O que são antibióticos e qual é o seu papel
Antibióticos são medicamentos usados para tratar infecções causadas por bactérias. Eles atuam matando bactérias (efeito bactericida) ou impedindo sua multiplicação (efeito bacteriostático), permitindo que o sistema imunológico controle a infecção.
O ponto central do uso racional é simples: antibiótico só ajuda quando há infecção bacteriana (ou alta probabilidade dela). Fora disso, ele tende a trazer mais riscos do que benefícios.
O que antibióticos NÃO tratam
- Infecções virais (ex.: resfriado comum, gripe, a maioria das faringites, a maioria das bronquites agudas): antibióticos não atuam contra vírus.
- Quadros não infecciosos (ex.: alergias, asma, irritação por poluição, refluxo, dor inflamatória sem infecção): antibiótico não reduz inflamação “não bacteriana”.
- Febre sem foco definido sem sinais de gravidade: muitas vezes é viral ou autolimitada; pode exigir observação e/ou investigação, não antibiótico imediato.
Diferenciando na prática: bacteriano vs viral vs não infeccioso
1) Infecção bacteriana (quando antibiótico pode ser indicado)
Em geral, tende a ter foco clínico mais definido e pode evoluir com maior gravidade se não tratada. Exemplos de situações frequentemente bacterianas (dependendo do contexto): pneumonia com sinais clínicos e/ou radiológicos sugestivos, pielonefrite, celulite/erisipela, meningite bacteriana, sepse, algumas sinusites com critérios.
2) Infecção viral (quando antibiótico não é indicado)
Costuma ser autolimitada e predominam sintomas de vias aéreas superiores (coriza, congestão, tosse, dor de garganta) com evolução típica em poucos dias. Antibiótico não encurta o curso e aumenta risco de efeitos adversos e resistência.
3) Quadro não infeccioso (quando antibiótico não é indicado)
Alguns sintomas “parecem infecção”, mas não são. Exemplo: tosse persistente por asma/refluxo; dor de garganta por irritação; febre por doença inflamatória; diarreia por intolerância alimentar. Nesses casos, o tratamento é direcionado à causa, não a antibióticos.
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Objetivos do uso racional de antibióticos
- Eficácia: usar antibiótico quando há benefício real, com escolha adequada ao provável agente e ao foco.
- Segurança: reduzir eventos adversos (alergias, diarreia, colite associada a antibióticos, interações medicamentosas, toxicidades).
- Redução de resistência bacteriana: evitar exposição desnecessária e uso inadequado que seleciona bactérias resistentes.
- Custo-efetividade: evitar gastos com medicamentos inúteis e custos indiretos (efeitos adversos, consultas e internações por complicações).
Critérios práticos para suspeitar de infecção bacteriana
Não existe um único sinal que “prove” infecção bacteriana em todos os casos. A decisão é probabilística e combina quadro clínico, exame físico, gravidade, fatores de risco e, quando necessário, exames.
Checklist clínico (use como guia)
- Sinais sistêmicos: febre alta persistente, calafrios intensos, prostração importante, taquicardia, hipotensão, confusão, piora progressiva.
- Foco provável: sintomas e sinais localizatórios (ex.: dor lombar + disúria sugere trato urinário alto; dor pleurítica + taquipneia sugere acometimento pulmonar; eritema quente e doloroso sugere pele/tecidos moles).
- Gravidade: sinais de sepse, hipóxia, desidratação importante, incapacidade de ingerir líquidos, rebaixamento de consciência, dor intensa desproporcional, rápida progressão.
- Fatores de risco: extremos de idade, gestação, imunossupressão, comorbidades relevantes, próteses/dispositivos (cateteres), histórico de infecções recorrentes, uso recente de antibióticos, internação recente.
- Tempo de evolução e padrão: piora após melhora inicial, persistência além do esperado para virose, sintomas localizados que se intensificam.
Exemplos práticos de raciocínio
- Tosse e coriza há 2 dias, febre baixa, sem falta de ar: padrão típico viral; conduta tende a ser observação e tratamento sintomático.
- Disúria e urgência urinária sem febre: pode ser infecção urinária baixa; decisão depende de avaliação clínica e, quando indicado, exame de urina/cultura conforme contexto.
- Febre alta + calafrios + dor lombar + náuseas: aumenta probabilidade de pielonefrite (bacteriana); frequentemente exige antibiótico e avaliação de gravidade.
- Vermelhidão quente e dolorosa em perna, aumentando de tamanho: sugere celulite/erisipela; antibiótico costuma ser necessário, especialmente se houver febre.
Passo a passo prático: como decidir se antibiótico entra ou não
Passo 1 — Defina o problema: é infeccioso?
- Há febre, mal-estar, dor localizada, secreção purulenta, sinais inflamatórios locais?
