal é a triagem incompleta. A partir de segunda, vamos padronizar a abertura de chamados com 4 campos obrigatórios.”
Transições explícitas (para o público nunca se perder)
Use frases-guia para sinalizar a estrutura:
- “Primeiro, o contexto em 20 segundos.”
- “Agora, o ponto principal.”
- “Segundo ponto: o que muda.”
- “Terceiro: como vamos fazer na prática.”
- “Para fechar esta parte: o que você precisa fazer hoje.”
Transição também serve para retomar: “Até aqui, vimos o porquê. Agora vamos ao como.”
Exercícios aplicáveis (com passo a passo)
Exercício 1 — Reescrever um texto longo para 60 segundos
Objetivo: treinar corte de excesso e foco no essencial.
Passo a passo:
- 1) Pegue um texto seu (e-mail, relatório, explicação de projeto) com 10–20 linhas.
- 2) Escreva o objetivo em 1 frase (modelo: “Ao final, quero que…”).
- 3) Extraia 3 ideias-chave (por quê / o quê / como).
- 4) Para cada ideia, escreva 1 frase curta (máximo 12–15 palavras).
- 5) Adicione 1 exemplo concreto (número, comportamento ou caso curto).
- 6) Leia em voz alta e ajuste para caber em 60 segundos.
Modelo de roteiro de 60 segundos (preencha):
Objetivo (1 frase): _________________________________. (5–8s) 1) Por quê: _________________________________. (10–15s) Exemplo: _________________________________. (10s) 2) O quê: _________________________________. (10–15s) 3) Como: _________________________________. (10–15s) Pedido final (1 frase): _________________________. (5–8s)Exercício 2 — Eliminar redundâncias (corte sem perder sentido)
Objetivo: reduzir repetição e deixar a fala mais “limpa”.
Passo a passo:
- 1) Escreva 8–10 frases sobre um tema que você costuma apresentar.
- 2) Marque palavras repetidas e expressões que não mudam a mensagem (ex.: “na verdade”, “basicamente”, “de certa forma”).
- 3) Para cada frase, pergunte: “Se eu cortar esta parte, o sentido muda?” Se não mudar, corte.
- 4) Troque pares redundantes por um termo só: “planejar com antecedência” → “planejar”; “consenso geral” → “consenso”.
- 5) Leia em voz alta: se ficar mais rápido e mais claro, você melhorou.
Lista de redundâncias comuns para caçar:
- “subir para cima”, “descer para baixo”
- “entrar para dentro”, “sair para fora”
- “planejar com antecedência”
- “resultado final”
- “metas e objetivos” (muitas vezes dá para escolher um)
- “exatamente igual”
Exercício 3 — Criar a ‘frase-mãe’ da apresentação
Objetivo: criar uma frase que guia tudo e evita dispersão.
O que é frase-mãe: uma frase curta que resume sua mensagem central e serve como bússola. Você pode repeti-la (sem exagero) ao longo da fala para reforçar o foco.
Passo a passo:
- 1) Escreva seu objetivo em 1 frase.
- 2) Escreva suas 3 ideias-chave.
- 3) Agora crie uma frase que conecte as três, em linguagem simples, com um verbo de ação.
- 4) Teste: se alguém ouvir só essa frase, entende o tema e a direção?
Modelos de frase-mãe (preencha):
- “A partir de hoje, vamos ______ para ______.”
- “O foco é ______, porque ______; por isso, vamos ______.”
- “Para alcançar ______, precisamos fazer três coisas: ______, ______ e ______.”
Exemplos:
- “A partir de segunda, vamos padronizar a abertura de chamados para reduzir retrabalho.”
- “O foco é retenção, porque ela sustenta receita; por isso, vamos priorizar melhorias no onboarding.”
- “Para reduzir atrasos, precisamos definir prioridade, dono e prazo em toda demanda.”
Mini-guia de revisão final (antes de falar)
- Objetivo em 1 frase está claro e acionável?
- Tenho 3 ideias-chave (não 5, não 8)?
- Cada ideia tem um exemplo concreto?
- Minhas frases estão curtas e com verbos?
- Usei transições explícitas para guiar o público?
- Consigo dizer tudo em 60 segundos sem perder o sentido?