Por que usar templates na prática (consistência, rastreabilidade e decisão objetiva)
Templates reduzem variação entre atendimentos, facilitam comparar semanas diferentes e tornam a decisão clínica mais objetiva. A ideia é simples: registrar sempre os mesmos campos essenciais, com escalas padronizadas, para enxergar tendências (melhora, platô, piora) e justificar progressões, regressões ou manutenção do plano.
Para funcionar, um template precisa ter: (1) campos rápidos de preencher, (2) métricas repetíveis (mesma escala, mesma janela de tempo), (3) espaço para decisão e justificativa, e (4) data/assinatura (rastreabilidade).
Material 1 — Ficha de anamnese esportiva (modelo pronto)
Quando usar
Na primeira consulta e sempre que houver mudança relevante (nova prova, troca de treinador, retorno após pausa, nova dor).
Template (copiar e colar)
FICHA DE ANAMNESE ESPORTIVA (RESUMO OPERACIONAL) Data: ____/____/____ Profissional: ________ Atleta/praticante: ________ Idade: ___ Modalidade: ________ Dominância: ( ) D ( ) E Contato: ________ Objetivo principal: ______________________ Prazo/competição: ______________________ 1) Queixa atual (1 frase): __________________________________________ Início: ___/___/___ Mecanismo: ( ) gradual ( ) agudo Local: __________ Irradiação: ________ 2) Dor (últimos 7 dias): repouso 0-10: __ atividade 0-10: __ pior 0-10: __ 3) Comportamento dos sintomas: piora com: __________ melhora com: __________ rigidez matinal: ( ) não ( ) sim, ___ min 4) Treino atual (últimas 2 semanas): sessões/semana: __ duração média: __ min intensidade típica (PSE 0-10): __ 5) Mudanças recentes (últimas 4-6 semanas): ( ) volume ( ) intensidade ( ) superfície ( ) calçado/equipamento ( ) técnica ( ) função no time ( ) academia Detalhar: __________________________ 6) Histórico de lesões (últimos 12-24 meses): região/diagnóstico: ________ tratamento: ________ recidiva: ( ) sim ( ) não 7) Saúde geral e bandeiras: febre/perda de peso? ( ) sim ( ) não dormência/força reduzida progressiva? ( ) sim ( ) não trauma importante? ( ) sim ( ) não 8) Sono e recuperação: horas/noite: __ qualidade 0-10: __ estresse 0-10: __ 9) Medicações/suplementos relevantes: ______________________________ 10) Preferências e barreiras: tempo disponível/semana: __ acesso a academia: ( ) sim ( ) não adesão (0-10): __ 11) Meta funcional mensurável (SMART): _____________________________ 12) Critérios de segurança acordados (limites): dor durante treino ≤ __/10; dor no dia seguinte ≤ __/10; rigidez matinal ≤ __ min; sem piora de função.Como preencher (passo a passo)
- Passo 1: escreva a queixa em 1 frase (ex.: “dor anterior no joelho ao correr em descida”). Isso vira o “título” do caso.
- Passo 2: padronize a dor em 0–10 e sempre na mesma janela (últimos 7 dias). Evita “memória seletiva”.
- Passo 3: registre mudanças recentes (gatilhos). Esse bloco costuma explicar a maioria das pioras.
- Passo 4: defina limites de segurança (dor/rigidez) que serão usados nos checklists e na reavaliação.
- Passo 5: transforme o objetivo em meta mensurável (ex.: “correr 30 min contínuos com dor ≤2/10 e sem piora no dia seguinte”).
Como revisar tendências
Reabra a ficha a cada 2 semanas e atualize apenas: dor 7 dias, treino 2 semanas, mudanças recentes e meta. Se a dor cai mas o treino também caiu muito, a melhora pode ser “por desuso”; se o treino sobe e a dor fica estável dentro dos limites, isso é progresso sustentável.
