Foco narrativo e voz: narrador, eu lírico e personagem em cada gênero literário

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Quem fala e de onde fala: foco narrativo x voz

Em qualquer gênero, duas perguntas organizam a leitura e a escrita: quem fala (a instância que enuncia) e de onde fala (o ponto de vista, o alcance do que sabe e o modo como escolhe contar). Isso afeta diretamente quatro efeitos: confiança (acredito ou desconfio?), ironia (há distância crítica?), proximidade (estou “dentro” ou “de fora”?), e ritmo (acelera, pausa, comenta, corta).

Para não misturar termos: narrador é quem conta uma história em prosa narrativa; voz do cronista é uma fala autoral que observa e comenta; eu lírico é a voz que se expressa no poema (não é “o autor” automaticamente); personagem no teatro fala e age em cena (a informação chega por fala/ação, não por um narrador explicando).

Foco narrativo (prosa narrativa): tipos e efeitos

O foco narrativo é a combinação de pessoa gramatical (1ª/3ª) e alcance de conhecimento (onisciente, limitado, observador). A mesma cena muda de sentido conforme o foco.

TipoComo funcionaEfeitos típicosMarcas linguísticas comuns
1ª pessoa (protagonista ou testemunha)“Eu” conta o que viveu/viu; conhecimento parcialAlta proximidade; possível narrador não confiável; ritmo de confissão/relato“eu”, “me”, “pra mim”; lembranças; justificativas; lacunas (“não sei”, “talvez”)
3ª pessoa oniscienteNarrador sabe mais do que as personagens (pensamentos, passado, futuro)Amplitude; ironia dramática; ritmo mais controladoVerbos de interioridade (“pensou”, “sentiu”); explicações; antecipações
3ª pessoa limitadaNarrador acompanha de perto uma personagem (sabe o que ela sabe)Proximidade sem “eu”; suspense; empatiaFoco em percepções de uma mente; restrição de informações
3ª pessoa observadora (câmera)Narrador descreve ações e falas sem entrar na menteDistância; ambiguidade; ritmo visualPredomínio de ações; poucos julgamentos; descrição externa

Voz do cronista: observação + comentário

Na crônica, a voz costuma operar em dois movimentos: olhar (seleciona um recorte) e comentar (interpreta, ironiza, aproxima o leitor). O “de onde fala” é frequentemente um lugar de convivência: rua, fila, ônibus, janela, conversa. O efeito de confiança vem menos de “provar” e mais de reconhecer o cotidiano.

  • Confiança: cresce quando a voz admite limites (“posso estar enganado”), mostra detalhes concretos e evita grandiloquência.
  • Ironia: aparece no contraste entre o que se diz e o que se sugere (subtexto), ou na comparação inesperada.
  • Proximidade: vocativos e perguntas ao leitor (“você já reparou?”), ritmo de conversa, apartes.
  • Ritmo: alternância entre cena curta e comentário; parágrafos que “respiram”.

Eu lírico: voz poética, não biografia

O eu lírico é a instância que enuncia no poema. Ele pode ser “eu”, “nós”, “você”, ou nem aparecer explicitamente. O ponto de vista poético se constrói por imagem, ritmo e associação (mais do que por explicação). A confiança aqui não é “factual”; é sensível: acreditamos porque a linguagem cria uma experiência.

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  • Confiança: vem da coerência de imagens e do tom; não depende de “aconteceu mesmo”.
  • Ironia: pode surgir por quebra de expectativa, cortes, duplo sentido, enjambement.
  • Proximidade: intensificada por 1ª pessoa, vocativos, confissão; ou reduzida por impessoalidade e abstração.
  • Ritmo: definido por versos, pausas, repetições, aliterações, cortes.

Fala de personagem no teatro: informação por ação

No teatro, “quem fala” são as personagens (e, às vezes, um coro ou narrador cênico, se houver). “De onde fala” é a situação: objetivo, conflito, relação de poder, urgência. Como não há um narrador explicando, o texto precisa mostrar por fala, silêncio, interrupção e rubricas (indicações de cena).

  • Confiança: o público julga pela coerência entre fala e ação; mentiras podem ser estratégicas.
  • Ironia: nasce do subtexto (o que a personagem quer vs. o que diz) e da discrepância entre personagens.
  • Proximidade: cresce com fala direta, interrupções, hesitações; diminui com discursos formais.
  • Ritmo: é musical e físico: entradas/saídas, réplicas curtas, pausas, sobreposição.

