Fisioterapia Esportiva por modalidades: futebol e esportes com mudanças de direção

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Demandas específicas do futebol e de esportes com mudanças de direção

Futebol, futsal, handebol, basquete, rugby e outras modalidades com mudanças rápidas de direção exigem repetidas sequências de aceleração (ganhar velocidade), desaceleração (reduzir velocidade), cortes (mudança de direção com o corpo em apoio) e, em muitos casos, contato (choques, disputas, empurrões). Essas ações aumentam a carga sobre tornozelo, joelho, quadril e cadeia posterior, principalmente quando ocorrem sob fadiga e em situações imprevisíveis (bola, adversário, espaço reduzido).

Na prática clínica, o objetivo é conectar o que o atleta faz em campo com: (1) riscos mais comuns, (2) triagem funcional específica, (3) prevenção com exercícios direcionados e (4) progressão segura para voltar a sprintar, cortar e treinar com bola.

O que acontece no corpo durante aceleração, desaceleração e cortes

  • Aceleração: maior demanda de propulsão (quadril e tornozelo), inclinação do tronco à frente, passos mais curtos e potentes. Posteriores de coxa e glúteos ajudam a “puxar” e estabilizar o membro.
  • Desaceleração: maior demanda de absorção de carga (quadríceps, panturrilha, glúteos) e controle do tronco. O atleta precisa “frear” com o centro de massa ainda em movimento, o que aumenta forças no joelho e tornozelo.
  • Cortes (mudança de direção): combinação de freio + reorientação. Exige controle de rotação do fêmur e da tíbia, estabilidade do tornozelo e capacidade de alinhar joelho sobre o pé. Cortes mais fechados (ângulos maiores) aumentam a exigência de desaceleração e controle frontal (valgo dinâmico).
  • Contato: adiciona perturbações externas. A estabilidade reativa (capacidade de recuperar o equilíbrio após empurrões/choques) vira fator decisivo, especialmente em apoios unipodais.

Riscos comuns e como eles se relacionam com as demandas

1) Entorses de tornozelo (principalmente inversão)

Frequentemente ocorrem em aterrissagens, disputas de bola, pisar no pé de outro atleta ou ao cortar com o pé “solto” (pouca rigidez do tornozelo) e com atraso de reação dos fibulares.

  • Sinais funcionais associados: instabilidade em apoio unipodal, dificuldade de manter o arco do pé, aterrissagem ruidosa e “dura”, limitação de dorsiflexão.

2) Lesões musculares (posteriores de coxa e adutores)

Posteriores são muito exigidos em sprints (principalmente na fase final do balanço) e também na desaceleração. Adutores são muito exigidos em mudanças de direção, chutes, passes longos e gestos de “abrir” a perna para interceptar.

  • Sinais funcionais associados: queda de desempenho em sprints, assimetria em saltos, dor/rigidez pós-treino, dificuldade em exercícios excêntricos.

3) Dor anterior de joelho (patelofemoral / tendão patelar)

Comum em atletas que acumulam muitas desacelerações, aterrissagens e saltos, especialmente se há controle insuficiente de valgo dinâmico, baixa tolerância do quadríceps/tendão e rigidez de tornozelo que “empurra” a carga para o joelho.

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  • Sinais funcionais associados: dor em agachamento, descida de escada, aterrissagem com joelho colapsando para dentro, aterrissagem com pouca flexão de quadril/joelho.

Triagem funcional específica (foco em campo e quadra)

A triagem abaixo não substitui avaliação completa, mas ajuda a identificar rapidamente padrões de risco e alvos de intervenção. Use sempre comparação bilateral e registre observações objetivas (qualidade do movimento, dor, confiança, assimetria).

1) Equilíbrio e estabilidade reativa

Teste prático: apoio unipodal com perturbação

  • Como fazer: atleta em apoio unipodal por 20–30 s. O terapeuta aplica toques leves e imprevisíveis no tronco/ombros (ou o atleta recebe passes leves de bola).
  • O que observar: queda do arco do pé, tremor excessivo, necessidade de “roubar” com o tronco, perda de equilíbrio, dor.
  • Interpretação clínica: instabilidade sugere necessidade de reforçar controle do tornozelo/pé, quadril e resposta reativa (importante para contato e disputas).

2) Saltos e aterrissagem (absorção de carga)

Teste prático: salto vertical com aterrissagem (bilateral) e salto unipodal (se tolerado)

  • Como fazer: 3 tentativas. Pedir para “saltar e aterrissar silencioso”, mantendo controle por 2 s.
  • O que observar: ruído alto (aterrissagem rígida), joelhos entrando (valgo), tronco caindo para frente/lado, pé rodando para fora, dor anterior de joelho.
  • Critério simples de qualidade: aterrissar com flexão de quadril e joelho, joelho alinhado ao 2º–3º dedo do pé, tronco estável.

