Do tempo vivido ao tempo histórico: uma progressão necessária
No Ensino Fundamental, a noção de tempo em História começa pelo que o aluno consegue observar e narrar: sua rotina, suas lembranças recentes e suas expectativas. Esse é o tempo vivido (pessoal e cotidiano). A partir dele, ampliamos para o tempo histórico, que organiza acontecimentos em sequências mais longas, compara épocas e identifica mudanças e permanências (o que se transforma e o que continua).
Uma progressão didática eficiente costuma seguir este caminho: rotina (sequência diária) → ontem/hoje/amanhã (curto prazo) → antes/depois (ordenação e causalidade simples) → mudanças/permanências (comparação entre tempos) → tempo histórico (interpretação de transformações em grupos, lugares e instituições como família, escola e bairro).
Conceitos essenciais (com exemplos do cotidiano)
- Tempo vivido: tempo percebido na experiência pessoal. Ex.: “Hoje tive Educação Física; ontem choveu; amanhã tem prova.”
- Sequência temporal: ordem em que as ações acontecem. Ex.: “Acordar → tomar café → ir à escola.”
- Antes/depois: relação de ordenação que pode incluir explicações simples. Ex.: “Depois que a rua foi asfaltada, ficou mais fácil andar de bicicleta.”
- Mudanças: aspectos que se alteram ao longo do tempo. Ex.: “A escola ganhou computadores; a sala mudou de lugar.”
- Permanências: aspectos que continuam. Ex.: “O horário de entrada continua o mesmo; o recreio ainda acontece.”
- Tempo histórico: modo de compreender o passado e o presente em relação, usando registros (relatos, fotos, objetos, documentos) e comparações. Ex.: “Como era a escola dos pais e como é a escola hoje?”
Atividades para consolidar sequências temporais (calendário, agenda ilustrada e relatos)
1) Calendário da turma: do dia a dia ao “passar do mês”
Objetivo: perceber a passagem do tempo, organizar eventos e construir referências (dias, semanas, meses) conectadas à vida real do aluno.
Materiais: calendário grande (papel pardo/cartolina), canetas coloridas, adesivos/desenhos, fotos de eventos da escola (quando possível).
Passo a passo prático:
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- Passo 1 – Marcar o “hoje”: diariamente, um aluno identifica o dia e registra um símbolo (sol/chuva, humor, algo marcante).
- Passo 2 – Registrar eventos reais: aniversários, passeio, reunião, feira, prova, apresentação. Use ícones/desenhos para facilitar a leitura.
- Passo 3 – Criar a linha “ontem/hoje/amanhã”: ao lado do calendário, manter um quadro pequeno com três colunas para registrar um acontecimento em cada.
- Passo 4 – Revisão semanal: no fim da semana, retomar: “O que aconteceu primeiro? O que veio depois? O que se repetiu?”
- Passo 5 – Ampliação para o mês: comparar semanas: “Esta semana foi diferente da outra? Por quê?”
Exemplo de perguntas durante a rotina: “Qual foi o primeiro evento do mês?” “O que aconteceu depois do passeio?” “O que se repetiu todas as semanas?”
2) Agenda ilustrada: rotina e sequência com linguagem acessível
Objetivo: organizar a rotina e desenvolver a noção de sequência temporal com apoio visual, favorecendo alunos em diferentes níveis de alfabetização.
Materiais: folhas dobradas (tipo livrinho), lápis de cor, recortes, carimbos, fotos (opcional).
Passo a passo prático:
- Passo 1 – Escolher um recorte: “Meu dia na escola” ou “Meu sábado” (um período curto e concreto).
- Passo 2 – Listar 4 a 6 momentos: ex.: “cheguei”, “aula”, “recreio”, “almoço”, “voltei para casa”.
- Passo 3 – Ilustrar e legendar: cada página com desenho e uma frase curta (ou ditada ao professor).
- Passo 4 – Ordenar: conferir se a sequência faz sentido; reorganizar páginas se necessário.
- Passo 5 – Compartilhar: em duplas, um aluno narra e o outro faz perguntas de “antes/depois”.
Variação para ampliar o tempo: “Minha semana” com 5 quadros (um por dia) e um destaque do que foi mais importante.
3) Relatos de experiências: do “eu” ao “nós”
Objetivo: transformar vivências em narrativa temporal, introduzindo a ideia de registro e memória (base para o tempo histórico).
Materiais: caderno, gravador/áudio (opcional), fotos/objetos trazidos de casa (combinado previamente).
Passo a passo prático:
- Passo 1 – Escolher uma experiência real: mudança de casa, nascimento de um irmão, festa da escola, reforma na rua, troca de turma.
- Passo 2 – Organizar em três tempos: “Antes”, “Durante”, “Depois”.
- Passo 3 – Registrar: texto curto, desenho com legenda, ou áudio transcrito (o professor pode apoiar).
- Passo 4 – Identificar marcas de mudança e permanência: sublinhar (ou circular) no relato o que mudou e o que continuou.
- Passo 5 – Socializar e comparar: em roda, observar semelhanças e diferenças entre relatos (ex.: mudanças na família, na escola, na rua).