Como a escolha de voz muda confiança, ironia, proximidade e ritmo

Mini-cena base (mesmo conteúdo)

Use esta situação como “matéria-prima” para comparar vozes: uma pessoa encontra uma carteira no chão, perto de uma padaria, e decide o que fazer.

1) 1ª pessoa (prosa narrativa): confiança e autojustificativa

Trecho inventado: “Eu vi a carteira perto do balcão, bem onde todo mundo pisa. Peguei rápido, antes que alguém chutasse para debaixo da geladeira. Não abri. Quer dizer, abri só para achar um documento, porque ninguém devolve nada sem nome, né?”

  • Confiança: a frase “não abri… quer dizer” cria fissura: o narrador se contradiz.
  • Proximidade: alta (confissão).
  • Ritmo: acelerado por correções e apartes (“quer dizer”).

2) 3ª onisciente: ironia e controle

Trecho inventado: “Ele disse a si mesmo que era por honestidade. Ainda assim, os dedos demoraram um segundo a mais sobre o zíper, como se o metal tivesse opinião. Do lado de fora, a fila crescia, e a pressa parecia uma desculpa pronta.”

  • Ironia: o narrador expõe a autoenganação (“disse a si mesmo”).
  • Ritmo: mais cadenciado, com frases que observam e interpretam.

3) 3ª observadora: ambiguidade e “câmera”

Trecho inventado: “Ele se abaixou, pegou a carteira e olhou para os lados. Abriu, fechou, guardou no bolso. Voltou ao balcão, pediu um café e ficou parado, mexendo no bolso como quem procura troco.”

  • Confiança: não é dada; o leitor infere.
  • Ritmo: visual, por sequência de ações.

4) Voz do cronista: proximidade e comentário

Trecho inventado: “Carteira no chão é teste de caráter com prazo de validade: cinco segundos. Se você demora, já começa a negociar consigo mesmo. Eu vi um rapaz pegar uma hoje e, antes de qualquer heroísmo, veio aquele olhar de ‘e agora?’. A cidade é isso: um susto moral entre o pão francês e o troco.”

  • Proximidade: conversa com o leitor e generaliza (“a cidade é isso”).
  • Ritmo: alterna cena e reflexão.

5) Eu lírico: imagem e ritmo

Trecho inventado: “No chão, um bolso sem corpo / um segredo de couro / respirando poeira. / Minha mão: ponte ou furto? / O zíper canta baixo / e a rua finge que não vê.”

  • Ritmo: cortes em versos e imagens condensadas.
  • Confiança: sensorial, não factual.

6) Teatro: fala/ação e subtexto

PADARIA. FILA. UM RAPAZ encontra uma carteira no chão. Uma SENHORA observa. BALCONISTA atende.
RAPAZ: (pegando) Isso aqui... caiu de alguém. (rápido demais) Não é meu. SENHORA: Uhum. E vai devolver pra quem? RAPAZ: Pra... quem for. (pausa) Tem documento? SENHORA: Você que me diga. BALCONISTA: Próximo! RAPAZ: (para o balconista) Se alguém perguntar... eu tô aqui. SENHORA: (baixo) Tá aqui ou tá com ela?
  • Ironia/subtexto: a última fala expõe a tensão moral sem narrador.
  • Ritmo: réplicas curtas, pausas, interrupções.

Detecção de ponto de vista: marcas linguísticas (exercícios)

Checklist de marcas para identificar “de onde fala”

  • Modalizadores (grau de certeza): “talvez”, “provavelmente”, “acho”, “deve ser”, “com certeza”.
  • Julgamentos (avaliação moral/estética): “ridículo”, “justo”, “mesquinho”, “bonito”, “covarde”.
  • Seleção de detalhes: o que é enfatizado (objetos, gestos, cheiros, números, lembranças) revela foco e intenção.
  • Distância: generalizações (“todo mundo”, “a gente”, “ninguém”) vs. especificidade (“às 7h12”, “a unha roída”).
  • Interioridade: acesso a pensamentos/sentimentos (“pensou”, “temeu”, “sentiu”) indica narrador com acesso mental.
  • Endereçamento: falar com “você” sugere voz conversadora (crônica) ou lírica (poema), dependendo do tom.
  • Marcas de oralidade: “né”, “tipo”, “enfim”, “olha”, “vou te falar” aproximam e aceleram.