3) Controle de valgo dinâmico (joelho “para dentro”)

Teste prático: step-down (descida controlada)

  • Como fazer: em um degrau/caixa baixa (15–20 cm). Descer o calcanhar do membro livre até tocar levemente o chão e voltar. 6–8 repetições.
  • O que observar: joelho do membro de apoio colapsa para dentro, pelve cai, pé perde arco, dor anterior de joelho.
  • Uso clínico: direciona treino de quadril (abdutores/rotadores externos), controle do pé/tornozelo e técnica de agachar/aterrissar.

4) Mobilidade de tornozelo (dorsiflexão) aplicada ao esporte

Teste prático: joelho na parede (knee-to-wall)

  • Como fazer: pé a alguns centímetros da parede, tentar encostar o joelho na parede sem levantar o calcanhar. Medir a distância do hálux à parede (ou comparar lados).
  • O que observar: diferença entre lados, compensações (pronação excessiva, rotação do pé), dor.
  • Por que importa: dorsiflexão limitada pode piorar aterrissagem, aumentar valgo e transferir carga para joelho/tendão patelar.

Prevenção direcionada: força e técnica para tolerar aceleração, freio e cortes

A prevenção aqui é organizada por “pilares” diretamente ligados às demandas do jogo. A ideia é escolher 2–4 exercícios por sessão, com progressão semanal, sem depender de grandes equipamentos.

Pilar 1: Posteriores de coxa com ênfase excêntrica (tolerância ao sprint e ao freio)

Opção A: Nordic hamstring (assistido se necessário)

  • Passo a passo: ajoelhado, tornozelos fixos (parceiro ou apoio). Manter tronco alinhado e descer lentamente o máximo possível, apoiando as mãos no final para retornar.
  • Dosagem inicial: 2–3 séries de 4–6 repetições, 2x/semana.
  • Progressão: aumentar amplitude (descer mais), depois aumentar repetições (até 8–10).

Opção B: ponte de isquiotibiais com deslize (slider) ou bola

  • Passo a passo: em ponte, estender lentamente os joelhos deslizando os calcanhares para longe e retornar controlando.
  • Dosagem: 2–3 séries de 6–10 repetições.

Pilar 2: Panturrilha e tornozelo (rigidez elástica e controle em aterrissagem)

Elevação de panturrilha unilateral (joelho estendido e joelho flexionado)

  • Passo a passo: subir em 2 s, descer em 3 s. Fazer uma variação com joelho estendido (gastrocnêmio) e outra com joelho levemente flexionado (sóleo).
  • Dosagem: 3 séries de 8–12 repetições cada variação.
  • Progressão: carga externa (mochila/halter), depois pliometria leve (saltitos no lugar) se sem dor.

Pilar 3: Quadril (controle frontal e rotação para reduzir valgo)

Opção A: agachamento unilateral assistido (TRX/apoio) com foco em alinhamento

  • Passo a passo: descer mantendo joelho alinhado ao pé, pelve nivelada e tronco estável. Usar apoio para controlar amplitude.
  • Dosagem: 3 séries de 6–10 repetições.

Opção B: caminhada lateral com elástico (band walk)

  • Passo a passo: elástico acima dos joelhos ou nos tornozelos. Passos laterais curtos, mantendo joelhos alinhados e pelve estável.
  • Dosagem: 2–3 séries de 8–12 passos para cada lado.

Pilar 4: Técnica de aterrissagem e desaceleração (aprender a “frear”)

Treino de aterrissagem: “silencioso e estável”

  • Passo a passo: (1) queda de um degrau baixo (10–20 cm) e aterrissar bilateral, (2) segurar 2 s, (3) repetir focando em joelho alinhado e flexão de quadril/joelho.
  • Dosagem: 2–3 séries de 4–6 repetições.
  • Progressão: aumentar altura, depois aterrissagem unipodal, depois adicionar tarefa (receber passe).

Treino de desaceleração: corrida curta + freio em 2–3 passos

  • Passo a passo: correr 5–10 m e frear em 2–3 passos, baixando o centro de massa e mantendo joelho alinhado. Começar em baixa velocidade.
  • Dosagem: 4–6 repetições, descanso amplo (qualidade > fadiga).
  • Progressão: aumentar velocidade, depois reduzir espaço de frenagem (frear mais rápido), depois adicionar mudança de direção.

Reintrodução progressiva: sprints, cortes e treino com bola

O retorno para modalidades com mudanças de direção deve respeitar uma lógica: linear antes do multidirecional, planejado antes do reativo, sem contato antes do contato. Abaixo está um roteiro prático em fases que pode ser adaptado ao nível do atleta e ao momento da temporada.

Pré-requisitos práticos antes de acelerar o retorno

  • Sprints submáximos sem dor durante e sem piora no dia seguinte.
  • Saltos/aterrissagens com boa qualidade (sem valgo evidente e sem aterrissagem rígida).
  • Mobilidade de tornozelo suficiente para agachar/aterrissar sem compensações grosseiras.
  • Confiança para apoiar e frear no membro previamente sintomático.

