O que uma vacina faz no organismo
Vacinas apresentam ao sistema imune um antígeno (ou a instrução para produzi-lo) de forma controlada, sem causar a doença como ela ocorre naturalmente. O objetivo biológico é treinar a resposta imune para que, em um contato futuro com o microrganismo real, a reação seja mais rápida, mais intensa e mais eficiente, reduzindo a chance de adoecimento e, muitas vezes, de transmissão.
Memória imunológica: o “arquivo” do sistema imune
Após a vacinação, células apresentadoras de antígeno (como células dendríticas) capturam o antígeno e ativam linfócitos em órgãos linfoides. A partir daí, formam-se:
- Linfócitos B de memória: capazes de produzir anticorpos rapidamente em reexposições.
- Plasmócitos de longa vida: mantêm níveis basais de anticorpos por meses a anos.
- Linfócitos T de memória (CD4+ e CD8+): coordenam respostas e eliminam células infectadas, especialmente importante em infecções virais.
Essa memória não é “tudo ou nada”: pode diminuir com o tempo (queda de anticorpos) e ainda assim manter proteção contra formas graves por meio de memória celular.
Como vacinas reduzem transmissão
Uma pessoa vacinada pode reduzir a transmissão por diferentes mecanismos, dependendo do agente e do tipo de vacina:
- Menor probabilidade de infecção: se a vacina impede que o microrganismo se estabeleça (proteção esterilizante).
- Menor carga microbiana e menor duração da eliminação: mesmo com infecção, a resposta rápida pode reduzir a quantidade de microrganismo e o tempo de contagiosidade.
- Menos sintomas (ex.: tosse intensa): pode diminuir a dispersão de partículas respiratórias, embora isso varie muito.
Proteção individual x proteção coletiva
Proteção individual
É o benefício direto para quem recebe a vacina: menor risco de adoecer, menor risco de complicações e, em muitos casos, menor risco de infecção. A eficácia individual depende de fatores como idade, estado imunológico, tempo desde a última dose e compatibilidade entre antígeno vacinal e cepas circulantes.
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Proteção coletiva (imunidade de grupo)
Ocorre quando uma proporção suficiente da população está imune (por vacinação e/ou infecção prévia), reduzindo a probabilidade de um indivíduo infectado encontrar pessoas suscetíveis. Isso diminui cadeias de transmissão e protege indiretamente pessoas que não podem se vacinar ou que respondem mal à vacina (ex.: imunossuprimidos).
O limiar necessário varia com a transmissibilidade do agente (quanto mais transmissível, maior a cobertura necessária). Além disso, a proteção coletiva é mais forte quando a vacina reduz infecção e transmissão, não apenas doença grave.
Principais tipos de vacinas: como funcionam, vantagens e limitações
1) Vacinas inativadas (microrganismo “morto” ou incapaz de replicar)
Como são feitas biologicamente: o patógeno é inativado por métodos físicos/químicos, mantendo antígenos reconhecíveis.
- Vantagens: não replicam; em geral, perfil de segurança favorável em imunossuprimidos (a depender do produto e orientação clínica).
- Limitações: costumam induzir resposta menos duradoura; frequentemente exigem múltiplas doses e reforços; podem precisar de adjuvantes para aumentar imunogenicidade.
- Cuidados gerais: manter cadeia de frio; completar esquema para atingir proteção adequada.
2) Vacinas vivas atenuadas (microrganismo “enfraquecido”)
Como funcionam: o agente se replica de forma limitada, simulando infecção natural e ativando fortemente imunidade humoral e celular.
- Vantagens: resposta robusta; muitas vezes poucas doses geram proteção prolongada.
- Limitações: podem causar doença em pessoas com imunodeficiência significativa; exigem cuidados em gestação (regra geral: evitar).
- Cuidados gerais: avaliar contraindicações; atenção a armazenamento e validade, pois são mais sensíveis.
3) Vacinas de subunidades (proteínas/polissacarídeos) e conjugadas
Subunidades proteicas: usam partes do microrganismo (proteínas) para induzir anticorpos e resposta T auxiliar.
Polissacarídicas: usam cápsulas bacterianas (polissacarídeos). Sozinhas, podem induzir resposta menos eficiente em crianças pequenas por serem antígenos pouco dependentes de células T.
Conjugadas: ligam o polissacarídeo a uma proteína carreadora, transformando a resposta em mais dependente de células T, gerando melhor memória e eficácia em lactentes.