Exercício 1 — Identifique o foco/voz e justifique por marcas

Trecho A: “Se eu fosse uma pessoa melhor, teria chamado alguém na hora. Mas eu estava atrasado, e atraso é uma desculpa que a gente aprende a amar.”

Trecho B: “Ela sorriu para o atendente, mas o sorriso não chegou aos olhos. Pensou no dinheiro, pensou no nome, pensou no peso de ser vista.”

Trecho C: “Você já reparou como a honestidade, no cotidiano, não tem música de fundo? Ela acontece no barulho da fila e no medo de parecer bobo.”

Trecho D: “A carteira está no chão. Um pé passa perto. A mão pega. O zíper abre. Fecha. O bolso engole.”

O que fazer (passo a passo):

  • 1) Marque pronomes e verbos que indiquem pessoa (“eu”, “ela”, “você”).
  • 2) Circule modalizadores (“se”, “teria”, “talvez”) e julgamentos (“pessoa melhor”, “bobo”).
  • 3) Verifique se há interioridade (pensamentos explícitos) ou só ação observável.
  • 4) Diga qual efeito domina: proximidade, ironia, ambiguidade ou comentário.

Exercício 2 — Encontre 3 modalizadores e 3 julgamentos

Trecho inventado: “Provavelmente ninguém viu. Eu só queria devolver, de verdade, mas também não sou santo. Talvez fosse melhor deixar onde estava; ainda assim, peguei, porque seria irresponsável não pegar.”

  • Tarefa: liste 3 palavras/expressões que diminuem ou aumentam a certeza e 3 que avaliam moralmente a ação.

Reescritas guiadas: o mesmo conteúdo em cinco gêneros (prática)

Matéria-prima única (use sempre esta)

Fato-base: “Encontrei uma carteira no chão perto da padaria. Dentro havia dinheiro e um documento. Eu hesitei e decidi devolver.”

Passo a passo geral antes de reescrever

  • 1) Defina quem fala (narrador, cronista, eu lírico, personagem em cena).
  • 2) Defina de onde fala: sabe tudo? sabe pouco? comenta? mostra por ação?
  • 3) Escolha o efeito dominante: confiança, ironia, proximidade ou ritmo.
  • 4) Ajuste as marcas linguísticas (modalizadores, julgamentos, detalhes) para sustentar o efeito.

1) Romance (narrador com continuidade e camadas)

Objetivo da reescrita: dar sensação de percurso interno e consequências (mesmo em um episódio simples), com espaço para contexto e ambivalência.

Como fazer (passo a passo):

  • 1) Escolha 1ª pessoa ou 3ª limitada para acompanhar a hesitação por dentro.
  • 2) Acrescente um detalhe recorrente (um som, um cheiro, um objeto) que volte como motivo.
  • 3) Mostre a decisão como resultado de forças: memória, medo, desejo de aprovação, culpa.
  • 4) Inclua uma pequena consequência posterior (um encontro, uma mensagem, um pensamento que retorna).

Exemplo (trecho): “O cheiro de café queimado vinha da padaria como uma lembrança ruim. A carteira estava ali, aberta o suficiente para prometer e fechada o suficiente para negar. Eu pensei no aluguel, pensei no rosto do meu pai dizendo que ‘ninguém devolve nada’, e pensei, sobretudo, no instante em que alguém poderia me ver sendo o tipo de pessoa que eu finjo ser. Quando encontrei o nome no documento, o nome me encontrou de volta: era alguém do meu bairro. Foi isso que me empurrou. Não a virtude, mas a proximidade.”

2) Conto (recorte e impacto)

Objetivo da reescrita: concentrar em um recorte decisivo, com final que reverbera (uma virada, uma revelação, uma imagem final).

Como fazer (passo a passo):

  • 1) Comece já no momento de tensão (carteira na mão).
  • 2) Corte explicações longas; use poucos detalhes, mas precisos.
  • 3) Faça a decisão acontecer por um gatilho (uma frase ou gesto).
  • 4) Termine com uma imagem/ação que reinterpreta o que veio antes.

