Ducto torácico: origem, trajeto, relações e territórios de drenagem

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Conceito e função do ducto torácico

O ducto torácico é o principal tronco linfático do corpo. Ele coleta linfa (incluindo quilo, rico em lipídios absorvidos no intestino) de grande parte do organismo e a devolve à circulação venosa no ângulo venoso esquerdo (junção da veia jugular interna esquerda com a veia subclávia esquerda). Clinicamente, sua importância se destaca por ser uma via de retorno de grande volume linfático e por poder ser lesionado em procedimentos cervicais e torácicos, levando a quilotórax ou fístula quilosa.

Origem: cisterna do quilo e troncos aferentes

Cisterna do quilo (quando presente)

Em muitos indivíduos, o ducto torácico se inicia a partir da cisterna do quilo, uma dilatação sacular localizada geralmente em frente aos corpos vertebrais de L1–L2 (varia), próxima ao pilar direito do diafragma. Ela funciona como uma “câmara de confluência” para linfa abdominal e quilo intestinal.

Quando a cisterna do quilo não está presente

É comum haver variação: em vez de uma cisterna definida, o início ocorre por uma rede de canais linfáticos ou por confluência direta de troncos, formando o ducto torácico sem dilatação evidente.

Principais contribuições para a origem

  • Troncos lombares direito e esquerdo: drenam membros inferiores, pelve e parte da parede abdominal.
  • Tronco intestinal: traz quilo do intestino (especialmente após refeições ricas em gordura).

Ascensão pelo hiato aórtico: entrada no tórax

Após sua formação, o ducto torácico ascende e atravessa o diafragma pelo hiato aórtico (aproximadamente em T12), acompanhando estruturas que também passam por essa abertura. A partir daí, ele entra no mediastino posterior.

Passo a passo prático: como “seguir” o ducto torácico mentalmente

  1. Localize L1–L2: imagine a cisterna do quilo (se presente) anterior à coluna.
  2. Suba até T12: o ducto atravessa o diafragma pelo hiato aórtico.
  3. Continue no mediastino posterior: ele sobe próximo à coluna, com relações importantes com a aorta, veia ázigos e esôfago.
  4. Observe a mudança de lado: frequentemente cruza da direita para a esquerda em níveis torácicos médios.
  5. Chegue ao mediastino superior e raiz do pescoço: termina no ângulo venoso esquerdo.

Trajeto no mediastino posterior: relações anatômicas-chave

No mediastino posterior, o ducto torácico costuma ascender anterior aos corpos vertebrais, em um plano profundo, próximo ao eixo vertebral. O trajeto exato varia, mas as relações abaixo são as mais relevantes para anatomia aplicada e risco iatrogênico.

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Relação com a coluna vertebral

O ducto segue junto à face anterior da coluna, o que o torna vulnerável em abordagens cirúrgicas posteriores do tórax e em dissecções profundas paravertebrais.

Relação com a aorta

Em grande parte do tórax, a aorta torácica descendente está à esquerda. O ducto torácico pode estar inicialmente mais à direita e, ao ascender, aproximar-se do lado esquerdo, mantendo relação de proximidade com a aorta, especialmente após cruzar para a esquerda.

Relação com a veia ázigos

A veia ázigos ascende à direita da coluna. O ducto torácico frequentemente se encontra entre a aorta (à esquerda) e a ázigos (à direita), em um “corredor” posterior, o que é útil como referência espacial em imagens e em cirurgia.

Relação com o esôfago

O ducto torácico mantém relação íntima com o esôfago, geralmente em plano posterior ao esôfago. Em cirurgias esofágicas (por exemplo, esofagectomia), essa proximidade é um dos principais motivos de risco de lesão do ducto.

Relação com a pleura

O ducto está próximo à pleura mediastinal. Dissecções no mediastino posterior e procedimentos que mobilizam pleura podem expor ou tracionar o ducto, favorecendo ruptura e extravasamento de quilo para a cavidade pleural.

Trajeto no mediastino superior e término no ângulo venoso esquerdo

Ao atingir o mediastino superior, o ducto torácico tende a posicionar-se mais à esquerda e segue em direção à base do pescoço. Em seguida, descreve um arco para anterior e lateral, terminando no ângulo venoso esquerdo.

Ângulo venoso esquerdo: ponto de desembocadura

O término clássico é na junção da veia jugular interna esquerda com a veia subclávia esquerda. Esse local é crítico em procedimentos como cateterismo venoso central pela via subclávia/jugular esquerda e em cirurgias cervicais (por exemplo, linfadenectomias, dissecções de nível IV e região supraclavicular).

Válvulas e refluxo

O ducto torácico possui válvulas que ajudam a direcionar o fluxo para o sistema venoso e reduzir refluxo sanguíneo. Ainda assim, variações anatômicas e pressões venosas elevadas podem influenciar o enchimento e a vulnerabilidade do segmento terminal.

