Libras do Zero: Boas práticas, etiqueta e acessibilidade na interação com pessoas surdas

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Boas práticas e etiqueta: o que é “acessibilidade na interação”

Acessibilidade na interação em Libras é o conjunto de condutas que torna a conversa possível, confortável e eficiente para a pessoa surda. Não é “ser gentil” apenas: é garantir que a informação chegue com clareza, que os turnos de fala sejam organizados e que haja meios de corrigir falhas (reparo) quando algo não for entendido.

Na prática, isso envolve: iniciar a comunicação de forma adequada, manter atenção visual, sinalizar turnos (falar/escutar), adaptar-se ao ambiente (iluminação, mãos ocupadas, ruído visual) e evitar comportamentos que atrapalham a compreensão.

Como iniciar a comunicação de forma respeitosa

Princípios

  • Primeiro, garanta atenção: em Libras, “ouvir” é ver. Se a pessoa não estiver olhando, a mensagem não chegou.
  • Seja direto e contextual: comece com o assunto e o objetivo (ex.: “preciso de ajuda”, “uma informação rápida”).
  • Combine o canal: Libras, escrita no celular, apontar/gestos, ou combinação, dependendo da situação.

Passo a passo (início rápido)

  1. Chame a atenção com educação: aceno discreto no campo visual; se estiver perto, um toque leve no ombro/braço (apenas se apropriado e com cuidado); em ambiente coletivo, pode-se piscar a luz (quando você tem controle do ambiente) ou pedir a alguém para chamar.
  2. Espere o contato visual: só comece a sinalizar quando a pessoa olhar.
  3. Apresente o tema em 1 frase curta: “Preciso perguntar uma coisa”, “Quero comprar”, “Estou perdido”.
  4. Confirme se pode continuar: observe a resposta e a expressão; se houver dúvida, use reparo (ver seção).

Atenção visual e manutenção do diálogo

Como manter a conversa fluindo

  • Fale com o corpo estável: evite sinalizar andando rápido, virando o rosto ou cobrindo a boca/mãos.
  • Ritmo natural: nem acelerado, nem “teatral”. Clareza vem de consistência, não de exagero.
  • Uma ideia por vez: frases curtas e bem segmentadas ajudam a reduzir falhas de compreensão.
  • Use referências visuais: apontar para objetos, locais, pessoas e usar o espaço para organizar informações (ex.: “ali”, “aqui”, “você”, “eu”).

O que fazer quando você precisa olhar para outro lugar

Se você precisar consultar algo (celular, placa, documento), sinalize uma pausa curta e retome com contato visual. Evite continuar “falando” enquanto a pessoa não está vendo.

Interromper, trocar turnos e retomar o assunto

Etiqueta de turnos (quem “fala” e quem “escuta”)

  • Para interromper: sinalize um pedido de pausa/um instante e espere a pessoa parar. Interromper “entrando com as mãos” no meio do sinal do outro gera confusão.
  • Para trocar turnos: finalize sua ideia, faça uma pausa breve e observe se a pessoa vai responder. Se ela começar, você para e mantém atenção.
  • Para retomar: recupere o contexto com 1–2 sinais/gestos-chave (tema + objetivo) antes de continuar.

Passo a passo (interrupção educada)

  1. Chame atenção visual (aceno discreto).
  2. Sinalize “um momento/pausa”.
  3. Diga o motivo em uma frase curta (ex.: “desculpa, preciso confirmar”).
  4. Volte ao ponto anterior com um resumo (tema + última informação).

Ambiente e “ruído visual”: como adaptar sem perder clareza

Quando suas mãos estão ocupadas

  • Priorize segurança: se estiver carregando algo pesado, pare e apoie antes de sinalizar.
  • Use alternativa temporária: apontar + escrita rápida no celular + sinais essenciais, até liberar as mãos.
  • Combine estratégia: “vou escrever” e mostre a tela; depois retome em Libras quando possível.