Exemplo (trecho): “A carteira era mais pesada do que parecia. Abri só o suficiente para ver o nome. ‘Marta’. A senhora da fila atrás de mim pigarreou como quem chama um cachorro. ‘Achou alguma coisa?’, ela perguntou. Eu fechei a carteira com força, como se o barulho fosse uma resposta. ‘Perdi uma carteira’, disse uma voz no balcão, e eu reconheci o casaco antes de reconhecer o rosto. Entreguei sem olhar dentro de novo. A senhora da fila sorriu, satisfeita, como se eu tivesse passado numa prova que ela mesma inventou.”

3) Crônica (voz comentadora e cumplicidade)

Objetivo da reescrita: transformar o fato em observação significativa, com humor leve ou ironia, e um “nós” implícito.

Como fazer (passo a passo):

  • 1) Abra com uma frase de tese cotidiana (“honestidade é...”).
  • 2) Narre a cena rapidamente, como exemplo.
  • 3) Intercale comentário (perguntas ao leitor, generalizações moderadas).
  • 4) Feche o parágrafo com uma imagem do cotidiano que amplie o sentido (sem moralizar demais).

Exemplo (trecho): “Honestidade é um esporte sem torcida: quando você faz, ninguém aplaude; quando você não faz, todo mundo vira juiz. Hoje, na padaria, vi uma carteira no chão e, por um segundo, o mundo ficou pequeno: eu, a carteira e a minha capacidade de inventar desculpas. A gente sempre acha que vai agir com grandeza, até perceber que a grandeza custa o preço exato do nosso aperto. Devolvi. Não porque sou exemplo, mas porque o documento tinha um nome, e nome é uma forma de olhar de volta.”

4) Poema (imagem e ritmo)

Objetivo da reescrita: substituir explicação por imagens, cortes e sonoridade; transformar “decidir devolver” em experiência sensorial e simbólica.

Como fazer (passo a passo):

  • 1) Escolha 2 ou 3 imagens centrais (couro, zíper, fila, mão, nome).
  • 2) Corte conectivos lógicos (“porque”, “então”) e use justaposição.
  • 3) Trabalhe repetição (uma palavra que volta) ou contraste (mão/bolso, luz/sombra).
  • 4) Faça a decisão aparecer como gesto, não como explicação (“entrego”, “abro”, “fecho”).

Exemplo (trecho): “Couro no chão / como bicho quieto. / Minha mão aprende / o peso do acaso. / Um nome: lâmina fina / abrindo o dia. / Fecho o zíper. / Abro a boca: ‘é sua?’ / E a fila respira.”

5) Teatro (fala/ação em conflito)

Objetivo da reescrita: fazer a decisão nascer do embate entre personagens, com subtexto e ação visível.

Como fazer (passo a passo):

  • 1) Defina quem está em cena (no mínimo 2 vozes que tensionem a escolha).
  • 2) Dê a cada personagem um objetivo (pegar, devolver, acusar, apressar).
  • 3) Use rubricas para ritmo (pausas, interrupções, gestos com a carteira).
  • 4) Faça a informação aparecer por fala indireta e reação (ninguém “narra” o que sente; o público deduz).
PADARIA. FIM DE TARDE. FILA. UMA CARTEIRA NO CHÃO.
CLIENTE: (pega a carteira; rápido) Caiu de alguém. BALCONISTA: Próximo! CLIENTE: (para si, baixo) Só achar o nome... SENHORA NA FILA: Vai achar o nome ou o dinheiro? CLIENTE: (fecha a carteira) Eu vou devolver. SENHORA NA FILA: Vai mesmo? CLIENTE: (alto) Alguém perdeu uma carteira? (pausa) Tem documento aqui. VOZ AO FUNDO: É minha! CLIENTE: (entrega; sem sorrir) Confere. SENHORA NA FILA: (como quem comenta o tempo) Hoje tá quente, né. 

O que muda aqui: a decisão é pressionada por olhar social (a senhora), urgência (balconista) e exposição pública (voz ao fundo). O ritmo é feito de pausas e cortes.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma narrativa em 1ª pessoa, qual escolha tende a aumentar a proximidade com o leitor e, ao mesmo tempo, abrir espaço para desconfiança na voz que conta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na 1ª pessoa, o narrador tem conhecimento parcial e fala a partir da própria experiência. Hesitações, correções e admissão de limites criam alta proximidade, mas também podem indicar contradições e tornar a voz potencialmente não confiável.

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