Lógica do diagnóstico microbiológico: do paciente ao laudo
Diagnóstico microbiológico é o conjunto de etapas que busca responder, com evidência laboratorial, a perguntas clínicas práticas: qual é o agente provável, onde ele está, em que quantidade e qual terapia e medidas de isolamento são necessárias. A qualidade do resultado depende mais da coleta, do momento e do transporte do que do método sofisticado escolhido.
Princípios que guiam a escolha do exame
- Sítio anatômico correto: coletar do local onde o microrganismo está causando doença (ex.: sangue em suspeita de bacteremia; líquor em meningite; escarro de via aérea inferior em pneumonia).
- Momento da coleta: idealmente antes de antimicrobianos e em fase de maior carga do agente (ex.: início de sintomas em viroses para PCR; febre em bacteremia para hemoculturas).
- Volume e número de amostras: aumentam sensibilidade (ex.: múltiplos frascos de hemocultura; volume adequado de líquor).
- Evitar contaminação: técnica asséptica e recipientes estéreis; diferenciar colonização/contaminação de infecção.
- Tempo até o laboratório: atrasos degradam microrganismos e ácidos nucleicos, alterando cultura e PCR.
Material clínico: o que coletar e como acertar o alvo
Escolha do material por síndrome (exemplos práticos)
| Síndrome | Materiais preferenciais | Observações úteis |
|---|---|---|
| Sepse/bacteremia | Hemoculturas (2–3 pares) | Coletar antes de antibiótico; antissepsia rigorosa para reduzir contaminantes de pele. |
| Meningite/encefalite | Líquor + sangue | Enviar imediatamente; pode exigir PCR e cultura; biossegurança reforçada. |
| Pneumonia | Escarro de boa qualidade, aspirado traqueal, lavado broncoalveolar | Escarro contaminado por saliva reduz valor; Gram pode orientar empirismo. |
| Infecção urinária | Urina jato médio, sondagem, punção suprapúbica (selecionado) | Urocultura quantitativa; evitar coleta em bolsa coletora sem técnica. |
| Gastroenterite | Fezes (ou swab retal) | Testes rápidos para antígeno/toxina e PCR sindrômico podem ser úteis; cultura selecionada. |
| Lesão cutânea/abscesso | Aspirado/pus profundo | Swab superficial é inferior; enviar em recipiente estéril. |
| IST | Swab endocervical/uretral, urina primeira porção | NAAT/PCR costuma ser método de escolha para alguns agentes. |
| Micose profunda | Biópsia/aspirado de tecido | Fungos podem exigir cultura prolongada e histopatologia. |
Passo a passo prático de coleta (checklist)
- Definir hipótese clínica e sítio provável (ex.: sepse, pneumonia, meningite).
- Checar terapia prévia: se já recebeu antimicrobiano, registrar horário/dose; considerar métodos que não dependem de viabilidade (antígeno/PCR).
- Selecionar recipiente e meio de transporte adequados (estéril; meio específico quando indicado).
- Identificar corretamente: nome, data/hora, sítio anatômico, suspeita, antibióticos em uso.
- Coletar com técnica asséptica e volume recomendado.
- Armazenar e transportar conforme orientação (temperatura e tempo).
- Comunicar urgências (ex.: líquor, suspeita de patógeno de alto risco) para processamento prioritário.
Transporte, conservação e critérios de rejeição
Regras práticas
- Tempo é crítico: quanto mais rápido, maior a chance de recuperar o agente em cultura e preservar alvos para PCR.
- Temperatura: algumas amostras devem ser refrigeradas, outras não; seguir protocolo local (ex.: hemocultura não deve ser refrigerada).
- Meio de transporte: mantém viabilidade e reduz crescimento de contaminantes (ex.: swabs em meio apropriado).
- Evitar vazamentos: embalagem tripla e rotulagem adequada.
Quando o laboratório pode rejeitar a amostra (impacto direto no diagnóstico)
- Recipiente inadequado ou sem identificação.
- Volume insuficiente (especialmente hemocultura e líquor).
- Tempo excessivo até processamento sem conservação adequada.
- Amostra evidentemente contaminada (ex.: escarro com muita saliva, quando há critério de qualidade).
