Força, amplitude de movimento e desempenho muscular na avaliação em Fisioterapia Neurológica

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que avaliar: força, amplitude de movimento (ADM) e desempenho muscular

Na Fisioterapia Neurológica, “força” não é apenas a capacidade de gerar torque máximo; é a capacidade de produzir força útil no momento certo, com seletividade (sem compensações/sinergias indesejadas), sustentá-la pelo tempo necessário e repetir a tarefa sem queda acentuada de desempenho (fadiga neurológica). A ADM (ativa e passiva) define o “espaço mecânico” disponível para o movimento e influencia diretamente a eficiência, o custo energético e o risco de dor/lesão. Já o desempenho muscular integra: recrutamento, coordenação, resistência, velocidade e controle excêntrico em tarefas funcionais.

O objetivo prático da avaliação é responder: o que limita a função agora (fraqueza, tônus elevado/hiperatividade reflexa, restrição articular/encurtamento, dor, fadiga) e qual achado exige intervenção imediata (risco de contratura, dor importante, instabilidade articular, incapacidade de sustentar postura/transferência com segurança).

Princípios de segurança e qualidade do movimento durante testes

  • Posicionamento e estabilização: estabilize segmentos proximais para evitar “força falsa” por compensação (ex.: inclinar tronco para “ajudar” flexão de quadril).
  • Dosagem de esforço: comece com tarefas de baixa demanda e progrida (isométrico curto → repetição submáxima → tarefa funcional). Interrompa se houver piora clara de controle, dor aguda, dispneia, tontura, tremor intenso ou queda abrupta de desempenho.
  • Seletividade antes de intensidade: registre se o paciente consegue ativar o músculo-alvo sem coativação excessiva e sem padrão sinérgico dominante. Se não houver seletividade, a medida “de força” isolada perde valor clínico.
  • Fadiga neurológica: observe queda de amplitude, lentificação, aumento de coativação, piora de precisão, aumento de compensações e necessidade crescente de pausas. Compare o 1º com o 5º–10º esforço em tarefas repetidas.
  • Dor: diferencie dor muscular tardia/queimação por esforço de dor articular/pontual. Dor articular durante ADM passiva ou em fim de arco muda a prioridade (proteção, controle inflamatório, ajuste de carga).

Avaliação de força de maneira funcional e segura

1) Triagem funcional rápida (força “em tarefa”)

Use tarefas que representem demandas reais e permitam observar seletividade, controle e fadiga. Exemplos (adapte ao nível):

  • Sentar-levantar: observa extensores de quadril/joelho, controle de tronco, simetria de carga, velocidade e necessidade de apoio.
  • Ponte: avalia extensores de quadril e estabilização lombo-pélvica; observe cãibras, assimetria e perda de alinhamento.
  • Elevação de calcanhares (em pé ou sentado): avalia flexores plantares e resistência; observe compensação com flexão de joelho/apoio excessivo.
  • Dorsiflexão repetida sentado: avalia tibial anterior e fadiga; observe inversão/ eversão associada e “arrasto” do pé.
  • Alcance anterior com membro superior: avalia cintura escapular, controle de tronco e mão; observe elevação excessiva do ombro, protrusão escapular rígida, preensão compensatória.

Como registrar: descreva a tarefa, assistência necessária (independente/supervisão/contato/assistência), número de repetições, qualidade (compensações) e sinais de fadiga.

2) Teste de força segmentar (quando necessário) com foco em seletividade

Quando a tarefa funcional não esclarece qual grupo muscular é o limitante, use teste segmentar (manual ou contra gravidade) com critérios claros de qualidade.

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Passo a passo (modelo para qualquer grupo muscular):

  • Passo 1 – Posição que minimize compensações: escolha decúbito/ sentado com apoio para isolar o movimento (ex.: abdução de ombro com escápula estabilizada; extensão de joelho sentado com pelve neutra).
  • Passo 2 – Demonstração + comando simples: “Empurre/segure aqui, sem mexer o tronco”.
  • Passo 3 – Primeiro, contra gravidade sem resistência: verifique se completa a ADM ativa com controle.
  • Passo 4 – Isométrico curto (3–5 s): aplique resistência gradual, evitando “trancos”.
  • Passo 5 – Repetição submáxima (5–10 repetições): útil para detectar fadiga neurológica e perda de seletividade.
  • Passo 6 – Compare lados e registre compensações: anote coativação, tremor, sinergias, dor, e se a força “aparece” apenas com compensação proximal.

