O que é um fluxo de trabalho de testes (QA) no Jira
Um fluxo de trabalho de testes no Jira é a sequência de status e transições que uma issue (por exemplo, um item de teste, uma história pronta para validação, ou um bug encontrado em teste) percorre até estar apta para release. A utilidade prática do fluxo é padronizar: quando o QA começa a testar, o que precisa estar pronto para isso, quem age em cada etapa e como registrar evidências, bloqueios e dependências para manter rastreabilidade.
Um bom fluxo de QA no Jira precisa ser: observável (status refletem a realidade), objetivo (critérios claros de entrada/saída), responsável (papéis definidos) e anti-gargalo (regras para evitar ciclos infinitos e filas invisíveis).
Status práticos e o papel de cada um
A seguir, um conjunto de status recomendado para um fluxo de testes. Você pode aplicar em issues de validação (ex.: “História X pronta para QA”) ou em um item de teste agregador (ex.: “Validação da feature Y”).
| Status | Objetivo | Responsável principal |
|---|---|---|
| Pronto para Teste | Indica que o item atende pré-requisitos para iniciar QA | Dev (entrega) + QA (aceita entrada) |
| Em Teste | Execução de testes e coleta de evidências | QA |
| Bloqueado | Teste impedido por dependência/ambiente/acesso/dado | QA (registra) + Dev/PO (remove impedimento) |
| Reprovado | Falha confirmada; exige correção | QA (define reprovação) + Dev (corrige) |
| Re-teste | Validação da correção e checagem de regressão mínima | QA |
| Aprovado | Critérios de aceite atendidos; pronto para seguir no fluxo de entrega | QA (aprova) + PO (pode validar aceite de negócio) |
| Pronto para Release | Item aprovado e alinhado para entrar no pacote/implantação | PO/Release Manager/DevOps (dependendo do time) |
Critérios de entrada e saída por status (definição objetiva)
Para evitar ambiguidade, defina critérios de entrada/saída como uma “Definition of Ready/Done” específica para QA. Abaixo um modelo prático que você pode adaptar.
1) Pronto para Teste
Entrada (para mover para Pronto para Teste):
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- Implementação concluída e integrada no ambiente alvo (ex.: homolog/staging).
- Build/versão informada em campo ou comentário (ex.:
Build: 1.8.3). - Critérios de aceite descritos e compreensíveis (no corpo da issue ou anexos).
- Dados de teste, credenciais e acessos disponíveis (ou instruções claras).
- Dependências mapeadas (links para issues relacionadas).
Saída (para iniciar Em Teste):
- QA confirma que os pré-requisitos estão atendidos (check rápido de sanidade).
- Ambiente está estável o suficiente para execução (sem incidentes impeditivos).
Responsabilidades: Dev garante entrega e informações técnicas; QA valida se está realmente pronto; PO esclarece dúvidas de regra de negócio quando necessário.
2) Em Teste
Entrada:
- Item em Pronto para Teste e QA com capacidade disponível.
- Plano mínimo de teste definido (mesmo que simples: cenários principais + bordas críticas).
Saída:
- Se falhar: mover para Reprovado (com evidência e passos).
- Se impedido: mover para Bloqueado (com causa e dependência).
- Se passar: mover para Aprovado (com evidências e escopo testado).
Responsabilidades: QA executa, registra evidências e abre bugs quando aplicável; Dev apoia em dúvidas técnicas; PO apoia em dúvidas de regra.
3) Bloqueado
Entrada:
- Existe impedimento externo ao QA que impossibilita continuar (ambiente fora, falta de permissão, dependência não entregue, massa de dados inexistente, instabilidade).
Saída:
- Impedimento removido e evidência registrada (ex.: comentário com confirmação, link da issue resolvida, print do acesso liberado).
- Retornar para Em Teste (se ainda no ciclo principal) ou Re-teste (se já era correção).
Responsabilidades: QA registra bloqueio com clareza; Dev/PO atuam para remover impedimento conforme natureza (técnica vs negócio/prioridade).
4) Reprovado
Entrada:
- Falha reproduzível e confirmada (não é dúvida de requisito).
- Evidência mínima anexada (print, vídeo, logs) e passos para reproduzir.
Saída:
- Dev corrige e atualiza a issue com referência da correção (PR, commit, versão) e move para Re-teste (ou devolve para Pronto para Teste, se o time preferir um único ponto de entrada).
Responsabilidades: QA define reprovação e qualidade do reporte; Dev corrige; PO decide prioridade se houver trade-off.