- Há explicação não infecciosa mais provável (alergia, irritação, crise asmática, refluxo, dor muscular)?
Passo 2 — Se for infeccioso, qual a probabilidade de ser bacteriano?
- Existe foco compatível com infecção bacteriana?
- Há sinais sistêmicos relevantes?
- O curso é compatível com virose autolimitada ou está fora do padrão (piora progressiva, persistência incomum, piora após melhora)?
Passo 3 — Avalie gravidade e risco
- Há sinais de instabilidade (hipotensão, confusão, falta de ar, saturação baixa, desidratação importante)?
- O paciente tem fatores de risco que tornam perigoso “esperar para ver”?
Passo 4 — Decida a estratégia: tratar, observar ou investigar antes de tratar
| Estratégia | Quando costuma fazer sentido | O que fazer na prática |
|---|---|---|
| Tratar | Alta probabilidade de bactéria e/ou gravidade; risco de complicação se atrasar | Iniciar antibiótico conforme foco provável e perfil do paciente; considerar coleta de exames antes da primeira dose quando isso não atrasar cuidado (ex.: culturas em casos selecionados) |
| Observar | Baixa probabilidade de bactéria; quadro leve; sem fatores de risco; evolução compatível com virose | Tratamento sintomático, hidratação, orientações de retorno e sinais de alarme; reavaliar se piorar ou não melhorar no tempo esperado |
| Investigar antes de tratar | Probabilidade intermediária; diagnóstico incerto; necessidade de confirmar foco/gravidade | Solicitar exames direcionados (ex.: urina tipo I/cultura, radiografia, testes rápidos quando apropriados) e reavaliar; iniciar antibiótico se critérios se confirmarem ou se houver piora |
Passo 5 — Reavalie (antibiótico não é “piloto automático”)
- Se iniciou antibiótico: reavaliar resposta clínica em 48–72 horas quando aplicável; confirmar se o diagnóstico faz sentido; ajustar conduta se houver piora, efeitos adversos ou resultados de exames.
- Se optou por observar: definir claramente prazo e sinais de alarme para retorno.
Quadro: erros comuns no uso de antibióticos (e por que são perigosos)
| Erro comum | O que acontece | Risco principal |
|---|---|---|
| Autoprescrição | Uso sem avaliação do foco e da gravidade | Tratamento inadequado, atraso no diagnóstico correto, eventos adversos e resistência |
| Interrupção precoce | Parar ao “melhorar” sem orientação | Falha terapêutica, recaída e seleção de bactérias mais resistentes |
| Guardar sobras | Restos de tratamentos anteriores ficam disponíveis | Uso futuro inadequado, dose/duração erradas, medicamento vencido |
| Compartilhar antibiótico | Outra pessoa usa sem avaliação | Risco de alergia, interação, mascaramento de doença grave e resistência |
| Usar para “prevenir” resfriado | Antibiótico em virose | Sem benefício e com aumento de efeitos adversos e resistência |
Tomada de decisão básica: um roteiro rápido para o dia a dia
Roteiro em 6 perguntas
Há sinais de gravidade? (confusão, falta de ar, hipotensão, prostração extrema, desidratação importante, piora rápida) Se sim, priorize avaliação urgente e conduta imediata.
Existe um foco provável? (pulmão, urina, pele, garganta, ouvido, abdome) Se não há foco, pense em observar/investigar antes de tratar.
O padrão é compatível com virose? (coriza, tosse, dor de garganta leve, evolução curta, melhora gradual) Se sim, antibiótico geralmente não entra.
Há sinais que aumentam probabilidade de bactéria? (febre alta persistente, calafrios, secreção purulenta com sinais sistêmicos, dor localizada intensa, piora progressiva)
Há fatores de risco? (imunossupressão, gestação, extremos de idade, comorbidades, dispositivos) Se sim, limiar para investigar/tratar pode ser menor.
Qual é a melhor estratégia agora: tratar, observar ou investigar? Defina também quando reavaliar e quais sinais exigem retorno imediato.
Exemplo de aplicação do roteiro (situação comum)
Queixa: dor de garganta há 1 dia, coriza, tosse leve, sem febre alta, alimentando-se bem. Raciocínio: padrão viral, sem sinais de gravidade, sem foco bacteriano claro. Estratégia: observar e tratar sintomas, com orientação de retorno se febre alta persistente, piora importante, dificuldade para respirar/deglutir, ou sinais sistêmicos relevantes.
Outro exemplo (situação que tende a exigir ação)
Queixa: febre alta, calafrios, dor lombar, náuseas, mal-estar importante. Raciocínio: foco urinário alto provável e sinais sistêmicos. Estratégia: investigar e tratar precocemente conforme avaliação clínica, considerando gravidade e necessidade de exames e/ou encaminhamento.