Material 2 — Planilha simples de carga (PSE × duração) + monotonia e strain
Conceito operacional
Uma forma prática de quantificar carga interna é multiplicar a PSE da sessão (0–10) pela duração (min). O resultado é uma unidade simples (ex.: 6 × 40 = 240). Com 7 dias, você soma para obter a carga semanal. Com isso, dá para enxergar picos e semanas “todas iguais” (monotonia).
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Template de planilha (7 dias)
| Dia | Modalidade | Duração (min) | PSE (0-10) | Carga (PSE×min) | Observações (dor/sono/terreno) |
|---|---|---|---|---|---|
| Seg | |||||
| Ter | |||||
| Qua | |||||
| Qui | |||||
| Sex | |||||
| Sáb | |||||
| Dom |
Cálculos semanais (copiar para o rodapé da planilha)
1) Carga semanal = soma das cargas diárias (7 dias) 2) Média diária = carga semanal / 7 3) Desvio-padrão (DP) das cargas diárias (7 dias) 4) Monotonia = média diária / DP (se DP muito baixo, monotonia sobe) 5) Strain = carga semanal × monotoniaComo preencher (passo a passo)
- Passo 1: ao terminar a sessão, o praticante registra duração e PSE global (não a dor).
- Passo 2: calcule a carga do dia (PSE×min). Se for no papel, arredonde para dezenas para simplificar.
- Passo 3: em “observações”, registre 1–2 fatores: dor durante/24h, sono ruim, jogo, viagem, mudança de terreno.
- Passo 4: toda semana, some e compare com as 2–4 semanas anteriores.
Como transformar em decisão clínica
- Se houve pico de carga (semana muito acima do padrão recente) e surgiram sinais de sobrecarga: reduzir 20–40% da carga na semana seguinte e redistribuir (menos “tudo forte todo dia”).
- Se a carga subiu e sintomas ficaram dentro dos limites acordados: manter ou progredir pequeno incremento (ex.: +5–10% na semana).
- Se a monotonia está alta (dias muito parecidos): variar estímulos (um dia leve real, um dia moderado, um dia mais forte) mantendo a carga semanal semelhante.
Material 3 — Checklist de sinais de sobrecarga (triagem rápida diária)
Como usar
Aplicar como “semáforo” antes do treino (autoaplicável) e revisar em consulta. O objetivo é detectar cedo quando a soma de sinais sugere necessidade de ajuste.
Checklist (marcar SIM/NÃO)
CHECKLIST DE SOBRECARGA (últimas 24–48h) Data: ____/____ 1) Dor durante treino acima do limite combinado? ( ) sim ( ) não 2) Dor no dia seguinte acima do limite combinado? ( ) sim ( ) não 3) Rigidez matinal aumentou (≥ +15 min do habitual)? ( ) sim ( ) não 4) Queda de desempenho percebida (mesmo treino parece mais difícil)? ( ) sim ( ) não 5) Sono piorou (qualidade caiu ≥2 pontos em 0–10)? ( ) sim ( ) não 6) Fadiga geral alta (≥7/10) sem motivo claro? ( ) sim ( ) não 7) Dor “mudou de padrão” (nova região, dor noturna, dor em repouso incomum)? ( ) sim ( ) não 8) Inchaço/calor local ou sensibilidade muito maior ao toque? ( ) sim ( ) não 9) Humor/irritabilidade aumentou e motivação caiu? ( ) sim ( ) não 10) Aumento recente de carga (volume/intensidade) nos últimos 7 dias? ( ) sim ( ) nãoRegra prática de decisão (objetiva)
- 0–2 “SIM”: seguir plano.
- 3–4 “SIM”: ajustar sessão (reduzir duração/intensidade, trocar por alternativa mais leve, priorizar técnica e recuperação).
- ≥5 “SIM” ou item 7/8 “SIM”: suspender estímulo principal do dia e reavaliar; considerar contato com profissional de saúde se sinais forem atípicos ou progressivos.
Material 4 — Roteiro de reavaliação quinzenal (15–20 minutos)
Objetivo
Padronizar o que será checado a cada 2 semanas para comparar “maçãs com maçãs”: sintomas, função, carga e adesão. O roteiro abaixo evita reavaliações longas e pouco repetíveis.