Escala prática de registro (sugestão): em vez de depender apenas de um número, use uma combinação: Força funcional (faz/não faz a tarefa), Força segmentar (contra gravidade? mantém isométrico?), Qualidade (seletivo vs com sinergia/compensação) e Fadiga (estável vs queda rápida).

3) Como considerar seletividade motora

Seletividade é a capacidade de ativar um grupo muscular com mínima ativação indesejada de outros. Na prática, registre:

  • Movimento-alvo ocorre isolado? (ex.: dorsiflexão sem inversão excessiva; extensão de joelho sem extensão de quadril e inclinação posterior da pelve).
  • Há “travamento” em padrão? (ex.: ao tentar abrir a mão, aumenta flexão de punho e dedos; ao tentar flexionar quadril, aparece adução/rotação interna dominante).
  • O controle melhora com redução de velocidade ou com apoio? Isso sugere que coordenação/controle (e não apenas força máxima) é parte central do problema.

4) Como identificar e quantificar fadiga neurológica na avaliação

Fadiga neurológica pode se manifestar como queda de desempenho desproporcional ao esforço. Estratégias simples:

  • Teste repetido padronizado: mesma tarefa por 30–60 s (ex.: dorsiflexão repetida, abrir/fechar mão, elevação de calcanhar). Registre repetições e qualidade no início e no final.
  • Comparação pré/pós tarefa funcional: avalie força isométrica curta antes e depois de uma tarefa (ex.: após 3 sentar-levantar, repetir isométrico de extensão de joelho). Queda marcada sugere baixa resistência/fadiga.
  • Escala subjetiva de esforço: peça para graduar esforço (0–10) e correlacione com queda de controle. Esforço alto com baixa produção e piora rápida orienta dosagem e pausas.

Avaliação de amplitude de movimento (ADM): ativa, passiva, encurtamentos e dor

1) ADM ativa (A-ADM): “o que o paciente consegue usar”

A ADM ativa mostra a combinação de força, seletividade, controle e dor. É altamente funcional.

Passo a passo:

  • Passo 1: posicione para reduzir compensações (ex.: tornozelo em sentado com joelho a 90° para observar dorsiflexão sem usar quadril).
  • Passo 2: peça movimento lento até o máximo confortável.
  • Passo 3: observe início do movimento (recrutamento), trajetória (desvios), fim de arco (travamento/dor), e retorno (controle excêntrico).
  • Passo 4: compare com o lado contralateral e com a tarefa funcional (ex.: A-ADM de dorsiflexão vs clearance do pé na marcha).

2) ADM passiva (P-ADM): “o que a articulação permite”

A ADM passiva ajuda a diferenciar limitação por fraqueza/controle de limitação mecânica (encurtamento, rigidez capsular) e a identificar risco de contratura.

Passo a passo:

  • Passo 1: relaxamento e suporte do segmento; mova lentamente.
  • Passo 2: leve até o fim de arco sem provocar dor intensa.
  • Passo 3: identifique a sensação de fim de arco (mole/ elástico/ firme/ duro) e o local da resistência (músculo vs articulação).
  • Passo 4: teste em duas velocidades quando apropriado (lento e um pouco mais rápido) para observar se a resistência aumenta com velocidade, sugerindo componente neural.
  • Passo 5: registre ângulo aproximado, dor (0–10), e se há assimetria relevante.

3) Encurtamentos, risco de contraturas e como isso interfere na função

Encurtamentos e contraturas reduzem alavancas e alteram estratégias motoras. Exemplos funcionais:

  • Flexores plantares encurtados: limita dorsiflexão → piora apoio do calcanhar, aumenta risco de tropeço e favorece compensações proximais.
  • Isquiotibiais encurtados: limita extensão de joelho → dificulta ortostatismo alinhado e aumenta gasto energético em marcha.
  • Flexores de quadril encurtados: favorece anteversão pélvica e hiperlordose → reduz eficiência de extensores e pode gerar dor lombar.
  • Peitorais/rotadores internos encurtados: limita alcance e higiene/vestir, aumenta risco de dor no ombro por posicionamento inadequado.
  • Flexores de punho/dedos encurtados: dificulta abertura da mão, higiene palmar e preensão funcional.

