O que este guia faz (e o que ele não faz)
Este capítulo entrega um protocolo replicável para você reconhecer e classificar textos na prática, mesmo quando eles são curtos, híbridos ou “enganadores” à primeira vista. A ideia é trabalhar como um leitor-investigador: você coleta indícios, formula uma hipótese de gênero, testa essa hipótese com sinais fortes e registra uma justificativa objetiva.
Importante: aqui o foco não é reexplicar as definições completas de romance, conto, crônica, poesia e teatro (isso já foi feito antes), e sim ensinar um método de decisão que você possa aplicar em qualquer texto.
Protocolo de leitura e classificação (em 6 etapas)
Etapa 1 — Leitura de amostra (primeiro parágrafo/primeira página)
Leia apenas o suficiente para captar o “modo de funcionamento” do texto. Em textos curtos, isso pode ser o texto inteiro; em textos longos, use o primeiro parágrafo e uma olhada rápida na organização geral (títulos, quebras, falas, estrofes).
- Objetivo: perceber rapidamente se o texto se organiza por cena, por observação/reflexão, por imagens/ritmo ou por fala em cena.
- Armadilha: decidir o gênero só pelo tema (amor, infância, cidade). Tema não classifica; funcionamento textual classifica.
Etapa 2 — Marcação de indícios (estrutura, voz, organização gráfica, ritmo)
Faça uma marcação rápida (no papel ou digital) de indícios. Use um código simples para não se perder:
[E]Estrutura: há enredo? há virada? há conflito em ação? há sequência de cenas?[V]Voz: soa como conversa com leitor? soa como narrador contando? soa como eu lírico? soa como personagens falando?[G]Organização gráfica: versos/estrofes? parágrafos longos? rubricas? travessões de fala? nomes antes de falas?[R]Ritmo/sonoridade: repetições, paralelismos, aliterações, cortes, cadência marcada?
Você não precisa marcar tudo; 5 a 10 marcações já bastam para uma hipótese inicial.
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Etapa 3 — Formulação de hipótese de gênero (com grau de confiança)
Escreva uma hipótese em uma linha, com um nível de confiança:
Hipótese: crônica (70%)Hipótese: conto (55%)Hipótese: poema em prosa (60%)Hipótese: teatro (90%)
O número força você a admitir dúvida quando o texto é híbrido ou curto demais.
Etapa 4 — Checagem por sinais fortes (teste de confirmação)
Agora você procura sinais fortes que sustentem (ou derrubem) a hipótese. Sinais fortes são aqueles que, quando aparecem, pesam muito na classificação.
| Se você suspeita de… | Procure sinais fortes como… | Se não encontrar, desconfie porque… |
|---|---|---|
| Teatro | Falas atribuídas a personagens (nomes antes das falas), rubricas/indicações de cena, conflito em ação no diálogo | Sem marcas de cena e sem motor dialogal, pode ser narrativa com diálogo (não teatro) |
| Poesia (inclui poema em prosa) | Trabalho de imagem e ritmo como eixo, linguagem condensada, paralelismos, cortes, repetição significativa | Se o texto “funciona” principalmente como relato/observação do cotidiano, pode ser crônica |
| Crônica | Voz de conversa, recorte do cotidiano, observação com comentário/ironia, presença de um “eu” que conversa com o leitor | Se o texto depende de uma virada de enredo e fechamento de efeito, pode ser conto |
| Conto | Unidade de efeito, seleção de cenas, tensão/virada, fechamento que reorganiza o sentido | Se o texto é mais “registro + reflexão” do que trama, pode ser crônica |
| Romance | Arquitetura longa, continuidade, múltiplos núcleos, expansão de tempo/espaço | Em amostra curta, é fácil confundir com conto; procure sinais de projeto longo (capítulos, múltiplas linhas) |
Etapa 5 — Identificação de variação (subtipo) e grau de hibridismo
Depois de escolher o gênero principal, registre a variação. Use rótulos simples e úteis (não precisa “inventar” nomes):
- Crônica: crônica narrativa; crônica reflexiva; crônica humorística; crônica memorialística.
- Conto: conto de situação; conto de personagem; conto de atmosfera; microconto.
- Poesia: poema em versos livres; soneto (se houver forma fixa); poema em prosa; poema narrativo.
- Teatro: cena curta; peça em um ato; sketch; drama/tragicomédia (se o tom for determinante).
Se o texto mistura procedimentos, registre como gênero principal + traços de. Ex.: crônica com traços poéticos ou conto com voz de crônica.
Etapa 6 — Registro de justificativa (em 3 camadas)
Para não cair no “acho que é”, registre a justificativa em três camadas:
- Camada A (evidência): cite 2 a 4 indícios observáveis (estrutura, voz, gráfico, ritmo).
- Camada B (interpretação): explique como esses indícios fazem o texto funcionar.
- Camada C (decisão): declare gênero + variação + nível de confiança.
Modelo de frase (preencha):
Classificação: ________ (subtipo: ________), confiança: __%.
Evidências: (1) ________ (2) ________ (3) ________.