Template (preencher a cada 14 dias)
REAVALIAÇÃO QUINZENAL Data: ____/____ Semana do plano: __/__ 1) Meta SMART: atingida? ( ) sim ( ) parcial ( ) não Evidência: __________________________ 2) Dor (0–10): média 7 dias: __ pior 7 dias: __ dor em repouso: __ 3) Função-chave (escolher 1–2 tarefas): Tarefa 1: __________ tolerância atual: ________ Tarefa 2: __________ tolerância atual: ________ 4) Carga (últimas 2 semanas): carga semanal 1: ____ carga semanal 2: ____ monotonia: ____ 5) Sinais de sobrecarga: nº de dias com semáforo amarelo/vermelho: ____ 6) Adesão: sessões planejadas: __ realizadas: __ (%): __% 7) Barreiras (1–2): __________________________ 8) Decisão clínica (marcar): ( ) progredir ( ) manter ( ) regredir ( ) trocar estímulo Justificativa objetiva (2 itens): a) __________________ b) __________________ 9) Ajuste do plano (próximos 14 dias): - Treino principal: __________________________ - Complementar/força: _______________________ - Recuperação: ______________________________ - Novo limite de segurança (se mudou): ________Como transformar dados em decisão (regra simples)
- Progredir se: meta parcial/atingida + carga tolerada + sinais de sobrecarga baixos (semáforo verde predominante).
- Manter se: sintomas estáveis, mas meta ainda não consolidada ou adesão baixa (primeiro ajustar rotina).
- Regredir se: piora sustentada (≥2 reavaliações ou piora clara na última semana) + aumento de sinais de sobrecarga.
- Trocar estímulo se: carga total até está ok, mas um tipo específico de sessão dispara sintomas (ex.: tiros, jogo, agachamento pesado). Mantém-se condicionamento com alternativa e reintroduz-se gradualmente o gatilho.
Material 5 — Modelos de progressão de retorno por modalidade (prontos para aplicar)
Os modelos abaixo são “esqueletos” de progressão. Para manter rastreabilidade, registre em cada sessão: (1) etapa, (2) dose (tempo/séries), (3) PSE, (4) dor durante e 24h, (5) decisão (avançar/manter/voltar).
A) Corrida (retorno progressivo por tempo e exposição)
Template de 6 etapas
| Etapa | Sessão | Conteúdo | Meta de resposta | Critério para avançar |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 2–3x/sem | Caminhada rápida 20–30 min | Dor ≤ limite e sem piora 24h | 2 semanas estáveis |
| 2 | 2–3x/sem | Corrida/caminhada: 1 min correr + 2 min caminhar × 8–10 | PSE moderada, técnica controlada | 2–3 sessões sem “amarelo” |
| 3 | 2–3x/sem | 2 min correr + 1 min caminhar × 8–10 | Dor estável e rigidez matinal não aumenta | 1 semana estável |
| 4 | 2–3x/sem | Corrida contínua 15–25 min (leve) | Sem piora 24–48h | 3 sessões estáveis |
| 5 | 2x/sem | 1 sessão contínua + 1 sessão com variação leve (ex.: 6×30s mais rápido) | PSE sobe sem aumentar dor | 2 semanas estáveis |
| 6 | 1–2x/sem | Reintrodução gradual de estímulos específicos (subida/descida/tiros curtos) | Semáforo verde na semana | Consolidar 3–4 semanas |
Como preencher e decidir
- Registre a etapa e o formato (ex.: “Etapa 3: 2’/1’ × 9”).
- Se houver “amarelo” no checklist no dia seguinte, repita a mesma etapa na próxima sessão (não avance).
- Se houver “vermelho”, reduza uma etapa e diminua a carga semanal total (não apenas a corrida).