Biossegurança na coleta e no laboratório
A biossegurança protege paciente, equipe e ambiente. O nível de precaução depende do risco de transmissão e do tipo de procedimento (aerossóis, perfurocortantes, manipulação de culturas).
- Precauções padrão: higiene de mãos, luvas, proteção ocular quando risco de respingo, descarte correto.
- Risco de aerossol: coleta de amostras respiratórias e manipulação de culturas podem exigir máscara adequada e cabine de segurança biológica no laboratório.
- Perfurocortantes: não reencapar agulhas; descarte imediato em coletor rígido.
- Comunicação: suspeitas de agentes de maior risco devem ser sinalizadas para processamento seguro.
Métodos principais: o que cada um responde
1) Microscopia e colorações (visão rápida e orientadora)
Microscopia fornece informação imediata sobre presença de microrganismos, morfologia e qualidade da amostra (ex.: muitos leucócitos sugerem inflamação; muitas células epiteliais em escarro sugerem contaminação por saliva).
Coloração de Gram (conceitual)
- O que entrega: classificação em Gram-positivos/Gram-negativos e forma (cocos, bacilos), além de arranjos sugestivos.
- Como ajuda: orienta antibiótico empírico e necessidade de cobertura para determinados grupos.
- Limitações: sensibilidade depende da carga microbiana e da qualidade da amostra; alguns agentes não se visualizam bem ao Gram; antibiótico prévio pode reduzir visualização.
Outras colorações (nível conceitual)
- Álcool-ácido resistente: útil quando se suspeita de bacilos específicos que retêm corante após descoloração.
- Tintas/colorações para fungos: evidenciam leveduras e hifas em amostras clínicas.
- Exame a fresco: pode mostrar motilidade e estruturas em alguns parasitas/protozoários, dependendo do material.
Passo a passo prático: como usar o resultado do Gram na decisão
- Confirmar se a amostra é adequada (ex.: escarro com sinais de inflamação e pouca contaminação).
- Identificar padrão predominante (ex.: cocos Gram-positivos em cachos; bacilos Gram-negativos).
- Correlacionar com sítio e quadro (ex.: urina com bacilos Gram-negativos + piúria).
- Ajustar empirismo e solicitar cultura/antibiograma quando indicado.
2) Cultura e identificação (prova de viabilidade e base para sensibilidade)
Cultura permite crescer o microrganismo para identificação e, em bactérias e alguns fungos, realizar testes de sensibilidade. É especialmente útil quando o tratamento depende de escolher o antimicrobiano correto e quando é necessário confirmar o agente.
- O que entrega: isolamento do agente, quantificação em alguns materiais (ex.: urina), identificação e possibilidade de tipagem.
- Tempo típico: bactérias comuns em 24–72 h; fungos podem exigir mais tempo; alguns agentes são difíceis ou não cultiváveis em rotina.
- Limitações: antibiótico prévio reduz positividade; contaminação pode confundir; crescimento lento atrasa decisão.
Passo a passo prático: cultura até identificação (visão operacional)
- Semeadura em meios apropriados ao material e suspeita.
- Incubação em condições adequadas (atmosfera/temperatura/tempo).
- Leitura: presença de colônias, morfologia, pureza, contagem quando aplicável.
- Identificação: testes bioquímicos, espectrometria (quando disponível) ou painéis automatizados.
- Interpretação clínica: diferenciar patógeno provável de colonizante/contaminante conforme sítio e contexto.
3) Testes de sensibilidade a antimicrobianos (AST/antibiograma)
O teste de sensibilidade estima se o microrganismo isolado tende a ser inibido por concentrações alcançáveis do antimicrobiano no paciente. Ele orienta descalonamento (trocar para opção mais direcionada), escolha de via e, em alguns casos, combinações.
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- Principais formatos: difusão em disco, diluição para determinar concentração inibitória, métodos automatizados.
- Como usar: escolher antimicrobiano com perfil “sensível” e adequado ao sítio (penetração tecidual), alergias e função renal/hepática.
- Limitações: resultado depende do isolamento correto; alguns mecanismos de resistência exigem testes específicos; interpretação deve considerar o local da infecção.
4) Detecção de antígenos (testes rápidos)
Testes de antígeno detectam componentes do microrganismo diretamente na amostra. São úteis quando se precisa de resposta rápida para decisão de isolamento e terapia.
