Como reconhecer as fases da mitose ao microscópio
Para identificar cada fase da mitose em lâminas coradas (por exemplo, com corantes que evidenciam DNA), foque em critérios observáveis: (1) grau de condensação dos cromossomos, (2) integridade do envelope nuclear, (3) posição dos cromossomos no eixo central da célula, (4) separação das cromátides-irmãs e (5) presença de dois núcleos em formação. Em paralelo, observe a organização do fuso mitótico (quando visível por marcação de microtúbulos) e a posição dos polos celulares.
Prófase: cromossomos ficam visíveis e o fuso começa a se organizar
O que acontece: a cromatina se condensa progressivamente até formar cromossomos bem definidos, cada um composto por duas cromátides-irmãs unidas pelo centrômero. O fuso mitótico começa a se montar a partir dos centros organizadores de microtúbulos (polos), que se afastam.
Critérios observáveis ao microscópio:
- Condensação cromossômica: aparece como “bastões”/estruturas espessas no núcleo.
- Envelope nuclear: ainda presente (núcleo delimitado).
- Alinhamento: ainda não há placa metafásica.
Dica prática de identificação: se você vê cromossomos já bem visíveis, mas ainda dentro de um núcleo com contorno relativamente nítido, a célula tende a estar em prófase.
Prometáfase: ruptura do envelope nuclear e captura dos cromossomos pelo fuso
O que acontece: o envelope nuclear se fragmenta, permitindo que microtúbulos do fuso alcancem os cromossomos. Forma-se o cinetócoro (complexo proteico no centrômero), que funciona como “ponto de engate” para microtúbulos. Os cromossomos passam a apresentar movimentos de “vai e vem” enquanto são capturados e orientados.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Critérios observáveis ao microscópio:
- Ruptura do envelope nuclear: o contorno nuclear deixa de ser contínuo; cromossomos parecem “soltos” no citoplasma.
- Condensação: cromossomos bem condensados e individualizados.
- Posicionamento: cromossomos dispersos, sem alinhamento central completo.
Passo a passo prático (como diferenciar prófase vs. prometáfase):
- Procure o contorno do núcleo: se está íntegro, favorece prófase; se está ausente/fragmentado, favorece prometáfase.
- Veja a distribuição dos cromossomos: em prometáfase, eles costumam estar mais espalhados e com orientações variadas.
Metáfase: alinhamento na placa metafásica sob tensão equilibrada
O que acontece: todos os cromossomos ficam alinhados no plano equatorial da célula (placa metafásica). Cada cromossomo está ligado a microtúbulos vindos de polos opostos (ligação biorientada), gerando tensão no centrômero/cinetócoro. Essa tensão é um sinal mecânico de que as cromátides-irmãs estão prontas para serem separadas de forma correta.
Critérios observáveis ao microscópio:
- Placa metafásica: cromossomos alinhados em uma “linha” central (em 2D) ou “disco” (em 3D).
- Envelope nuclear: ausente.
- Condensação: máxima, cromossomos muito nítidos.
Dica prática de identificação: metáfase é a fase mais “fotogênica”: cromossomos bem condensados formando uma faixa central bem definida.
Anáfase: separação das cromátides-irmãs e migração aos polos
O que acontece: as cromátides-irmãs se separam no centrômero e passam a ser consideradas cromossomos independentes. Elas migram para polos opostos por ação coordenada do fuso mitótico. A célula alonga, e os cromossomos assumem frequentemente formato em “V” (dependendo de onde o centrômero está) enquanto são puxados.
Critérios observáveis ao microscópio:
- Separação evidente: duas massas cromossômicas se afastando.
- Placa metafásica desaparece: não há mais alinhamento central.
- Movimento aos polos: cromossomos concentrando-se em direções opostas.
Passo a passo prático (o que procurar para confirmar anáfase):
- Encontre uma célula com dois “grupos” de cromossomos.
- Verifique se há um espaço central aumentando entre os grupos.
- Procure cromossomos com aspecto de “puxados” (muitas vezes em V/J), sugerindo tracionamento.
Telófase: reconstituição nuclear e início da descondensação
O que acontece: os cromossomos chegam aos polos e começam a descondensar. O envelope nuclear se reconstitui ao redor de cada conjunto cromossômico, formando dois núcleos. O fuso mitótico é desmontado. (A citocinese costuma ocorrer em paralelo, mas aqui o foco é a mitose.)
Critérios observáveis ao microscópio:
- Dois conjuntos cromossômicos em polos opostos, agora mais “difusos” pela descondensação.
- Reaparecimento do envelope nuclear: dois núcleos em formação.