Interpretação: ________.
Sinais fortes checados: ________.
Observação de hibridismo (se houver): ________.Fichas-modelo preenchidas (exemplos fictícios)
Ficha 1 — Texto A (fictício)
Amostra do texto:
“No ponto de ônibus, o homem segurava uma sacola de pão como quem segura uma desculpa. Chovia fino, e eu — que não tinha nada a fazer com a vida dele — comecei a inventar motivos para aquele atraso. Quando o ônibus chegou, ele não entrou. Sorriu para o vidro molhado, como se o motorista fosse um parente, e voltou pela calçada, devagar, como quem desiste sem alarde.”
| Etapa 2 — Indícios marcados | [E] cena curta com foco em um momento; [V] narrador em 1ª pessoa observador; [R] imagens (“sacola… desculpa”, “desiste sem alarde”); [E] não há virada explícita ainda |
| Etapa 3 — Hipótese | Hipótese: crônica (65%) |
| Etapa 4 — Sinais fortes checados | Voz de observação com comentário implícito; recorte do cotidiano (ponto de ônibus, chuva); ausência de fechamento de efeito (na amostra) |
| Etapa 5 — Variação | crônica narrativa (com traços poéticos) |
| Etapa 6 — Justificativa | Classificação: crônica (subtipo: narrativa), confiança: 65%. Evidências: (1) recorte cotidiano e observação (ponto de ônibus, chuva) (2) narrador em 1ª pessoa como testemunha (3) linguagem imagética sem depender de trama. Interpretação: o texto funciona como olhar significativo sobre um instante, mais do que como construção de enredo com virada. Sinais fortes checados: voz de conversa/observação e recorte do cotidiano. Hibridismo: imagens e cadência sugerem traços poéticos. |
Ficha 2 — Texto B (fictício)
Amostra do texto:
“Ela abriu a gaveta para procurar a chave e encontrou o bilhete que tinha jurado esquecer. Não era longo: ‘Volto quando você parar de me pedir provas’. O papel estava amarelado, mas a frase parecia escrita agora. Ela fechou a gaveta com força, como se pudesse trancar o passado. Na sala, o relógio bateu duas vezes — e, na segunda, a porta da rua girou.”
| Indícios | [E] tensão e progressão (bilhete → reação → som → porta); [E] preparação de virada; [V] 3ª pessoa focalizada; [R] ritmo de suspense |
| Hipótese | Hipótese: conto (75%) |
| Sinais fortes checados | Unidade de efeito (suspense), economia de elementos, fechamento sugerido por evento decisivo (porta girou) |
| Variação | conto de situação (com atmosfera de suspense) |
| Justificativa | Classificação: conto (subtipo: situação), confiança: 75%. Evidências: (1) encadeamento causal curto (2) construção de tensão para um evento (porta) (3) foco em um momento decisivo. Interpretação: o texto organiza detalhes para um impacto/virada, típico de unidade de efeito. Sinais fortes checados: progressão para clímax e economia narrativa. |
Ficha 3 — Texto C (fictício)
Amostra do texto:
“A cidade mastiga seus nomes devagar. Placas, buzinas, vitrines: tudo me chama por um apelido que não é meu. Caminho e me desfaço em pedaços pequenos, como pão no bolso. Quando anoitece, recolho o que sobrou de mim na soleira de uma padaria fechada e espero que o silêncio me reconheça.”
| Indícios | [R] imagens e metáforas em sequência; [V] eu lírico; [E] ausência de enredo; [G] parágrafos (não versos), mas alta densidade poética |
| Hipótese | Hipótese: poema em prosa (80%) |
| Sinais fortes checados | Ritmo por paralelismo (“Placas, buzinas, vitrines”), metáforas como eixo, sentido construído por imagens e não por ação |
| Variação | poesia: poema em prosa |
| Justificativa | Classificação: poesia (subtipo: poema em prosa), confiança: 80%. Evidências: (1) metáforas encadeadas (2) eu lírico e interioridade (3) ausência de trama e de comentário cotidiano típico de crônica. Interpretação: o texto opera por imagens e cadência, com condensação de sentido. Sinais fortes checados: densidade imagética e ritmo como motor. |
Ficha 4 — Texto D (fictício)
Amostra do texto:
SALA DE ESPERA. DUAS CADEIRAS. UM RELÓGIO ALTO.
MARTA: Você viu que ele não olha pra gente?
JOÃO: Ele olha. Só que por dentro.
MARTA: Por dentro não vale.
JOÃO: Vale quando é a única coisa que sobra.
(O RELÓGIO PARA. SILÊNCIO.)| Indícios | [G] rubrica de cena; [G] nomes antes das falas; [E] conflito em ação no diálogo; [R] pausa como recurso (silêncio) |
| Hipótese | Hipótese: teatro (95%) |
| Sinais fortes checados | Texto escrito para ser encenado: rubricas + diálogo como motor |
| Variação | cena curta |
| Justificativa | Classificação: teatro (subtipo: cena curta), confiança: 95%. Evidências: (1) rubricas (2) falas atribuídas (3) silêncio como ação cênica. Interpretação: o sentido se produz na interação e no tempo de palco, não em narração. |
Erros comuns (e como corrigir com o protocolo)
Erro 1 — Confundir crônica com conto “porque tem narrativa”
Por que acontece: ambos podem narrar um acontecimento. O leitor vê personagens e ações e conclui “conto”.