- Vantagens: rapidez, simplicidade, pode funcionar mesmo com microrganismo não viável.
- Limitações: sensibilidade pode ser menor que PCR; janela de detecção varia; resultados podem depender da qualidade da amostra.
5) Sorologia (anticorpos do hospedeiro)
Sorologia detecta resposta imune (anticorpos) e é útil quando o agente é difícil de detectar diretamente ou quando se quer evidência de infecção recente/passada.
- Interpretação prática: anticorpos podem demorar a aparecer; uma amostra única pode não diferenciar infecção antiga de recente; pares de amostras (aguda e convalescente) aumentam valor.
- Limitações: imunossuprimidos podem ter resposta fraca; reações cruzadas podem gerar falso positivo; vacinação pode interferir dependendo do teste.
6) Métodos moleculares (PCR/RT-PCR)
PCR/RT-PCR detecta material genético do agente e é altamente sensível e rápida, especialmente para vírus e para situações em que a cultura é lenta ou difícil.
- Vantagens: rapidez, alta sensibilidade, pode identificar múltiplos agentes em painéis.
- Limitações: pode detectar material residual (não necessariamente infecção ativa); contaminação do processo pode causar falso positivo; inibidores na amostra podem causar falso negativo; resultado depende do momento da coleta (carga viral/bacteriana).
Falsos positivos e falsos negativos: como pensar na interpretação
Fontes comuns de falso negativo
- Coleta tardia (queda de carga do agente) ou precoce demais (antes de atingir limiar de detecção).
- Antimicrobiano prévio reduz cultura e pode reduzir carga para alguns testes.
- Transporte inadequado e degradação do material.
- Amostra do sítio errado (ex.: swab superficial em abscesso profundo).
- Inibidores em testes moleculares.
Fontes comuns de falso positivo
- Contaminação na coleta (flora de pele em hemocultura) ou no processamento (molecular).
- Colonização interpretada como infecção (ex.: vias aéreas superiores).
- Detecção de material residual por PCR após resolução clínica.
- Reatividade cruzada em sorologia.
Regra prática de interpretação
Quanto maior a probabilidade pré-teste (quadro clínico compatível + epidemiologia + achados laboratoriais), maior o valor de um teste positivo. Quando a probabilidade pré-teste é baixa, um positivo isolado exige confirmação e correlação clínica.
Fluxo de decisão por tipo de agente (bactéria, vírus, fungo, protozoário)
Visão geral em forma de algoritmo
1) Definir síndrome e sítio (respiratório, urinário, SNC, pele, GI, sangue, etc.); avaliar gravidade e necessidade de isolamento imediato. 2) Coletar amostras ANTES de antimicrobianos quando possível (ou registrar uso). 3) Escolher estratégia por tipo de agente suspeito: - Bactéria: Gram direto + cultura + AST; antígeno/PCR em cenários específicos. - Vírus: RT-PCR/antígeno (fase aguda) ± sorologia (fase tardia/retrospectiva). - Fungo: microscopia/histopatologia + cultura (mais lenta) ± antígeno/PCR conforme disponibilidade. - Protozoário: microscopia (direta/concentrada) ± antígeno/PCR conforme material e suspeita. 4) Interpretar resultado com probabilidade pré-teste e qualidade da amostra. 5) Ajustar tratamento e medidas de isolamento conforme evidência.Fluxo prático: suspeita de bactéria
- Primeira linha: Gram (quando aplicável) para orientação rápida + cultura do material correto.
- Se grave (ex.: sepse): hemoculturas imediatas e início de antibiótico empírico após coleta; ajustar quando cultura/AST saírem.
- Quando considerar PCR/antígeno: necessidade de resposta rápida, antibiótico prévio, ou agentes específicos de difícil cultivo em rotina.
- Como o resultado orienta conduta:
- Gram sugestivo + clínica compatível: direciona empirismo.
- Cultura positiva + AST: permite descalonar e escolher droga mais eficaz e segura.
- Cultura negativa com alta suspeita: reavaliar sítio, repetir coleta, considerar PCR/antígeno e diagnósticos diferenciais.
Fluxo prático: suspeita de vírus
- Primeira linha na fase aguda: RT-PCR ou antígeno em amostra do sítio correto (frequentemente respiratória, mas depende da síndrome).