Baixa iluminação

  • Mude de posição: procure uma fonte de luz à frente do seu corpo (não atrás, para não virar silhueta).
  • Reduza velocidade e aumente contraste: mantenha as mãos na área mais visível (altura do tronco/peito) e evite sinalizar muito baixo.
  • Se necessário, troque o canal: escrita no celular ou local mais iluminado.

Ambiente com muita informação visual (muita gente, telas, movimento)

  • Crie “zona de conversa”: aproxime-se o suficiente para manter o campo visual confortável e reduzir distrações.
  • Fique de frente: evite falar de lado ou por cima do ombro.
  • Use marcadores de tópico: antes de detalhes, deixe claro o tema (ex.: “ônibus”, “pagamento”, “endereço”).

O que evitar (erros comuns que prejudicam a acessibilidade)

  • Falar sem sinalizar e sem garantir compreensão: se você está usando voz, mas a pessoa depende de Libras/visual, a mensagem não chega. Se houver mediação, ainda assim confirme entendimento com a pessoa surda.
  • Exagerar movimentos: “aumentar” demais o gesto pode distorcer o sinal e cansar visualmente. Prefira precisão e ritmo.
  • Olhar para o intérprete em vez da pessoa surda: com intérprete, a conversa é com a pessoa surda. Mantenha contato visual com ela; o intérprete é o canal, não o interlocutor.
  • Falar enquanto a pessoa não está olhando: sem atenção visual, não há recepção da mensagem.
  • Pressupor que a pessoa entendeu: confirme, especialmente em informações críticas (valores, horários, endereços, instruções).

Mediação com intérprete: como agir corretamente

Regras práticas

  • Fale/sinalize para a pessoa surda: mantenha o corpo e o olhar direcionados a ela.
  • Use frases curtas: facilite a interpretação e reduza perda de informação.
  • Evite conversas paralelas com o intérprete: se precisar ajustar algo, faça de forma breve e transparente.
  • Confidencialidade e respeito: trate o intérprete como profissional; não peça opiniões pessoais sobre a pessoa surda.

Estratégias de reparo de comunicação (quando dá “branco” ou não entendeu)

Reparo é o conjunto de ações para corrigir falhas de entendimento sem constranger ninguém. É normal precisar reparar; o objetivo é recuperar a mensagem com o menor custo possível.

1) Pedir repetição (de forma útil)

Em vez de apenas “repete”, indique o que não entendeu.

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  • Exemplo prático: “Repete a última parte” / “Não entendi o lugar” / “Qual horário?”

2) Reformular com sinais mais simples

Se percebeu confusão, reduza a frase e reconstrua em blocos.

  • Modelo: TEMA → AÇÃO → DETALHE.
  • Exemplo prático: em vez de explicar tudo de uma vez, faça: “Compra” (tema) → “cartão ou dinheiro?” (ação) → “valor” (detalhe).

3) Soletrar quando necessário (uso funcional)

Use soletração para nomes próprios, siglas, termos técnicos, marcas, ruas e quando não souber o sinal. Após soletrar, aponte o contexto (ex.: placa, documento, produto) para fixar o referente.

4) Apontar contexto e usar apoio visual

  • Mostre a placa, o mapa, o item, o cardápio, a tela do celular.
  • Aponte “aqui/ali”, trace rotas simples no mapa, indique números e horários visualmente.

5) Confirmar entendimento (fechamento de ciclo)

Confirmação não é “entendeu?”. É checar a informação-chave.

  • Modelo: “Então é X, certo?” + aguarde resposta.
  • Exemplos: “Encontro às 19h, certo?”; “Você quer 2 unidades, certo?”; “O endereço é este, certo?”

Sequência rápida de reparo (quando travar)

1) Pausa + contato visual  2) Diga “não entendi” (com expressão adequada)  3) Peça repetição OU aponte o trecho  4) Reformule em blocos  5) Use apoio (escrita/soletração/apontar)  6) Confirme a informação-chave

Roteiros práticos (5 situações do dia a dia) + checklist de desempenho

1) Encontro social (conhecer alguém em um evento)

Objetivo: iniciar conversa, manter turnos e evitar ruído visual.

