Erros de Divisão Celular: não-disjunção, aneuploidias e consequências biológicas

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que pode dar errado na divisão celular

Ao formar gametas, a meiose precisa distribuir cromossomos de modo preciso: cada gameta deve receber um conjunto haploide (n). Quando ocorre um erro de segregação, o gameta pode receber cromossomos a mais ou a menos. Um dos erros mais importantes é a não-disjunção, que pode acontecer na meiose I ou na meiose II e leva a aneuploidias após a fecundação.

Definições essenciais: não-disjunção, aneuploidia e euploidia

  • Não-disjunção: falha na separação correta de cromossomos durante a divisão. Na meiose, pode envolver cromossomos homólogos (meiose I) ou cromátides-irmãs (meiose II).
  • Aneuploidia: alteração no número de cromossomos individuais, como 2n + 1 (trissomia) ou 2n − 1 (monossomia). É “um a mais” ou “um a menos” em relação ao conjunto normal.
  • Euploidia: alteração em conjuntos completos de cromossomos (por exemplo, 3n, 4n). Aqui, o número total é múltiplo inteiro do conjunto haploide.

Exemplos genéricos: uma célula humana somática normal é 2n = 46. Uma aneuploidia seria 45 ou 47. Uma euploidia seria 69 (triploide) ou 92 (tetraploide). Como ilustração opcional, algumas trissomias humanas são compatíveis com nascimento, enquanto muitas monossomias autossômicas não são.

Não-disjunção na meiose I (erro com homólogos)

O que acontece

Na meiose I, o evento crítico é separar cromossomos homólogos para polos opostos. Na não-disjunção da meiose I, os dois homólogos de um par vão para o mesmo polo. Isso “contamina” todas as células resultantes daquela divisão, porque a distribuição já saiu errada antes da meiose II.

Passo a passo prático (modelo com 1 par de cromossomos)

Para simplificar, acompanhe apenas um par de cromossomos (A e a). O restante do genoma é ignorado no modelo, mas o raciocínio é o mesmo.

  1. Antes da meiose I: existe um par de homólogos (A e a), cada um duplicado em duas cromátides.
  2. Erro na anáfase I: A e a (homólogos) migram juntos para o mesmo polo.
  3. Após meiose I: uma célula fica com A + a (dois homólogos) e a outra fica com (nenhum desse par).
  4. Meiose II ocorre “normalmente” (separando cromátides): a célula com A + a gera gametas com A e a (mas ambos são disômicos para aquele par, isto é, têm n+1 para esse cromossomo). A célula sem o par gera gametas sem esse cromossomo (n−1).

Resultado nos gametas (meiose I)

Tipo de gametaConteúdo para o cromossomo em estudoClassificação
2 gametascontêm um cromossomo (A ou a), mas vieram de célula com ambos os homólogosn + 1
2 gametasnão contêm esse cromossomon − 1

Ou seja: 100% dos gametas ficam anormais para aquele cromossomo (metade n+1, metade n−1).

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Após a fecundação

Se um gameta n+1 fecunda um gameta normal n, o zigoto fica 2n+1 (trissomia). Se um gameta n−1 fecunda um gameta normal n, o zigoto fica 2n−1 (monossomia).

Não-disjunção na meiose II (erro com cromátides-irmãs)

O que acontece

Na meiose II, o evento crítico é separar cromátides-irmãs. Na não-disjunção da meiose II, as cromátides-irmãs de um cromossomo vão juntas para o mesmo polo em uma das duas células que entraram na meiose II. A outra célula pode dividir corretamente.

Passo a passo prático (modelo com 1 par)

  1. Meiose I normal: A vai para uma célula e a vai para a outra.
  2. Erro na anáfase II em uma das células: as cromátides de A não se separam e vão juntas para um polo.
  3. Fim da meiose II: surgem quatro gametas, mas apenas dois ficam alterados.

Resultado nos gametas (meiose II)

Tipo de gametaConteúdo para o cromossomo em estudoClassificação
1 gametaduas cópias (ex.: A e A)n + 1
1 gametanenhuma cópian − 1
2 gametasuma cópia (A ou a)n (normal)

Ou seja: 50% dos gametas ficam normais para aquele cromossomo e 50% ficam anormais (25% n+1, 25% n−1).

Após a fecundação

Os zigotos possíveis ao fecundar com um gameta normal n são: 2n (se o gameta era normal), 2n+1 (se era n+1) ou 2n−1 (se era n−1).

Comparando meiose I vs meiose II: como reconhecer pelo padrão

CaracterísticaNão-disjunção na meiose INão-disjunção na meiose II
O que falha em separarhomólogoscromátides-irmãs
Proporção de gametas anormais100%50%
Tipos de gametas2 (n+1) e 2 (n−1)1 (n+1), 1 (n−1), 2 (n)
Pista práticanão aparece gameta normal para aquele cromossomoaparecem gametas normais

Problemas guiados com quadros de Punnett (números cromossômicos)

Nos exercícios abaixo, acompanhe apenas um cromossomo (um par). Use n como “quantidade normal” desse cromossomo no gameta (1 cópia). Assim, n+1 significa 2 cópias no gameta para esse cromossomo, e n−1 significa 0 cópias.