Como corrigir (use Etapa 4):
- Procure unidade de efeito + virada/fechamento. Se o texto depende de um fechamento que reorganiza tudo, tende ao conto.
- Procure voz de observação e comentário (explícito ou implícito) e o recorte do cotidiano como finalidade. Se o texto “vale” pelo olhar e não pela trama, tende à crônica.
Teste rápido: se você resumir em uma frase, o que fica mais forte? “Aconteceu X e no fim Y” (conto) ou “Olhar sobre X e o que isso revela” (crônica).
Erro 2 — Confundir poema em prosa com crônica “porque está em parágrafos”
Por que acontece: muita gente associa poesia apenas a versos quebrados.
Como corrigir (use Etapa 2 e 4):
- Marque
[R]e pergunte: o texto é movido por imagens, ritmo e condensação? - Verifique se há comentário sobre o cotidiano com voz conversada (típico de crônica) ou se há densidade metafórica contínua (típico de poema em prosa).
Teste rápido: troque mentalmente algumas imagens por termos literais. Se o texto “desmonta” e perde o sentido, é forte candidato a poesia; se permanece como relato/observação, pode ser crônica.
Erro 3 — Confundir texto com muito diálogo com teatro
Por que acontece: contos e romances podem ter páginas inteiras de diálogo.
Como corrigir:
- Procure marcas cênicas (rubricas, entradas/saídas, cenário, nomes antes das falas).
- Veja se o texto dispensa narrador e se sustenta como ação em palco.
Erro 4 — Classificar pelo “tom” e ignorar a organização
Por que acontece: textos engraçados viram “crônica”, textos tristes viram “poesia”.
Como corrigir: volte à Etapa 2 e marque [G] e [E]. Tom é um indício fraco; organização e motor do texto são indícios fortes.
Atividades avaliativas (textos inventados)
Instruções: para cada texto, faça (1) hipótese de gênero com % (2) 3 indícios marcados [E][V][G][R] (3) checagem de 1 sinal forte (4) variação (subtipo) (5) justificativa em 4–6 linhas.
Atividade 1 — Texto 1
“Eu sempre digo que não ligo para filas, mas basta a fila existir para eu virar um manifesto ambulante. Na do banco, descobri que as pessoas têm duas velocidades: a do corpo e a da paciência. A minha, hoje, veio sem bateria. Quando chegou minha vez, eu já não queria sacar nada — queria apenas devolver ao mundo os quarenta minutos que ele me tomou, com juros.”
Atividade 2 — Texto 2
“O cachorro apareceu na porta numa terça-feira e, sem pedir licença, escolheu a casa. Deitou no tapete como se fosse herança. Minha mãe disse que não, meu pai disse que talvez, e eu disse que sim com o silêncio. À noite, quando apagaram as luzes, ouvi o barulho do tapete sendo arrastado: ele estava levando embora o lugar onde a gente fingia ser família.”
Atividade 3 — Texto 3
“Há uma xícara lascada na pia que me observa. Não é culpa, é vigília. A água cai e repete meu nome sem som. Eu passo a mão no esmalte quebrado do mundo e ele não melhora; ele brilha, só isso, como se a beleza fosse uma forma educada de desistir.”
Atividade 4 — Texto 4
COZINHA. MANHÃ. UMA TORNEIRA PINGA.
LÉO: Você prometeu que ia falar.
RITA: Eu falei.
LÉO: Você pensou.
RITA: Pensar é a parte que dói.
(A TORNEIRA PARA DE PINGAR. OS DOIS OLHAM.)
LÉO: Até a casa cansou da gente.Atividade 5 — Texto 5
“No capítulo seguinte, ela ainda estaria na mesma cidade, mas a cidade já não seria a mesma: ruas novas surgiriam como desculpas, e nomes antigos cairiam das fachadas. Ele, por sua vez, aprenderia a arte de adiar telefonemas, e isso mudaria o destino de três pessoas que ainda nem tinham sido apresentadas. Por enquanto, porém, tudo cabia numa mesa de bar e numa frase que ninguém teve coragem de terminar.”
Rubrica de correção (como você será avaliado)
| Critério | O que vale ponto | O que tira ponto |
|---|---|---|
| Uso do protocolo | Hipótese + sinais + checagem + variação + justificativa | Resposta só com “é X” sem evidências |
| Indícios observáveis | Citar marcas de estrutura/voz/gráfico/ritmo presentes no texto | Justificar por tema (“fala de amor, então é poesia”) |
| Sinais fortes | Confirmar com pelo menos 1 sinal forte coerente | Ignorar sinais fortes e decidir por impressão |
| Variação (subtipo) | Nomear subtipo plausível ou registrar traços de hibridismo | Forçar rótulos sem base no texto |