- Se janela tardia: sorologia pode ajudar a documentar infecção recente (idealmente com amostras pareadas) quando PCR já negativou.
- Como o resultado orienta conduta:
- Teste positivo precoce: reforça necessidade de isolamento conforme via de transmissão e pode indicar antiviral quando disponível.
- Teste negativo com alta suspeita: revisar tempo de coleta e técnica; considerar repetir ou coletar de outro sítio.
Fluxo prático: suspeita de fungo
- Primeira linha: microscopia/histopatologia (quando há tecido/aspirado) + cultura (sabendo que pode demorar).
- Testes complementares: detecção de antígenos fúngicos e/ou PCR podem acelerar decisão em cenários selecionados.
- Como o resultado orienta conduta:
- Visualização de estruturas fúngicas em tecido/fluido estéril: aumenta urgência de terapia antifúngica.
- Cultura e identificação: direcionam escolha do antifúngico e duração.
- Resultados negativos: não excluem em doença invasiva; pode ser necessário repetir amostras ou obter tecido.
Fluxo prático: suspeita de protozoário
- Primeira linha: exame microscópico do material apropriado (ex.: fezes, sangue, aspirados) com técnicas de concentração quando indicadas.
- Testes rápidos/antígeno: úteis para alguns quadros intestinais, aumentando sensibilidade e rapidez.
- PCR: pode ser usada para aumentar sensibilidade e diferenciar espécies quando isso muda conduta.
- Como o resultado orienta conduta:
- Identificação direta do protozoário: permite terapia específica e medidas de controle (ex.: higiene/água/alimentos).
- Negativo com suspeita persistente: repetir amostras em dias diferentes e revisar técnica de coleta.
Como resultados orientam tratamento e isolamento (integração clínica)
Tratamento: empirismo, ajuste e descalonamento
- Empírico: iniciado com base em gravidade e síndrome, após coleta adequada.
- Direcionado: após identificação (cultura/PCR) e, para bactérias, AST.
- Descalonamento: reduzir espectro quando possível, com base em resultados e evolução clínica.
- Quando parar antimicrobiano: testes negativos consistentes + baixa probabilidade clínica podem apoiar suspensão, evitando uso desnecessário.
Isolamento e controle de transmissão
- Decisão precoce: muitas vezes baseada em síndrome e risco (ex.: quadro respiratório agudo) antes do laudo.
- Confirmação laboratorial: PCR/antígeno positivos podem manter/ajustar isolamento; resultados negativos podem permitir descontinuar, se coerentes com tempo de coleta e clínica.
- Importante: um teste negativo isolado não encerra isolamento quando a suspeita é alta e a coleta pode ter sido inadequada.
Casos-guia (aplicação prática)
Caso 1: febre alta e calafrios com hipotensão (suspeita de sepse)
- Coleta: 2–3 pares de hemoculturas de sítios distintos, antes do antibiótico.
- Métodos: cultura + identificação + AST; considerar testes rápidos conforme protocolo local.
- Interpretação: crescimento em múltiplos frascos com mesmo agente favorece infecção verdadeira; crescimento em um frasco com agente típico de pele pode sugerir contaminação (avaliar contexto).
- Conduta: iniciar antibiótico empírico após coleta; ajustar quando identificação/AST disponíveis.
Caso 2: pneumonia comunitária com escarro
- Coleta: escarro de boa qualidade (idealmente antes de antibiótico).
- Métodos: Gram para orientar empirismo; cultura para confirmação; painel molecular/antígeno em cenários selecionados.
- Interpretação: Gram com muitos leucócitos e um padrão predominante aumenta valor; escarro com muita saliva reduz confiabilidade.
- Conduta: ajustar antibiótico conforme cultura/AST; se teste viral positivo e quadro compatível, reavaliar necessidade de antibiótico e reforçar isolamento conforme risco.
Caso 3: diarreia aguda
- Coleta: fezes em recipiente adequado, idealmente no início do quadro.
- Métodos: antígeno/toxina e/ou PCR sindrômico podem acelerar; cultura selecionada conforme suspeita e necessidade epidemiológica.
- Interpretação: PCR pode detectar mais de um alvo; correlacionar com sintomas e risco para evitar tratar colonização.
- Conduta: hidratação e terapia específica quando indicada; medidas de contato/higiene conforme agente e cenário.