Problema 1 — Não-disjunção na meiose I e fecundação com gameta normal

Situação: um indivíduo produz gametas por não-disjunção na meiose I para um cromossomo. O outro indivíduo produz gametas normais. Quais zigotos podem surgir?

Passo 1: liste os gametas

  • Gametas do indivíduo com erro (meiose I): n+1 e n−1 (em proporções iguais).
  • Gameta do indivíduo normal: n.

Passo 2: quadro de Punnett simplificado

n (normal)
n+1(n+1)+n = 2n+1
n−1(n−1)+n = 2n−1

Leitura: metade dos zigotos tende a ser 2n+1 e metade 2n−1 (para esse cromossomo), assumindo fecundação aleatória e mesma viabilidade inicial.

Problema 2 — Não-disjunção na meiose II e fecundação com gameta normal

Situação: um indivíduo teve não-disjunção na meiose II. O outro é normal. Quais zigotos podem surgir e em que “tipos” de gametas eles se originam?

Passo 1: liste os gametas

  • Gametas do indivíduo com erro (meiose II): n, n, n+1, n−1.
  • Gameta do indivíduo normal: n.

Passo 2: quadro de Punnett (colapsando gametas iguais)

n (normal)
n (normal)2n
n+12n+1
n−12n−1

Leitura: há possibilidade de zigotos normais 2n (vindos dos gametas n) e zigotos aneuploides (2n+1 e 2n−1).

Problema 3 — Identificando se o erro foi na meiose I ou II pelo padrão de gametas

Situação: em uma análise, observou-se que, para um cromossomo, os gametas de um indivíduo foram: 2 gametas n+1 e 2 gametas n−1, sem gametas n. Em qual etapa ocorreu a não-disjunção?

Raciocínio guiado:

  • Se não existe gameta normal (n) para aquele cromossomo, o erro aconteceu antes de “metade” dos gametas poderem ser normais.
  • Isso corresponde ao padrão de não-disjunção na meiose I (100% anormais).

Por que aneuploidias causam efeitos biológicos importantes

Desequilíbrio de dose gênica

Aneuploidias alteram a dose de centenas a milhares de genes de um cromossomo inteiro. Mesmo que os genes estejam “normais” em sequência, a quantidade relativa de produtos gênicos (RNAs e proteínas) muda. Isso pode desregular redes de desenvolvimento, metabolismo e ciclo celular.

Consequências em desenvolvimento

  • Durante embriogênese: o desenvolvimento depende de gradientes e programas de expressão muito ajustados. Um cromossomo extra ou faltante pode alterar timing e intensidade de sinais, aumentando risco de interrupção do desenvolvimento.
  • Mosaicismo (conceito útil): se o erro ocorre após a fecundação em divisões iniciais, podem surgir linhagens celulares com números cromossômicos diferentes no mesmo organismo, variando gravidade conforme a proporção e os tecidos afetados.

Consequências em fertilidade

  • Subfertilidade/infertilidade: a produção de gametas com número cromossômico incorreto pode reduzir a chance de formar zigotos viáveis.
  • Perdas gestacionais precoces: muitos zigotos aneuploides não progridem, o que pode se manifestar como falhas de implantação ou perdas muito iniciais.

Consequências em viabilidade e função celular

  • Estresse celular: desequilíbrio de proteínas pode sobrecarregar controle de qualidade, dobramento e degradação proteica.
  • Instabilidade genômica: células aneuploides podem ter maior propensão a novos erros de segregação, criando um ciclo de instabilidade.

Ligação com falhas de checkpoint e de segregação

Erros como não-disjunção geralmente refletem falhas em mecanismos que deveriam garantir que cada cromossomo esteja corretamente conectado e tensionado antes da separação. Quando esses controles falham, a célula pode avançar para a separação com ligações incorretas, aumentando a chance de cromossomos “viajarem juntos” ou ficarem para trás.

Fontes comuns de erro (visão funcional)

  • Conexões incorretas entre cromossomos e microtúbulos: podem permitir que ambos os homólogos (ou ambas as cromátides) sejam puxados para o mesmo polo.
  • Coesão alterada: se a coesão entre cromátides é removida no momento errado, pode haver separação prematura ou, ao contrário, falha de separação.
  • Checkpoint permissivo: se a célula “aceita” uma configuração ainda incorreta e prossegue, o erro se concretiza na anáfase.

Na prática, pensar em não-disjunção como um problema de “liberação no momento errado” (coesão) ou “puxão no lado errado” (conexões) ajuda a conectar o fenômeno aos controles do ciclo e à mecânica de segregação.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Um indivíduo apresenta, para um cromossomo específico, quatro gametas resultantes da meiose com o seguinte padrão: 2 gametas n+1 e 2 gametas n−1, sem nenhum gameta n. Em que etapa ocorreu a não-disjunção e qual a principal pista desse diagnóstico?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na não-disjunção da meiose I, os cromossomos homólogos não se separam e o erro afeta todas as células geradas, resultando em 2 gametas n+1 e 2 gametas n−1, sem gametas normais (n). Na meiose II, haveria também gametas n.

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