O que é transmissão de doenças e por que a “cadeia de infecção” importa
Transmissão de doenças é o processo pelo qual um microrganismo sai de uma fonte, percorre uma via e alcança um novo hospedeiro em quantidade suficiente para iniciar infecção. A cadeia de infecção organiza esse processo em elos. Se você interromper qualquer elo (por exemplo, bloquear a via de transmissão com higiene das mãos), reduz a probabilidade de novos casos.
Cadeia de infecção: os 6 elos com exemplos (bactérias, vírus, fungos e protozoários)
1) Agente infeccioso
É o microrganismo capaz de causar doença. O mesmo tipo de via pode servir para agentes diferentes, mas a facilidade de transmissão varia conforme resistência no ambiente, dose necessária e local de replicação.
- Bactéria: Salmonella enterica (gastroenterite) — frequentemente transmitida por via fecal-oral.
- Vírus: Influenza — transmissão respiratória por gotículas e, em algumas situações, aerossóis.
- Fungo: Trichophyton (tinha/pé de atleta) — contato direto/indireto com pele e fômites.
- Protozoário: Plasmodium (malária) — transmissão vetorial por mosquito.
2) Reservatório
Local onde o agente vive e se multiplica (ou se mantém) antes de infectar outra pessoa. Pode ser humano, animal, água, solo ou superfícies.
- Bactéria: humanos portadores (assintomáticos) e alimentos contaminados para Salmonella.
- Vírus: humanos com infecção respiratória (sintomáticos ou não) para influenza.
- Fungo: pele humana e ambientes úmidos (vestiários, toalhas) para dermatófitos.
- Protozoário: humanos (reservatório do parasita) e o vetor (mosquito) como parte essencial do ciclo na malária.
3) Porta de saída
É por onde o agente deixa o reservatório.
- Bactéria: fezes (diarreia) em infecções entéricas; secreções de feridas em infecções cutâneas.
- Vírus: secreções respiratórias (tosse, espirro, fala) em influenza; sangue em vírus transmitidos por via sanguínea.
- Fungo: escamas de pele e fragmentos de unhas em dermatofitoses.
- Protozoário: sangue (gametócitos) para serem ingeridos pelo mosquito na malária; fezes em protozoários intestinais.
4) Via de transmissão
É o caminho entre a porta de saída e a porta de entrada. Pode envolver contato, ar, água/alimentos, sangue, vetores ou transmissão mãe-filho.
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5) Porta de entrada
É por onde o agente entra no novo hospedeiro: mucosas (respiratória, oral, genital), pele não íntegra, conjuntiva, via parenteral (agulhas), placenta.
- Bactéria: ingestão (oral) em Salmonella; pele lesionada em algumas infecções cutâneas.
- Vírus: mucosa respiratória (influenza); mucosa genital ou via sanguínea em vírus sexualmente/sanguineamente transmitidos.
- Fungo: pele (especialmente úmida/macerada) em dermatófitos.
- Protozoário: pele (picada do mosquito) na malária; ingestão em protozoários intestinais.
6) Hospedeiro suscetível
É a pessoa com chance de adoecer ao ser exposta. Suscetibilidade aumenta com baixa imunidade, barreiras físicas comprometidas (pele/mucosas), ausência de imunidade prévia, comorbidades e fatores ambientais.
- Exemplo respiratório (vírus): idosos e pessoas com doença pulmonar crônica têm maior risco de complicações por influenza.
- Exemplo oportunista (fungo): imunossuprimidos têm maior risco de infecções fúngicas invasivas.
- Exemplo entérico (bactéria/protozoário): crianças pequenas e pessoas sem acesso a saneamento têm maior risco de doença e desidratação.
Principais vias de transmissão: como funcionam e exemplos por grupo
1) Contato direto
Transmissão por toque pele a pele, beijo, contato com lesões, ou contato sexual. Depende muito de higiene, integridade da pele e proximidade.
- Bactéria: impetigo por Staphylococcus aureus/Streptococcus pyogenes (contato com lesões/pele).
- Vírus: herpes simples (contato com lesões/secreções).
- Fungo: tinha corporal por dermatófitos (contato pele a pele).
- Protozoário: transmissão sexual de Trichomonas vaginalis (contato íntimo).
2) Contato indireto (fômites)
O agente passa por objetos/superfícies (maçanetas, celulares, toalhas, equipamentos). A relevância aumenta quando o microrganismo sobrevive no ambiente e quando há falhas de limpeza/desinfecção.
- Bactéria: transmissão de bactérias associadas a superfícies em ambientes de cuidado (ex.: equipamentos compartilhados sem desinfecção adequada).
- Vírus: vírus respiratórios podem ser transferidos das mãos para mucosas após tocar superfícies contaminadas.