Fase 1 (linear controlada): corrida e sprints progressivos

Objetivo: recuperar tolerância a velocidade em linha reta e à desaceleração simples.

  • Sessão tipo (2–3x/semana):
    • 6–10 tiros de 10–20 m a 60–75% da velocidade máxima, descanso 60–90 s.
    • 4–6 desacelerações planejadas: correr 10 m e frear em 3–4 passos.
  • Critério para avançar: completar a sessão com técnica estável e sem aumento de sintomas nas 24 h seguintes.

Fase 2 (mudança de direção planejada): cortes com ângulos progressivos

Objetivo: introduzir cortes com previsibilidade, controlando valgo e tronco.

  • Passo a passo:
    • Começar com cortes de 30–45° em velocidade moderada (5–10 m de aproximação).
    • Progredir para 60–90° com maior desaceleração antes do corte.
    • Treinar ambos os lados (cortar para direita e esquerda).
  • Dosagem inicial: 2–3 séries de 4 repetições por lado, descanso 60–90 s.
  • Foco técnico: baixar o centro de massa antes do corte, passo de freio firme, joelho alinhado ao pé, tronco controlado.

Fase 3 (reativo): cortes com estímulo externo

Objetivo: aproximar o caos do jogo (decisão rápida), mantendo mecânica segura.

  • Exemplos:
    • Cortar conforme comando visual/sonoro (direita/esquerda).
    • Perseguir um parceiro em zigue-zague curto.
    • Receber passe e mudar direção após o domínio.
  • Dosagem: blocos curtos de 10–20 s, 4–6 repetições, descanso amplo.
  • Critério de controle: se a técnica “desmancha” (valgo, perda de equilíbrio, aterrissagem dura), reduzir velocidade/complexidade.

Fase 4 (com bola e especificidade do futebol): acelera, freia e executa gesto técnico

Objetivo: integrar corrida, cortes e bola (passe, domínio, chute) com progressão de intensidade.

  • Progressão sugerida:
    • Condução de bola em linha reta + desaceleração controlada.
    • Condução + corte planejado (cones) + passe.
    • Condução + corte reativo (comando) + finalização leve.
  • Dosagem: 10–20 min em blocos, mantendo qualidade e pausas.

Fase 5 (contato e jogo reduzido): retorno ao ambiente real

Objetivo: tolerar perturbações e disputas, com decisões rápidas.

  • Estratégia: iniciar com jogos reduzidos sem contato forte (regras adaptadas), evoluir para disputas progressivas.
  • Monitoramento clínico: observar confiança no apoio, capacidade de frear, reação a empurrões leves e recuperação pós-sessão.

Checklist rápido para o terapeuta durante o retorno

ElementoO que observarAjuste se houver falha
DesaceleraçãoFreio em poucos passos sem colapso do joelhoReduzir velocidade, aumentar distância de frenagem, reforçar técnica
CorteCentro de massa baixo, tronco estável, joelho alinhadoDiminuir ângulo do corte, tornar tarefa planejada, reforçar quadril/panturrilha
AterrissagemSilenciosa, flexão adequada, sem valgoVoltar para quedas baixas, treinar “segurar 2 s”, melhorar dorsiflexão
TornozeloEstabilidade em apoio unipodal e mobilidade suficienteTrabalho de panturrilha, equilíbrio reativo, mobilidade de dorsiflexão
PosterioresTolerância a excêntricos e sprints submáximosReduzir volume de sprint, manter excêntricos com dose menor e mais frequente

Exemplo de microciclo (2 sessões de campo + 2 de força) para fase intermediária

Objetivo: manter prevenção (excêntricos e panturrilha) enquanto progride cortes e bola.

  • Dia 1 (força + técnica): Nordic assistido 3x5; panturrilha unilateral 3x10 (joelho estendido) + 3x10 (joelho flexionado); step-down 3x8; quedas do degrau 3x5.
  • Dia 2 (campo linear): 8x15 m a 70–80%; 6 desacelerações planejadas; condução leve em linha reta 10 min.
  • Dia 3 (força + controle): ponte com deslize 3x8; caminhada lateral com elástico 3x10 passos; agachamento unilateral assistido 3x8; mobilidade tornozelo (joelho na parede) 2–3 min por lado.
  • Dia 4 (campo com cortes e bola): cortes 45–60° planejados 3x4 por lado; condução + corte + passe 15–20 min em blocos; finalizar com 4 tiros de 10 m a 75–85% se técnica estiver estável.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar a reintrodução progressiva de um atleta em esportes com mudanças de direção, qual sequência de progressão está mais alinhada a uma volta segura para sprintar, cortar e voltar ao contato?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A progressão recomendada vai do mais previsível e controlado ao mais caótico: primeiro tarefas lineares, depois multidirecionais, de planejadas para reativas, e por fim incluir contato, desde que a técnica e os sintomas permaneçam estáveis.

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