- Redução da nitidez dos cromossomos: voltam a parecer cromatina.
Dica prática de identificação: se você vê dois núcleos se formando na mesma célula (ou uma célula com “dois núcleos”), com cromossomos menos compactos, é forte indicativo de telófase.
Mecânica da segregação cromossômica: como o fuso “puxa” e separa
A segregação cromossômica é o processo mecânico que garante que cada polo receba uma cópia de cada cromossomo. Ela depende da interação entre microtúbulos do fuso e cinetócoros nos centrômeros.
1) Captura e biorientação no cinetócoro
Na prometáfase, microtúbulos exploram o espaço celular e se ligam aos cinetócoros. O objetivo é que cada cromossomo fique com:
- um cinetócoro ligado a microtúbulos de um polo,
- o cinetócoro da cromátide-irmã ligado a microtúbulos do polo oposto.
Essa configuração cria tensão no centrômero, estabilizando a ligação correta e favorecendo o alinhamento na metáfase.
2) Separação no centrômero: o “ponto de liberação” das cromátides-irmãs
As cromátides-irmãs são mantidas unidas por complexos de coesão. Na transição metáfase → anáfase, ocorre a liberação dessa coesão no centrômero, permitindo que as cromátides se separem. A partir desse instante, cada cromátide passa a ser um cromossomo independente que será direcionado a um polo.
3) Movimento aos polos: tracionamento por microtúbulos
O deslocamento dos cromossomos na anáfase envolve principalmente:
- Encurtamento de microtúbulos ligados ao cinetócoro: como se o microtúbulo “recolhesse”, aproximando o cromossomo do polo.
- Tracionamento coordenado: forças no cinetócoro e no fuso contribuem para o movimento direcional.
- Separação espacial dos polos: o afastamento dos polos ajuda a aumentar a distância entre os conjuntos cromossômicos.
Como isso aparece em lâmina: a consequência visível é a migração de cromossomos para lados opostos e o aumento do espaço central durante a anáfase.
Sequência visual sugerida (fase → evento → evidência)
| Fase | Evento principal | Evidência observável ao microscópio |
|---|---|---|
| Prófase | Condensação cromossômica e início do fuso | Cromossomos começam a ficar visíveis; núcleo ainda delimitado |
| Prometáfase | Ruptura do envelope nuclear e captura por microtúbulos | Contorno nuclear ausente/fragmentado; cromossomos dispersos e bem condensados |
| Metáfase | Alinhamento na placa metafásica sob biorientação | Faixa/linha central de cromossomos altamente condensados |
| Anáfase | Separação de cromátides-irmãs no centrômero e migração aos polos | Dois grupos cromossômicos se afastando; espaço central aumentando |
| Telófase | Chegada aos polos, reconstituição nuclear e descondensação | Dois núcleos em formação; cromossomos menos nítidos (voltando a cromatina) |
Erros típicos de compreensão (e como corrigir)
1) Confundir cromossomos homólogos com cromátides-irmãs
Erro: achar que as estruturas que se separam na anáfase da mitose são cromossomos homólogos.
Correção: na mitose, quem se separa são cromátides-irmãs (duas cópias do mesmo cromossomo, unidas no centrômero). Homólogos são o par materno/paterno de um mesmo tipo de cromossomo e não são o “alvo” de separação na mitose.
2) Achar que o envelope nuclear some na prófase em qualquer célula
Erro: marcar prófase como prometáfase porque “o núcleo já não parece tão claro”.
Correção: use um critério mais robusto: em prometáfase há perda do contorno nuclear contínuo e cromossomos aparentam estar no citoplasma. Em prófase, o núcleo ainda é reconhecível, mesmo que a cromatina esteja se condensando.
3) Confundir metáfase com anáfase inicial
Erro: interpretar uma metáfase “ligeiramente desalinhada” como anáfase.
Correção: anáfase exige separação física em dois grupos que se afastam, com espaço central aumentando. Se ainda há um agrupamento central predominante, é mais provável metáfase (ou prometáfase tardia).
4) Pensar que cada cromossomo na metáfase é uma única cromátide
Erro: considerar que o cromossomo “em X” é apenas um cromossomo simples sem duplicação.
Correção: na metáfase, cada cromossomo está composto por duas cromátides-irmãs unidas no centrômero; a separação dessas cromátides é o marco da anáfase.
5) Achar que o movimento aos polos é “empurrão” aleatório
Erro: imaginar que os cromossomos se deslocam por difusão.
Correção: o movimento é direcionado por forças do fuso: ligação ao cinetócoro, tracionamento por microtúbulos e separação espacial dos polos. A evidência indireta é a migração organizada em dois grupos opostos.