Risco de contratura aumenta quando há: P-ADM reduzida persistente, dor em fim de arco, postura mantida em encurtamento, baixa mobilidade ativa e dificuldade de posicionamento. Priorize intervenções quando a perda de ADM ameaça uma função-chave (transferência, marcha, higiene, vestir) ou quando impede posicionamento seguro (ex.: equino rígido dificultando apoio plantar).

Diferenciando limitações por fraqueza, tônus elevado e restrição articular: testes clínicos simples

Roteiro de decisão rápida

AchadoSugereTeste simplesInterpretação prática
A-ADM reduzida, mas P-ADM preservadaFraqueza/controle/seletividadePeça movimento ativo em diferentes posições (com/sem gravidade) + isométrico curtoSe melhora em posição facilitada (ex.: decúbito), a limitação é mais de força/controle do que mecânica
P-ADM reduzida com fim de arco firme/duro, pouca variação com velocidadeRestrição articular/encurtamento estruturalMobilização passiva lenta, comparar lados, palpar tensão muscular vs “travamento” articularPriorize manejo de ADM/posicionamento; força isolada não “abre” arco rígido
Resistência passiva aumenta com velocidade, com “travamento” e liberaçãoComponente neural (hiperexcitabilidade reflexa) contribuindo para limitaçãoMovimento passivo lento vs mais rápido; observar se a resistência é dependente da velocidadeConsidere estratégias para reduzir resposta reflexa durante função e alongamentos; registre em quais ângulos ocorre
Força aparece apenas com compensação (tronco, elevação escapular, rotação de quadril)Baixa seletividade e fraqueza relativa do agonistaRepetir teste com estabilização proximal e menor amplitudeSe “some” com estabilização, o ganho funcional depende de treino seletivo e controle proximal
Limitação acompanhada de dor localizada e proteçãoDor como limitante primário ou secundárioReproduzir com P-ADM suave; testar contração isométrica submáxima sem movimentoDor em P-ADM sugere componente articular/tecidual; dor só no ativo pode ser sobrecarga/controle

Testes comparativos úteis (sem instrumentos)

  • Contra gravidade vs sem gravidade: se o movimento melhora significativamente sem gravidade, a fraqueza é relevante.
  • Isométrico em diferentes ângulos: se só consegue gerar força em parte do arco, pode haver desvantagem mecânica, dor em fim de arco ou falta de controle em posições específicas.
  • Ativo-assistido: se com leve assistência o paciente completa o arco com boa qualidade, há potencial de força/controle para treino funcional graduado.
  • Velocidade no passivo: aumento de resistência com velocidade sugere componente neural; resistência constante sugere mais rigidez/encurtamento.

Template de registro: grupos musculares-chave por função

Use um registro que conecte achados a tarefas. Abaixo, um modelo prático para prontuário (adapte para seu serviço). Sugestão de codificação: A-ADM, P-ADM, Força (contra gravidade/isométrico), Qualidade (seletivo/compensatório), Fadiga (estável/queda rápida), Dor (0–10), Impacto funcional.

DATA: ____   CONDIÇÃO/ESTADO NO DIA (sono, medicação, dor, energia): ______________________

Tronco (função: rolar, sentar, transferir, manter alinhamento)

  • Flexão/Extensão/Rotação: A-ADM ___ / P-ADM ___; controle excêntrico: ___
  • Estabilidade em sedestação: ___ (tempo, necessidade de apoio, assimetria)
  • Qualidade: compensações (inclinação, apoio excessivo de MS) ___
  • Fadiga: piora após ___ min/tarefa ___

Quadril (função: sentar-levantar, passo, controle pélvico)