Pontos de risco em procedimentos: onde e por que ocorre lesão

Cirurgias torácicas (mediastino posterior)

  • Cirurgia esofágica: risco elevado pela proximidade com o esôfago; lesão pode causar quilotórax pós-operatório.
  • Dissecções paravertebrais: o ducto é profundo e próximo à coluna; pode ser seccionado inadvertidamente.
  • Manipulação de pleura mediastinal: tração/ruptura pode levar a extravasamento de quilo.

Cirurgias cervicais e supraclaviculares

  • Dissecção cervical esquerda: o arco terminal do ducto pode ser lesado ao abordar a fossa supraclavicular.
  • Procedimentos na base do pescoço: risco de fístula quilosa externa quando há abertura de planos superficiais e profundos próximos ao ângulo venoso.

Cateterismo venoso central (lado esquerdo)

O cateterismo pela veia subclávia esquerda ou jugular interna esquerda pode, raramente, lesar o ducto torácico no seu término ou em ramos terminais. Sinais de alerta incluem drenagem leitosa em drenos cervicais/torácicos ou derrame pleural quiloso após o procedimento.

Passo a passo prático: raciocínio anatômico para reduzir risco iatrogênico

  1. Antes do procedimento: considere variações (duplicação, término atípico) e planeje a abordagem com imagem quando indicado.
  2. No mediastino posterior: ao dissecar próximo ao esôfago e coluna, mantenha atenção ao plano entre aorta e ázigos, onde o ducto frequentemente percorre.
  3. No pescoço esquerdo: ao trabalhar na região supraclavicular, antecipe o arco terminal em direção ao ângulo venoso.
  4. Se houver suspeita de lesão: identifique o ponto de extravasamento e controle (ligadura/clipagem), lembrando que o ducto pode ter mais de um canal terminal.

Mapa de drenagem: territórios que drenam para o ducto torácico

O ducto torácico drena a maior parte do corpo, com exceção do quadrante superior direito, que tipicamente drena para o ducto linfático direito (ou troncos equivalentes). O mapa abaixo resume os principais territórios.

RegiãoDrenagem típicaObservação clínica
Membros inferioresDucto torácicoLinfa passa por troncos lombares; edema/linfedema pode repercutir em cadeias abdominais.
Abdome (inclui intestino)Ducto torácicoQuilo intestinal contribui para aspecto leitoso em quilotórax/fístula.
Hemitórax esquerdoDucto torácicoInclui parede torácica e parte de vísceras; variações podem alterar padrões.
Membro superior esquerdoDucto torácicoVia tronco subclávio esquerdo (ou equivalente).
Cabeça e pescoço à esquerdaDucto torácicoVia tronco jugular esquerdo (ou equivalente); relevante em dissecções cervicais.

Regiões que tipicamente NÃO drenam para o ducto torácico

  • Quadrante superior direito: lado direito da cabeça e pescoço, membro superior direito e hemitórax direito tendem a drenar para o ducto linfático direito ou diretamente para veias do ângulo venoso direito por troncos linfáticos.

Variações anatômicas frequentes (e por que importam)

  • Ausência de cisterna do quilo: início em plexo linfático; pode dificultar identificação cirúrgica e interpretação em imagem.
  • Duplicação do ducto torácico: dois canais ascendentes que podem se unir ou terminar separadamente; aumenta chance de persistência de vazamento se apenas um canal for ligado.
  • Terminação variável: embora o padrão seja o ângulo venoso esquerdo, pode haver desembocadura em veias próximas (por exemplo, segmentos da subclávia/jugular/braquiocefálica esquerdas) ou múltiplos ramos terminais.
  • Cruzamento em nível variável: a passagem do lado direito para o esquerdo pode ocorrer em diferentes níveis torácicos, alterando o “ponto esperado” em cirurgia.
  • Trajeto mais anterior ou mais lateral: pode aproximar-se mais do esôfago ou da pleura, elevando risco em abordagens específicas.

Dica prática para leitura de imagem (TC/RM)

Ao procurar o ducto torácico, use como referência o plano profundo do mediastino posterior, próximo aos corpos vertebrais, frequentemente no espaço entre aorta e ázigos, e acompanhe sua ascensão até o lado esquerdo no mediastino superior, em direção ao ângulo venoso esquerdo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar um cateterismo venoso central pela via jugular interna ou subclávia esquerda, qual estrutura venosa marca o local típico de desembocadura do ducto torácico, tornando-se um ponto anatômico crítico para evitar lesão?

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Você errou! Tente novamente.

O ducto torácico tipicamente termina no ângulo venoso esquerdo, formado pela junção da veia jugular interna esquerda com a veia subclávia esquerda, o que explica o risco de lesão em procedimentos nessa região.

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Ducto linfático direito e troncos linfáticos: drenagem do quadrante superior direito

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