- Fungo: dermatófitos via toalhas, calçados, pisos úmidos.
- Protozoário: menos comum por fômites, mas pode ocorrer indiretamente quando há contaminação fecal em objetos e higiene inadequada.
3) Gotículas (droplets)
Partículas respiratórias maiores, geradas ao falar, tossir ou espirrar, que tendem a percorrer distâncias curtas e depositar-se em mucosas (nariz, boca, olhos) ou superfícies próximas.
- Vírus: influenza é exemplo clássico de transmissão por gotículas.
- Bactéria: algumas infecções respiratórias bacterianas podem se disseminar por gotículas em ambientes fechados.
4) Aerossóis (transmissão aérea)
Partículas menores que podem permanecer suspensas por mais tempo e se dispersar no ar, especialmente em ambientes fechados, mal ventilados ou durante procedimentos que geram aerossóis.
- Vírus: alguns vírus respiratórios podem ter componente por aerossóis em determinadas condições (alta densidade de pessoas, baixa ventilação).
- Fungo: esporos ambientais podem ser inalados e causar doença em pessoas suscetíveis (especialmente imunossuprimidos), dependendo do fungo e do contexto.
5) Fecal-oral (água/alimentos)
O agente sai nas fezes, contamina água, alimentos, mãos ou superfícies e é ingerido. É fortemente influenciada por saneamento, higiene das mãos e segurança alimentar.
- Bactéria: Salmonella, Shigella, Vibrio cholerae (exemplos clássicos de enteropatógenos).
- Vírus: norovírus e hepatite A (alta transmissibilidade em surtos).
- Protozoário: Giardia duodenalis, Entamoeba histolytica.
- Fungo: não é via típica para a maioria dos fungos patogênicos humanos, mas contaminação alimentar por fungos/toxinas é um tema distinto de infecção (não é o foco aqui).
6) Sangue e sexual
Transmissão por exposição a sangue e fluidos corporais (agulhas, transfusão, acidentes perfurocortantes) e por contato sexual (mucosas, microlesões). A presença do agente no sangue/secreções e a carga viral/bacteriana influenciam o risco.
- Vírus: HIV, hepatites B e C (exemplos importantes).
- Bactéria: sífilis (Treponema pallidum) por via sexual; outras IST bacterianas por contato mucoso.
- Protozoário: Trichomonas vaginalis (sexual).
7) Vetorial
Transmissão por artrópodes (mosquitos, carrapatos, flebotomíneos). Pode ser biológica (o agente se desenvolve no vetor) ou mecânica (o vetor apenas carrega).
- Protozoário: malária (Plasmodium) por mosquito; leishmaniose por flebotomíneo.
- Vírus: dengue, zika, chikungunya (mosquitos).
- Bactéria: algumas bacterioses transmitidas por carrapatos (dependendo da região).
8) Vertical (mãe → filho)
Ocorre durante a gestação (transplacentária), no parto (contato com secreções) ou na amamentação (em situações específicas). O risco depende do agente, do momento da infecção materna e de medidas preventivas.
- Vírus: HIV, hepatite B (exemplos com estratégias preventivas bem estabelecidas).
- Bactéria: transmissão perinatal de Streptococcus do grupo B pode ocorrer no parto.
- Protozoário: toxoplasmose pode ser transmitida na gestação (transplacentária).
Fatores de risco que facilitam a transmissão e a infecção
Aglomeração e ambientes fechados
- Aumenta a exposição a gotículas/aerossóis e a chance de contato com superfícies compartilhadas.
- Exemplos práticos: transporte público lotado, dormitórios, salas sem ventilação adequada.
Saneamento e acesso à água segura
- Determinante para via fecal-oral: coleta/tratamento de esgoto, água potável, higiene de alimentos.
- Exemplos práticos: surtos de gastroenterite após falhas no abastecimento de água; contaminação cruzada em cozinhas.
Imunossupressão e comorbidades
- Maior risco de adoecer com doses menores e maior risco de formas graves.
- Exemplos: uso de corticoide/imunossupressores, quimioterapia, HIV avançado, diabetes descompensado.
Integridade de barreiras e exposição ocupacional
- Pele lesionada, dermatites, feridas e procedimentos invasivos aumentam risco.
- Profissionais com risco de perfurocortantes e contato com secreções precisam de medidas de barreira consistentes.
Incubação, período de transmissibilidade e por que isso muda o controle
Período de incubação
Tempo entre a exposição e o início dos sintomas. Varia conforme agente, dose, via de entrada e resposta do hospedeiro. Incubação curta favorece surtos rápidos; incubação longa dificulta rastrear a fonte.
- Exemplo (vírus respiratório): incubação frequentemente de poucos dias, facilitando ondas rápidas em aglomerações.