5) Re-teste
Entrada:
- Correção entregue e identificada (build/versão).
- Escopo do re-teste definido: “o que corrigiu” + “o que pode ter sido impactado”.
Saída:
- Se passou: Aprovado.
- Se falhou novamente: Reprovado (com atualização de evidência e observação do que mudou).
- Se impedido: Bloqueado.
Responsabilidades: QA valida correção e registra resultado; Dev dá suporte rápido para dúvidas e ajustes.
6) Aprovado
Entrada:
- Testes executados conforme escopo acordado e sem falhas abertas impeditivas.
- Evidências anexadas/registradas e rastreáveis.
Saída:
- Quando alinhado para entrega: Pronto para Release.
- Se surgir regressão antes do release: voltar para Em Teste ou Re-teste (com justificativa).
Responsabilidades: QA aprova tecnicamente; PO pode validar aceite de negócio (especialmente em funcionalidades críticas).
7) Pronto para Release
Entrada:
- Item aprovado e dependências de release resolvidas (ex.: feature flag, documentação mínima, checklist de implantação se aplicável).
Saída:
- Segue para o processo do time (deploy, janela de release, change management).
Responsabilidades: PO/Release Manager/DevOps organizam a entrega; QA apoia se houver validação pós-deploy (quando aplicável).
Como desenhar o workflow no Jira (passo a passo prático)
O objetivo aqui é transformar os status acima em um fluxo com transições claras e poucas “rotas alternativas” que geram confusão.
Passo 1: Desenhe o fluxo em forma de mapa
Antes de configurar ou formalizar, desenhe o caminho principal e as exceções:
Pronto para Teste → Em Teste → (Aprovado → Pronto para Release) ou (Reprovado → Re-teste → Aprovado) ou (Bloqueado → Em Teste/Re-teste)Regras simples ajudam: Bloqueado não é “pausa” genérica; é impedimento real. Re-teste existe para separar “testar do zero” de “validar correção”.
Passo 2: Defina transições permitidas (e proíba as que causam ruído)
Exemplo de transições recomendadas:
- Pronto para Teste → Em Teste
- Em Teste → Aprovado
- Em Teste → Reprovado
- Em Teste → Bloqueado
- Bloqueado → Em Teste (se ainda não houve reprovação)
- Reprovado → Re-teste (após correção)
- Re-teste → Aprovado / Re-teste → Reprovado / Re-teste → Bloqueado
- Aprovado → Pronto para Release
Evite transições como Reprovado → Aprovado (pula re-teste) e Bloqueado → Aprovado (não faz sentido). Se precisar de exceção, exija justificativa em comentário.
Passo 3: Amarre critérios com “checklist” operacional
Mesmo sem entrar em detalhes de configuração, você pode padronizar o uso com um checklist no corpo da issue ou comentário fixo. Exemplo para “Pronto para Teste”:
- Build/versão informada
- Ambiente e URL informados
- Credenciais/dados de teste disponíveis
- Critérios de aceite revisados
- Dependências linkadas
Isso reduz discussões e evita que QA receba itens incompletos.
Passo 4: Defina “quem move” cada status
Uma regra prática para evitar ping-pong:
- Dev move para Pronto para Teste quando entrega e preenche informações mínimas.
- QA move para Em Teste, e decide entre Aprovado/Reprovado/Bloqueado.
- Dev move de Reprovado para Re-teste quando corrigiu e informou versão.
- PO (ou responsável de release) move para Pronto para Release quando o item aprovado entra no pacote.
Se o time preferir, QA pode mover para Pronto para Release após aprovação, mas isso deve ser consistente e combinado para não gerar divergência de responsabilidade.
Como registrar bloqueios e dependências (comentários, links e campos)
1) Bloqueios: como escrever um comentário útil
Ao mover para Bloqueado, registre um comentário padronizado. Modelo:
[BLOQUEIO] Não é possível continuar o teste do cenário X. Motivo: ambiente staging instável (erro 502 ao acessar /checkout). Impacto: impede validar critérios A e B. Evidência: print/log anexado. Dependência: resolver incidente/issue ABC-123. Próximo passo: retomar Em Teste após confirmação de estabilidade.Isso evita bloqueios “mudos” e acelera a remoção do impedimento.
2) Dependências: use links para rastreabilidade
Quando um teste depende de outra entrega, crie links entre issues para que o Jira mostre a relação. Boas práticas:
- Link do tipo “blocks/is blocked by” para dependências reais (ex.: “Esta validação está bloqueada pela entrega da API”).