- Vantagens: não replicam; foco em antígenos específicos; conjugadas são excelentes para bactérias encapsuladas.
- Limitações: podem exigir adjuvantes e reforços; cobertura depende de quais sorotipos/antígenos foram incluídos.
- Cuidados gerais: respeitar esquema por idade; entender que “troca de sorotipos” pode ocorrer em alguns contextos (circulação de sorotipos não incluídos).
4) Vacinas de vetores virais
Como funcionam: um vírus vetor (geralmente não replicante) entrega o gene de um antígeno do patógeno-alvo às células, que passam a produzir o antígeno e apresentá-lo ao sistema imune.
- Vantagens: induzem boa resposta celular e humoral; não precisam conter o patógeno-alvo.
- Limitações: imunidade prévia ao vetor pode reduzir resposta; eventos adversos raros específicos podem existir dependendo do produto.
- Cuidados gerais: seguir recomendações de intervalo e grupos indicados; observar orientações para pessoas com condições específicas.
5) Vacinas de mRNA
Como funcionam: entregam mRNA encapsulado (ex.: nanopartículas lipídicas) com a instrução para a célula produzir um antígeno. O mRNA não entra no núcleo e é degradado após uso.
- Vantagens: produção rápida e flexível; forte indução de anticorpos e resposta T; não usam microrganismo vivo.
- Limitações: exigências de armazenamento variam por formulação; reatogenicidade (febre, mialgia) pode ser mais evidente em algumas pessoas.
- Cuidados gerais: manter condições de conservação; respeitar intervalos e reforços conforme risco e circulação do agente.
Adjuvantes e vias de administração: por que importam
Adjuvantes são componentes que amplificam a resposta imune (ativando imunidade inata e melhorando apresentação de antígeno), permitindo maior proteção com menos antígeno ou menos doses.
A via de administração influencia o tipo de imunidade:
- Intramuscular/subcutânea: excelente para anticorpos sistêmicos (IgG) e memória.
- Mucosal (ex.: intranasal, quando disponível): pode induzir IgA local e reduzir colonização/transmissão em alguns cenários, mas depende do produto.
Exemplos de agentes preveníveis: o que a imunização busca bloquear
Vírus
- Influenza: vacina visa reduzir doença e complicações; atualização pode ser necessária por variação antigênica.
- Sarampo, caxumba, rubéola: alta transmissibilidade; proteção coletiva é crucial para evitar surtos.
- Varicela: prevenção de doença e complicações; impacto também em transmissão comunitária.
- Hepatite B: prevenção de infecção crônica e suas consequências; anticorpos anti-HBs são o correlato clássico de proteção.
- HPV: prevenção de infecções persistentes por tipos oncogênicos; foco em impedir infecção inicial e persistência.
- Poliomielite: objetivo é impedir doença paralítica e sustentar eliminação da circulação.
- Rotavírus: foco em reduzir gastroenterite grave em crianças.
- SARS-CoV-2: vacinas reduzem principalmente doença grave e, em graus variáveis, infecção/transmissão conforme variante e tempo desde a dose.
Bactérias
- Diftería: toxina é o principal alvo; imunização reduz doença grave por neutralização de toxina.
- Tétano: não é transmitido pessoa a pessoa; vacina protege o indivíduo contra toxina, mas não gera “imunidade de grupo” relevante.
- Coqueluche (Bordetella pertussis): proteção individual e redução parcial de transmissão; reforços são importantes por queda de imunidade ao longo do tempo.
- Haemophilus influenzae tipo b (Hib): conjugada reduz doença invasiva e colonização, com forte efeito coletivo.
- Pneumococo (Streptococcus pneumoniae): conjugadas reduzem doença invasiva e podem reduzir colonização por sorotipos incluídos; proteção depende dos sorotipos circulantes.
- Meningococo (Neisseria meningitidis): vacinas por sorogrupo; impacto em doença invasiva e, para alguns produtos, em colonização.
- BCG (tuberculose): foco em reduzir formas graves na infância; não impede totalmente infecção pulmonar em todos os contextos.