- Exemplo (protozoário vetorial): pode ter incubação mais longa, com sintomas surgindo dias a semanas após a picada.
Período de transmissibilidade
Janela em que a pessoa (ou reservatório) consegue transmitir. Pode começar antes dos sintomas (transmissão pré-sintomática) e pode persistir após melhora clínica.
- Implicação prática: isolamento baseado apenas em sintomas pode falhar; por isso, higiene das mãos, ventilação e etiqueta respiratória são medidas universais.
Carga infecciosa, dose infectante e “quantidade importa”
Dose infectante (ID) e carga infecciosa
Dose infectante é a quantidade mínima (aproximada) necessária para iniciar infecção em um hospedeiro. Carga infecciosa é a quantidade de microrganismos presentes na fonte (ex.: secreção, fezes, sangue) e/ou no ambiente. Em geral, quanto maior a carga e quanto mais eficiente a via, maior o risco.
- Fecal-oral: higiene inadequada pode levar a ingestão de doses altas, aumentando chance de doença.
- Respiratória: ambientes fechados e mal ventilados podem elevar a exposição cumulativa a partículas infecciosas.
- Sangue: inoculação direta (agulha) pode ser altamente eficiente por bypass de barreiras.
Fatores que aumentam a exposição efetiva
- Tempo: quanto mais tempo no mesmo ambiente, maior a dose acumulada (especialmente em aerossóis).
- Proximidade: aumenta risco por gotículas e contato.
- Ventilação: baixa ventilação aumenta concentração de partículas no ar.
- Barreiras: máscara, luvas e higiene reduzem a dose que chega à porta de entrada.
Guia prático: medidas de barreira e higiene conforme a via de transmissão
Base universal (vale para todas as vias)
- Higiene das mãos nos momentos críticos: antes de comer/preparar alimentos; após usar o banheiro/trocar fraldas; após tossir/espirrar; ao chegar da rua; antes e depois de cuidar de alguém doente; após tocar lixo/animais.
- Evitar tocar olhos, nariz e boca com as mãos não higienizadas.
- Limpeza e desinfecção de superfícies de alto toque (maçanetas, celulares, bancadas) com rotina definida.
- Etiqueta respiratória: tossir/espirrar no antebraço ou lenço e higienizar as mãos em seguida.
Passo a passo: higiene das mãos (prático)
- Se as mãos estiverem visivelmente sujas, lave com água e sabão; caso contrário, pode usar preparação alcoólica quando apropriado.
- Friccione todas as superfícies: palmas, dorso, entre os dedos, polegares, pontas dos dedos e punhos.
- Mantenha fricção por tempo suficiente para cobrir toda a mão e secar (no caso do álcool) ou enxágue completo (no caso de água e sabão).
- Seque bem as mãos (umidade favorece irritação e pode reduzir aderência a boas práticas).
Contato direto/indireto: barreiras e rotina
- Medidas-chave: higiene das mãos + limpeza de fômites + evitar compartilhamento de itens pessoais.
- Em casa: separar toalhas, lâminas, escovas; lavar roupas/lençóis conforme necessidade; manter pele seca em áreas de dobras para reduzir risco de fungos.
- Em cuidado de saúde: uso de luvas quando houver contato com secreções/lesões; avental se houver risco de sujar roupas; desinfecção de equipamentos entre pacientes.
Gotículas: o que fazer na prática
- Medidas-chave: máscara bem ajustada para sintomáticos e cuidadores em proximidade, distanciamento em ambientes lotados, etiqueta respiratória.
- Ambiente: priorizar ventilação (janelas abertas quando possível) e reduzir aglomeração.
- Superfícies: manter limpeza de alto toque, pois gotículas depositam-se em objetos próximos.
Aerossóis: controle por engenharia + comportamento
- Medidas-chave: ventilação (troca de ar), filtração quando disponível, evitar permanência prolongada em locais fechados lotados.
- Máscaras: em situações de maior risco (ambiente fechado, alta densidade), máscaras de melhor vedação e filtragem reduzem a dose inalada.
- Procedimentos geradores de aerossóis: requerem protocolos específicos no serviço de saúde (ambiente adequado e EPI apropriado).
Fecal-oral: segurança da água e dos alimentos
- Medidas-chave: saneamento, água segura, higiene das mãos e manipulação correta de alimentos.
Passo a passo: reduzir risco fecal-oral na cozinha
- Separar alimentos crus de prontos para consumo (tábuas/utensílios diferentes ou higienização rigorosa entre usos).
- Cozinhar adequadamente (especialmente carnes, ovos e preparações com risco).
- Refrigerar perecíveis e evitar longos períodos em temperatura ambiente.