B) Futebol (retorno por exposição: técnica → corrida → mudanças de direção → contato/jogo)
Template de 5 fases
| Fase | Foco | Exemplos de sessão | Dosagem inicial | Critério para avançar |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Técnica sem pressão | Condução, passe, domínio, finalização leve | 20–30 min, PSE 3–5 | Sem dor reativa 24h |
| 2 | Corrida linear | Trote + acelerações submáximas | 6–10 acelerações curtas | Checklist verde |
| 3 | Mudanças de direção | Zigue-zague, cortes planejados, desaceleração | Baixo volume, pausas longas | Execução estável + sem piora |
| 4 | Treino com oposição controlada | Rondos, 1v1 leve, pequenos jogos com regras | 10–20 min de blocos | 2 sessões estáveis |
| 5 | Treino completo/jogo | Integração progressiva (minutos controlados) | 20–45 min inicialmente | Reavaliação quinzenal favorável |
Registro mínimo por sessão (rastreabilidade)
Futebol – Sessão: ____ Fase: __ Minutos totais: __ Blocos intensos: __ PSE: __ Dor durante: __/10 Dor 24h: __/10 Checklist: ( ) verde ( ) amarelo ( ) vermelho Decisão: ( ) avançar ( ) manter ( ) regredir Nota: __________________C) Musculação (retorno por padrão de movimento e tolerância a volume/intensidade)
Template de progressão em 4 níveis
| Nível | Objetivo | Parâmetros | Exemplos | Critério para avançar |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Reintroduzir padrão sem irritar | 2–3x/sem, 2–3 séries, 8–12 reps, PSE 4–6 | Agachar com caixa, puxada, supino com halteres | Sem piora 24–48h |
| 2 | Aumentar volume tolerado | 3–4 séries, manter carga moderada | Progressão de amplitude e controle | Checklist verde na semana |
| 3 | Aumentar intensidade | 6–8 reps em alguns exercícios, PSE 6–8 | Principais com mais carga, acessórios moderados | Reavaliação quinzenal: função melhora |
| 4 | Especificidade | Introduzir variações e metas (força/hipertrofia) | Levantamentos mais exigentes, pliometria leve se aplicável | Semáforo verde consistente |
Ficha rápida de treino de força (modelo)
FORÇA – REGISTRO DE SESSÃO Data: ____ Nível: __ Exercício | Séries x Reps | Carga | PSE do exercício (0-10) | Dor durante (0-10) 1) __________ | ____ x ____ | ____ | ____ | ____ 2) __________ | ____ x ____ | ____ | ____ | ____ 3) __________ | ____ x ____ | ____ | ____ | ____ Observação (24h): dor __/10; rigidez __ min; sono __/10 Decisão próxima sessão: ( ) +volume ( ) +carga ( ) manter ( ) reduzirComo manter consistência entre templates (padrões de preenchimento)
- Mesmas escalas sempre: PSE 0–10, dor 0–10, sono 0–10, janela “últimos 7 dias” para reavaliação.
- Mesma periodicidade: carga diária; checklist 24–48h; reavaliação a cada 14 dias.
- Mesma linguagem de decisão: avançar/manter/regredir/trocar estímulo, sempre com 2 justificativas objetivas (ex.: “dor 24h subiu de 2 para 5” + “carga semanal aumentou 35%”).
- Rastreabilidade: data, etapa/fase/nível, dose, resposta 24h e decisão. Isso permite auditar o raciocínio e explicar ao praticante e ao treinador.
Exemplo integrado (como os materiais se conectam em 2 semanas)
Cenário: praticante retorna à corrida. Na semana 1, preenche planilha (PSE×min) e checklist. Na consulta quinzenal, você usa o roteiro para decidir.
- Semana 1: Etapa 2 (1’ corre/2’ caminha × 8) em 3 sessões. Cargas diárias: 180, 200, 190. Checklist: 1 dia amarelo (sono ruim).
- Semana 2: Repete Etapa 2, melhora sono, cargas: 190, 210, 200. Checklist: tudo verde.
- Reavaliação: dor média 7 dias caiu de 3 para 1; sem piora 24h; adesão 100%. Decisão: progredir para Etapa 3, mantendo carga semanal semelhante (progressão pela estrutura do treino, não por “somar mais tudo”).