  • Roteiro: (a) Chame atenção com aceno discreto e espere olhar. (b) Indique o contexto: “evento/festa” + “conhecer”. (c) Faça uma pergunta simples por vez. (d) Se houver barulho e muita gente, mova para um local com menos distração visual. (e) Se não entender, peça repetição do trecho e confirme um ponto-chave (nome, tema, local).
  • Checklist: manteve contato visual? ☐ usou frases curtas? ☐ respeitou turnos (não sobrepôs sinais)? ☐ evitou exagero? ☐ confirmou informações importantes (nome/combinação)? ☐

2) Atendimento (recepção/serviço)

Objetivo: tornar o atendimento acessível e eficiente.

  • Roteiro: (a) Garanta atenção e indique “atendimento/ajuda”. (b) Pergunte a demanda em 1 bloco (assunto principal). (c) Se precisar consultar sistema/documento, sinalize pausa e retome com contato visual. (d) Para dados críticos (horário, senha, sala, valor), confirme visualmente e repita a informação-chave. (e) Se houver intérprete, fale olhando para a pessoa surda.
  • Checklist: chamou atenção antes de falar? ☐ pausou ao consultar algo? ☐ confirmou dados críticos? ☐ ofereceu alternativa (escrita) se necessário? ☐ manteve foco na pessoa (mesmo com intérprete)? ☐

3) Pedido de ajuda (situação rápida na rua)

Objetivo: comunicar urgência sem confundir.

  • Roteiro: (a) Chame atenção de forma clara (aceno amplo, sem invadir). (b) Indique “ajuda” + a situação em 1–2 sinais/gestos (ex.: “perdi”, “problema”, “preciso”). (c) Aponte o que precisa (objeto/local/pessoa). (d) Se não entender a resposta, peça repetição e aponte o contexto (mapa, placa, item). (e) Confirme a ação final: “ir ali?” “esperar aqui?”
  • Checklist: foi direto no objetivo? ☐ usou apontamento/contexto? ☐ evitou falar sem garantir compreensão? ☐ fez reparo quando necessário? ☐ confirmou o próximo passo? ☐

4) Informação de trajeto (pedir/receber orientação)

Objetivo: reduzir ambiguidade em direções.

  • Roteiro: (a) Mostre o destino (no celular/mapa) ou aponte referência. (b) Pergunte o trajeto em etapas (ex.: “primeiro… depois…”). (c) Use apoio visual: mapa, placa, nome de rua (se preciso, soletrar). (d) Repita de volta o que entendeu (resumo) e peça confirmação. (e) Se houver baixa iluminação, vá para um ponto mais claro antes de continuar.
  • Checklist: usou apoio visual (mapa/placa)? ☐ segmentou em etapas? ☐ repetiu o resumo para confirmar? ☐ ajustou posição/iluminação? ☐ evitou excesso de detalhes de uma vez? ☐

5) Compra rápida (fila, pouco tempo)

Objetivo: comunicar item, quantidade e pagamento com mínimo atrito.

  • Roteiro: (a) Garanta atenção e aponte o produto/mostre. (b) Indique quantidade e variação (tamanho/sabor) de forma objetiva. (c) Confirme valor e forma de pagamento mostrando na tela/visor quando possível. (d) Se houver ruído visual (mãos ocupadas), use escrita curta no celular para complementar. (e) Finalize confirmando: item + quantidade + valor.
  • Checklist: apontou/mostrou o produto? ☐ confirmou quantidade e valor? ☐ usou alternativa (escrita) se necessário? ☐ manteve contato visual nos momentos-chave? ☐ fez checagem final antes de pagar? ☐

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma interação em Libras, qual conduta melhor garante acessibilidade quando você precisa consultar o celular ou um documento durante a conversa?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Como a compreensão depende da atenção visual, o adequado é sinalizar uma pausa, consultar o que for necessário e retomar somente após recuperar o contato visual, evitando “falar” enquanto a pessoa não está vendo.

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