- Higienizar mãos, bancadas e utensílios após contato com alimentos crus.
- Água segura: usar água tratada; em locais sem garantia, ferver/filtrar conforme orientação local.
Sangue/sexual: prevenção de exposição
- Medidas-chave: preservativos, não compartilhar agulhas/seringas, descarte correto de perfurocortantes, uso de luvas e barreiras em procedimentos com sangue.
- Em serviços: precauções padrão sempre; protocolos pós-exposição quando indicado (avaliar rapidamente após acidente).
Vetorial: reduzir contato com o vetor e o criadouro
- Medidas-chave: repelentes, roupas que cubram pele, telas/mosquiteiros, eliminação de água parada, controle ambiental.
- Passo a passo (mosquitos): 1) identificar recipientes com água; 2) eliminar/vedar; 3) limpar calhas e ralos; 4) usar repelente nos horários de maior atividade; 5) proteger dormitórios com telas/mosquiteiro quando necessário.
Vertical: ações por fase (pré-natal, parto, pós-parto)
- Pré-natal: triagens e acompanhamento conforme protocolos locais; tratar/monitorar infecções maternas para reduzir transmissão.
- Parto: medidas específicas dependem do agente (ex.: profilaxias e condutas obstétricas quando indicadas).
- Pós-parto: orientar higiene, vacinação e medidas específicas quando aplicáveis; avaliar amamentação caso a caso para agentes em que isso seja relevante.
Como “quebrar” a cadeia de infecção: mapa rápido (elo → intervenção)
| Elo | O que interrompe | Exemplos práticos |
|---|---|---|
| Agente | Reduzir/neutralizar o microrganismo | Desinfecção/esterilização; tratamento adequado quando indicado |
| Reservatório | Controlar fonte | Isolamento de doentes quando necessário; controle de água/alimentos; controle de vetores |
| Porta de saída | Conter secreções/excreções | Curativos em feridas; etiqueta respiratória; manejo seguro de excretas |
| Via de transmissão | Bloquear o caminho | Higiene das mãos; limpeza de superfícies; ventilação; preservativos; mosquiteiros |
| Porta de entrada | Proteger mucosas/pele | Máscaras/óculos em risco de respingos; luvas; cuidado com pele íntegra |
| Hospedeiro suscetível | Aumentar resistência | Vacinação quando disponível; manejo de comorbidades; reduzir imunossupressão quando possível |
Exercícios de aplicação: identificando a cadeia em cenários comuns
Cenário 1: surto de gastroenterite após refeição coletiva (fecal-oral)
- Agente (exemplo): Salmonella ou norovírus.
- Reservatório: manipulador infectado ou alimento contaminado.
- Porta de saída: fezes/vômito.
- Via: mãos/superfícies/alimento.
- Porta de entrada: ingestão.
- Hospedeiro suscetível: todos os expostos; maior risco em crianças/idosos.
- Quebra de cadeia (passos): 1) afastar manipulador sintomático; 2) reforçar higiene das mãos; 3) revisar separação cru/cozido; 4) desinfetar superfícies; 5) garantir água segura.
Cenário 2: transmissão respiratória em sala mal ventilada (gotículas/aerossóis)
- Agente (exemplo): influenza.
- Reservatório: pessoa infectada (mesmo com sintomas leves).
- Porta de saída: secreções respiratórias.
- Via: gotículas em curta distância e aerossóis em permanência prolongada.
- Porta de entrada: mucosa respiratória/conjuntiva.
- Quebra de cadeia (passos): 1) melhorar ventilação; 2) reduzir lotação/tempo de permanência; 3) uso de máscara em períodos de alta circulação; 4) higiene das mãos e etiqueta respiratória.
Cenário 3: micose em vestiário (contato indireto)
- Agente (exemplo): dermatófitos.
- Reservatório: pele/unhas de pessoas infectadas e superfícies úmidas.
- Porta de saída: escamas de pele.
- Via: piso úmido, toalhas, calçados.
- Porta de entrada: pele macerada (entre os dedos).
- Quebra de cadeia (passos): 1) manter pés secos; 2) usar chinelos; 3) não compartilhar toalhas; 4) higienizar áreas comuns; 5) tratar casos para reduzir disseminação.
Cenário 4: malária em área endêmica (vetorial)
- Agente: Plasmodium.
- Reservatório: humanos infectados; vetor necessário para transmissão.
- Porta de saída: sangue (para o mosquito).
- Via: mosquito (transmissão biológica).
- Porta de entrada: pele (picada).
- Quebra de cadeia (passos): 1) repelente e roupas longas; 2) mosquiteiro/telas; 3) eliminar criadouros; 4) diagnóstico e tratamento para reduzir reservatório humano.