Esquema vacinal e reforços: princípios biológicos
O que é “esquema”
Esquema vacinal é a combinação de número de doses, intervalos e idade-alvo necessária para atingir e manter proteção. Ele é desenhado para:
- maximizar resposta em fases de maior risco;
- contornar imaturidade imunológica em crianças pequenas (quando aplicável);
- garantir tempo suficiente para expansão clonal e maturação de afinidade de anticorpos;
- acompanhar queda natural de anticorpos ao longo do tempo.
Primovacinação x reforço
- Primovacinação: primeiras doses que “ensinam” o sistema imune. A primeira exposição gera resposta mais lenta; doses subsequentes ampliam magnitude e qualidade (maturação de afinidade).
- Reforço: dose posterior para reativar memória e elevar anticorpos quando a proteção começa a cair ou quando o risco aumenta (ex.: surtos, novas variantes, envelhecimento).
Passo a passo prático: como interpretar um esquema e não se perder
- Identifique o alvo da vacina (qual agente e qual desfecho principal): prevenir infecção? doença grave? toxina?
- Verifique o tipo de vacina (inativada, atenuada, subunidade/conjugada, vetor, mRNA) para antecipar necessidade de múltiplas doses e possíveis restrições.
- Leia o número de doses e intervalos mínimos: intervalos muito curtos podem reduzir resposta; intervalos maiores geralmente não “estragam” a série, mas podem deixar janela de suscetibilidade (seguir orientação local).
- Confirme se há reforços programados (ex.: adolescência, gestação, idosos, profissionais de saúde) e o motivo biológico (queda de anticorpos, alta exposição, proteção de recém-nascidos por anticorpos maternos).
- Cheque condições individuais: gestação, imunossupressão, alergias graves prévias, febre alta/doença aguda importante (pode adiar).
- Após a dose, monitore reações esperadas e sinais de alerta (ver seção de eventos adversos).
Contraindicações gerais e precauções (princípios)
Contraindicações gerais mais comuns
- Reação alérgica grave (anafilaxia) a dose anterior ou a componente específico: contraindica repetir a mesma formulação até avaliação especializada.
- Imunodeficiência significativa (ou uso de imunossupressores potentes): em regra, evitar vacinas vivas atenuadas; vacinas não vivas podem ser indicadas, mas a resposta pode ser menor.
- Gestação: em regra, evitar vacinas vivas atenuadas; várias vacinas não vivas podem ser indicadas conforme risco/benefício.
Precauções frequentes
- Doença aguda moderada/grave: pode-se adiar para não confundir sintomas da doença com eventos pós-vacinais.
- Histórico de eventos específicos associados a determinada vacina: requer avaliação individual.
Observação: decisões finais dependem de protocolos e avaliação clínica; aqui o foco é entender a lógica biológica por trás das restrições.
Eventos adversos esperados: o que é comum e o que exige atenção
Reações locais e sistêmicas (reatogenicidade)
São efeitos relacionados à ativação imune e inflamação local, geralmente autolimitados:
- Locais: dor, vermelhidão, inchaço no local da aplicação.
- Sistêmicos: febre baixa, cansaço, dor de cabeça, mialgia, calafrios.
Essas reações costumam ocorrer nas primeiras 24–72 horas (variável por vacina) e indicam ativação do sistema imune, não infecção pelo agente-alvo (especialmente em vacinas não vivas).
Eventos raros e sinais de alerta
Eventos graves são incomuns, mas devem ser reconhecidos:
- Anafilaxia: início rápido com urticária generalizada, falta de ar, queda de pressão, edema de face/língua; requer atendimento imediato.
- Febre alta persistente, prostração importante, sinais neurológicos ou falta de ar: exigem avaliação.
Por que algumas vacinas não impedem totalmente a infecção
Mesmo com memória imunológica, pode haver infecção inicial antes que a resposta de memória controle o agente, especialmente em mucosas. Além disso:
- Variação antigênica pode reduzir reconhecimento por anticorpos.
- Imunidade mucosal (IgA local) nem sempre é fortemente induzida por vacinas injetáveis.
- Queda de anticorpos ao longo do tempo pode aumentar risco de infecção leve, mantendo proteção contra formas graves via memória celular.
Relação entre vacina e prevenção de resistência antimicrobiana (noções aplicadas)
Ao reduzir infecções bacterianas (ou complicações bacterianas após viroses), vacinas podem diminuir o uso de antibióticos e, indiretamente, a pressão seletiva para resistência. Esse efeito é especialmente relevante quando a vacina reduz colonização e transmissão de bactérias encapsuladas em comunidade.