- Link do tipo “relates to” para contexto (ex.: documentação, tarefa de dados de teste).
- Ao citar uma issue em comentário, use a chave (ex.:
ABC-123) para criar referência clicável.
3) Campos: padronize o mínimo para não virar burocracia
Mesmo com poucos campos, dá para manter rastreabilidade de QA. Um conjunto mínimo operacional:
- Ambiente (staging/homolog/dev)
- Versão/Build
- Severidade (para bugs)
- Componente/Módulo (para roteamento)
- Resultado do teste (quando aplicável)
Quando o time não tiver campos específicos, registre no comentário com padrão consistente (ex.: Ambiente:, Build:).
Como adaptar o fluxo para Scrum e Kanban
Scrum: alinhando com Sprint e Definition of Done
No Scrum, o risco comum é “terminar desenvolvimento” perto do fim da sprint e empurrar QA para o último dia. Para reduzir isso:
- Combine que itens só entram como Pronto para Teste quando atendem critérios mínimos (ambiente, build, dados).
- Trate Aprovado como parte do “Done” do time (se essa for a regra do produto). Se não for, explicite que “Done” é dev-done e QA fica como etapa posterior — mas isso deve ser visível no board.
- Use Re-teste para não misturar correção com execução inicial, facilitando medir retrabalho dentro da sprint.
Kanban: controlando WIP e evitando filas invisíveis
No Kanban, o fluxo precisa evidenciar gargalos e limitar trabalho em andamento:
- Defina limites de WIP para Em Teste e Re-teste (ex.: QA só puxa 2 itens por vez).
- Crie uma política clara: itens em Pronto para Teste são “fila” e devem ter prioridade definida (por PO/triagem).
- Use Bloqueado como sinal de impedimento: se crescer, é alerta de problema sistêmico (ambiente, dependências, acesso).
Se o board do time não tiver coluna específica para cada status, mantenha os status no workflow e use swimlanes ou filtros por status para visualização operacional.
Como evitar gargalos e o “re-teste infinito” com regras objetivas
1) Regra de limite de ciclos de re-teste
Defina uma política simples, por exemplo:
- Após 2 ciclos de Reprovado → Re-teste → Reprovado no mesmo item, exigir: análise rápida de causa (ex.: falta de critério, bug intermitente, ambiente) e replanejamento com Dev/PO.
- Registrar no comentário: o que falhou, o que foi tentado, e qual decisão foi tomada (ajustar requisito, criar tarefa técnica, dividir escopo).
2) Regra de “pronto para teste” não negociável
Se QA aceita itens incompletos, o fluxo vira fila de bloqueios. Política recomendada:
- Se faltar informação essencial (ambiente/build/dados/critério), o item não entra em Em Teste; permanece em Pronto para Teste com comentário do que falta, ou retorna para o status anterior do time (se existir).
3) Regra de bloqueio com dono e prazo
Bloqueio sem dono vira esquecimento. Ao bloquear:
- Indique um dono (Dev/PO/time de infra) no comentário e/ou menção.
- Registre um prazo esperado (mesmo que estimado) e reavalie diariamente.
4) Regra de escopo do re-teste
Para não virar “testar tudo de novo”:
- Em cada passagem para Re-teste, Dev descreve o que mudou e onde pode impactar.
- QA registra o escopo do re-teste (cenários afetados + regressão mínima).
Exemplo completo de uso do fluxo (cenário prático)
Cenário: validação de uma melhoria no checkout
- Dev → Pronto para Teste: informa
Build 2.4.0, URL do staging, credenciais, e linka dependênciaAPI-321como “is blocked by”. - QA verifica dependência:
API-321ainda não entregue. Move para Bloqueado e comenta usando o modelo (motivo, impacto, evidência, dependência). - Quando
API-321é resolvida, QA retorna para Em Teste e executa cenários principais. - QA encontra falha no cálculo de frete: move para Reprovado e registra passos + evidência; abre bug relacionado e linka como “relates to” ou “blocks” (conforme política do time).
- Dev corrige e move para Re-teste, informando a nova versão
Build 2.4.1e descrevendo a alteração. - QA re-testa o cálculo e faz regressão mínima (carrinho, cupom, pagamento). Passa: move para Aprovado e anexa evidências.
- PO/Release move para Pronto para Release quando o item entra no pacote da próxima implantação.