Perguntas-guia para construir pensamento histórico
As perguntas-guia ajudam o aluno a sair da simples lembrança (“aconteceu”) e chegar à comparação e explicação (“mudou/continuou por quê”). Elas podem ser usadas em qualquer atividade (calendário, agenda, relatos, fotos antigas, objetos).
Conjunto básico de perguntas (para diferentes idades)
- O que aconteceu primeiro? E depois?
- O que mudou? (na rotina, no lugar, nas pessoas, nas regras)
- O que continua igual? (hábitos, horários, espaços, relações)
- Por que você acha que mudou? (necessidade, decisão, crescimento, reformas, novas regras)
- Quem foi afetado por essa mudança? (aluno, família, turma, vizinhos)
- Essa mudança foi rápida ou lenta? (de um dia para o outro ou ao longo de meses)
Perguntas para conectar com família, escola e rua
- Família: “Como era a casa quando você era menor?” “O que mudou na sua família nos últimos anos?” “O que permanece nas comemorações?”
- Escola: “O que mudou na escola desde o ano passado?” “Quais regras continuam?” “Por que algumas regras mudam?”
- Rua/bairro: “O que mudou na rua (comércio, trânsito, iluminação)?” “O que continua igual?” “Quem decidiu essa mudança?”
Formas de registro: quadros comparativos e organização visual
Registrar é essencial para consolidar sequências temporais e iniciar práticas de análise. O registro pode ser feito com palavras, desenhos, símbolos, fotos e pequenos textos. O importante é que o aluno consiga comparar e justificar.
Quadro comparativo “Antes e Depois” (modelo para copiar)
| Aspecto observado | Antes | Depois | O que mudou? | O que permaneceu? | Por quê? (hipótese) |
|---|---|---|---|---|---|
| Minha sala de aula | Carteiras em filas | Carteiras em grupos | Organização das carteiras | Mesma turma e professor | Para trabalhar em equipe |
| Minha rua | Pouca iluminação | Postes novos | Iluminação | Casas e vizinhos | Mais segurança |
Quadro “Mudanças e Permanências” (para relatos e entrevistas)
| Relato/tema | Mudanças (o que se transformou) | Permanências (o que continuou) | Como sabemos? (registro) |
|---|---|---|---|
| Minha rotina escolar | Nova professora de Artes | Horário de entrada | Agenda ilustrada + calendário |
| Festa da família | Local da comemoração | Comida tradicional | Relato + foto/objeto |
Da experiência ao tempo histórico: ampliando a comparação entre épocas
Para introduzir o tempo histórico, é útil trabalhar com comparações que envolvam duas gerações (aluno e familiares) ou dois momentos da escola/bairro. O foco não é decorar datas, mas perceber que o modo de viver muda com o tempo e que podemos investigar isso por registros.
Atividade: entrevista curta com familiares (com roteiro simples)
Objetivo: comparar “quando eu era criança” com “hoje”, identificando mudanças e permanências.
Passo a passo prático:
- Passo 1 – Preparar o roteiro: 5 perguntas curtas (abaixo).
- Passo 2 – Realizar a entrevista: pode ser oral, por áudio ou anotação com ajuda.
- Passo 3 – Selecionar 3 respostas: escolher as mais claras para comparar.
- Passo 4 – Registrar em quadro: “Antes (na infância do familiar)” x “Hoje (minha experiência)”.
- Passo 5 – Socializar: montar um painel da turma com exemplos de mudanças e permanências.
Roteiro de perguntas (exemplos):
- “Como era sua escola quando você tinha minha idade?”
- “Como você ia para a escola?”
- “Do que você brincava na rua?”
- “O que você comia no lanche?”
- “O que você acha que mudou mais? E o que continua parecido?”
Registro sugerido (modelo)
| Tema | Antes (familiar) | Hoje (aluno) | Mudou/Permaneceu? | Por quê? (hipótese) |
|---|---|---|---|---|
| Transporte para a escola | A pé | Ônibus/carro | Mudou | Distância/segurança/trânsito |
| Brincadeiras | Rua e quintal | Parque e jogos digitais | Mudou | Rotina/tecnologia/espaços |
Estratégias de mediação: como o professor ajuda a “ver o tempo”
Organizar marcadores temporais na fala do aluno
Durante relatos, o professor pode incentivar o uso de expressões que organizam a narrativa: “primeiro”, “depois”, “em seguida”, “naquela época”, “antes disso”, “por último”. Quando o aluno não usar, o professor pode perguntar: “Isso aconteceu antes ou depois?” e registrar no quadro.
Transformar lembranças em sequência verificável
Quando houver confusão (“foi semana passada ou mês passado?”), retomar o calendário da turma e localizar o evento. Isso ensina que o tempo pode ser checado por registros, não apenas lembrado.
Conectar mudanças a motivos (sem exigir respostas únicas)
Ao perguntar “por quê?”, aceitar hipóteses e orientar a justificativa com evidências do cotidiano: “O que você viu que te faz pensar isso?” “Quem contou?” “Tem foto, bilhete, aviso da escola?”