  • Extensores: força ___; ponte: ___ rep/tempo; qualidade ___
  • Abdutores: força ___; controle em apoio unipodal assistido: ___
  • Flexores: A-ADM ___; compensações (inclinação tronco) ___
  • ADM: flexão ___; extensão ___; rotação ___; dor ___

Joelho (função: estabilidade no apoio, controle na transferência)

  • Extensores: contra gravidade? ___; isométrico 5s: ___; fadiga: ___
  • Flexores: controle excêntrico (sentar controlado): ___
  • ADM: extensão ___; flexão ___; fim de arco/dor: ___

Tornozelo e pé (função: apoio, clearance, propulsão)

  • Dorsiflexores: A-ADM ___; repetições 30s ___; qualidade (inversão associada?) ___
  • Flexores plantares: elevação de calcanhar: ___ rep; assimetria ___
  • ADM: dorsiflexão com joelho flexo ___ / estendido ___ (sugere gastrocnêmio vs sóleo); dor ___
  • Risco de contratura: P-ADM reduzida? ___; posicionamento em repouso: ___

Cintura escapular e ombro (função: alcance, apoio, transferências com MS)

  • Controle escapular: elevação excessiva? asa? rigidez? ___
  • Flexão/abdução de ombro: A-ADM ___; P-ADM ___; dor/arco doloroso ___
  • Rotadores externos: força ___; qualidade (compensa com tronco) ___

Mão e punho (função: preensão, soltar, manipular, higiene)

  • Extensão de punho/dedos: A-ADM ___; seletividade ___; fadiga ___
  • Preensão: tipo (pinça, palmar) ___; soltar voluntário ___
  • ADM passiva: abertura de mão/punho ___; dor palmar/articular ___
  • Impacto funcional: alimentação/vestir/higiene ___

Como priorizar achados para intervenção imediata

1) Prioridade alta (intervir no mesmo dia/semana)

  • Risco de contratura: P-ADM reduzida relevante + postura em encurtamento + baixa A-ADM (ex.: equino rígido, flexão de dedos persistente).
  • Dor que limita função: dor moderada/alta em ADM ou em tarefas essenciais (transferência, higiene, marcha).
  • Fraqueza crítica para segurança: incapacidade de manter extensão de joelho no apoio, queda do pé com tropeços frequentes, incapacidade de sustentar tronco em sedestação sem risco.
  • Fadiga neurológica marcante: queda rápida de desempenho que compromete treino e atividades; exige ajuste de dose, pausas e seleção de tarefas.

2) Prioridade moderada (planejar para curto prazo)

  • Limitações de ADM que não impedem a função imediata, mas aumentam custo energético/compensações (ex.: leve perda de extensão de quadril que reduz comprimento do passo).
  • Seletividade reduzida que gera padrões compensatórios, porém com segurança preservada.

3) Prioridade contextual (depende da meta funcional)

  • Ganho de força máxima quando a principal barreira é resistência/coordenação.
  • ADM fina (pequenas diferenças) quando a meta envolve destreza manual específica.

Checklist final de raciocínio (para fechar a avaliação do capítulo)

  • O limitante principal é: fraqueza ☐ seletividade ☐ fadiga ☐ ADM/encurtamento ☐ dor ☐ combinação ☐
  • O limitante aparece em: início do movimento ☐ meio do arco ☐ fim de arco ☐ após repetição ☐
  • Qual tarefa funcional piora primeiro: sentar-levantar ☐ marcha ☐ alcance ☐ preensão ☐ manter postura ☐
  • Intervenção imediata sugerida: proteger ADM ☐ modular carga/pausas ☐ treino seletivo ☐ fortalecimento funcional ☐ manejo de dor ☐

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a avaliação de amplitude de movimento (ADM), qual combinação de achados sugere que a limitação principal é fraqueza/controle (e não restrição mecânica), orientando foco em facilitar o movimento ativo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando a ADM ativa está reduzida, mas a passiva está preservada, a articulação permite o movimento; o limitante tende a ser força/controle/seletividade. Se o desempenho melhora sem gravidade, reforça que o problema é mais neuromuscular do que mecânico.

Próximo capitúlo

Coordenação, cerebelo e controle de movimento: testes clínicos e leitura dos resultados

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