Dor e lesão no esporte: educação do praticante para adesão e segurança

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Como explicar dor, adaptação e recuperação sem alarmismo

Para o iniciante, “dor” costuma significar “lesão”. Na educação em fisioterapia esportiva, o objetivo é substituir essa associação automática por uma leitura mais funcional: o que a sensação permite fazer, como ela se comporta com o movimento e como evolui nas horas e dias seguintes. Dor é uma experiência influenciada por tecidos, carga, sono, estresse, expectativas e contexto. Em vez de prometer “treinar sem dor”, a comunicação mais segura é: treinar com sinais monitoráveis e ajustar a dose para que o corpo se adapte.

Modelo neutro e baseado em funcionalidade (3 perguntas)

  • O que você consegue fazer? (função: caminhar, agachar, correr leve, subir escadas, treinar)
  • Como a sensação se comporta durante o movimento? (aquece e melhora, fica igual, piora progressivamente)
  • Como fica depois? (volta ao basal em até 24h, persiste 48–72h, piora a cada sessão)

Esse modelo evita rótulos precoces (“rompeu”, “inflamou tudo”) e direciona a tomada de decisão para tolerância à carga e recuperação.

Diferenciando sensações comuns: o que é mais provável e como orientar

A seguir, um guia prático para diferenciar padrões frequentes. Ele não substitui avaliação clínica, mas ajuda a educar o praticante e reduzir interpretações catastróficas.

Tipo de sensaçãoComo costuma aparecerComportamento típicoO que orientar (linguagem simples)
Desconforto muscular tardio (DOMS)24–48h após treino novo/mais intenso, especialmente excêntrico (ex.: agachamento, corrida em descida)Rigidez e dor difusa ao apertar/alongar; melhora com aquecimento; pico em 24–72h; tende a reduzir com repetição do estímulo“É uma resposta comum de adaptação. Vamos manter movimento leve e ajustar a próxima sessão para você recuperar bem.”
Dor tendínea (tendinopatia/irritação)Localizada, mais pontual; pode ter rigidez matinal; piora com atividades repetidas (saltos, corrida, puxadas)Pode doer no início, aquecer e melhorar; ou piorar com volume; sensível a aumentos rápidos de carga; pode ficar reativa por 24–48h“O tendão gosta de carga na dose certa. Vamos usar uma dor ‘aceitável’ e observar a resposta amanhã.”
Dor articularProfunda, dentro/ao redor da articulação; pode vir com sensação de travar, instabilidade ou estalos dolorososPiora com amplitude específica, impacto ou compressão; pode limitar função; se associada a travamento/falseio, exige cautela“Vamos respeitar a articulação: ajustar amplitude, impacto e técnica. Se houver travamento/falseio, precisamos reavaliar.”
Sinais inflamatórios/irritação agudaApós trauma, torção, pancada ou aumento abrupto de cargaCalor, vermelhidão, inchaço, dor em repouso, piora noturna; perda clara de função“Aqui o corpo está reagindo de forma mais intensa. Vamos reduzir carga, proteger a área e observar sinais de alerta.”

Sinais de alerta (encaminhar/reavaliar com prioridade)

  • Dor forte em repouso ou noturna que não alivia com mudança de posição.
  • Inchaço importante e progressivo, calor/vermelhidão marcantes, febre ou mal-estar.
  • Incapacidade de sustentar peso, deformidade, estalo seguido de perda de função.
  • Travamento articular verdadeiro, falseio recorrente, perda súbita de força.
  • Dormência persistente, formigamento progressivo, alteração de controle de esfíncteres (urgência).

Regras práticas para o iniciante: escala de dor aceitável e “teste das 24 horas”

Escala de dor durante o treino (0–10)

  • 0–2/10: geralmente aceitável. Manter e progredir com cautela.
  • 3–4/10: zona de monitoramento. Pode ser aceitável se a técnica estiver boa e a dor não estiver piorando progressivamente.
  • 5/10 ou mais: geralmente não é a melhor dose para iniciante. Modificar (reduzir carga, amplitude, impacto, volume) ou trocar o exercício.

Regra de comportamento: dor que aumenta a cada série/minuto (piora progressiva) tende a indicar dose acima do ideal naquele dia. Dor que aquece e estabiliza pode ser mais tolerável, desde que a resposta pós-treino seja boa.

O “teste das 24 horas” (passo a passo)

Use este protocolo simples para ensinar o praticante a decidir se a sessão foi adequada.

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  1. Antes do treino: registrar dor basal (0–10) e função (ex.: “consigo subir escadas sem mancar?”).
  2. Durante: manter a dor dentro da zona combinada (ex.: até 3–4/10) e observar se ela estabiliza.
  3. Logo após: checar se houve piora grande (ex.: saiu mancando, perdeu amplitude, ficou “travado”). Se sim, a dose foi alta.
  4. No dia seguinte (24h): comparar com o basal.
    • Se a dor voltou ao nível habitual e a função está igual ou melhor: dose ok.
    • Se a dor está claramente maior (ex.: +2 pontos) e/ou a função piorou: reduzir dose na próxima sessão.
    • Se piora persiste por 48–72h: reavaliar e ajustar plano.

Quando modificar a atividade (checklist rápido)

  • Dor passou da zona combinada (ex.: >4/10) e não estabiliza.
  • Alteração de padrão de movimento (mancar, compensar, “fugir” da carga).
  • Perda de desempenho abrupta (queda grande de carga/repetições por dor).
  • Resposta pós-treino ruim no teste das 24h.

Tempo de recuperação esperado (referência prática)

Ensine expectativas realistas para reduzir ansiedade e aumentar adesão. Use faixas, não promessas.

  • DOMS: 24–72h, com pico em 24–48h. Movimento leve e aquecimento costumam ajudar.
  • Irritação tendínea leve (reativa): pode acalmar em 24–72h se a carga for ajustada; pode persistir se o estímulo continuar alto.
  • Dor articular por sobrecarga: varia; se for apenas irritação, pode melhorar em dias a poucas semanas com ajuste de impacto/amplitude e fortalecimento progressivo; se houver travamento/falseio, reavaliar.
  • Após entorse/trauma: depende do grau; se houver inchaço importante e incapacidade de apoiar, orientar avaliação imediata.

Scripts de comunicação: reduzir medo, orientar expectativas e aumentar adesão

Os scripts abaixo são modelos curtos para usar em consulta, treino supervisionado ou mensagens. Ajuste o vocabulário ao perfil do praticante.

1) Explicação neutra de dor e adaptação

“Dor não é um ‘alarme de dano’ perfeito. Ela é um sinal de proteção que pode aumentar quando a carga sobe rápido, quando você dorme mal ou está estressado. O que vamos acompanhar é: quanto você consegue fazer, como a dor se comporta durante o movimento e como você fica amanhã. Assim a gente treina com segurança e melhora sua tolerância.”

2) Normalizando DOMS sem minimizar

“Essa dor muscular que aparece 1–2 dias depois é comum quando o treino é novo. Ela costuma ser difusa e melhora com aquecimento. Vamos manter movimento leve hoje e ajustar o próximo treino para você recuperar melhor.”

3) Dor tendínea: foco em dose e previsibilidade

“O tendão responde bem à carga, mas não gosta de saltos de volume. A meta é treinar com uma dor aceitável e ver se amanhã você está igual ou melhor. Se piorar por 24–48h, a gente reduz a dose e progride mais devagar.”

4) Reduzindo medo de movimento (kinesiofobia)

“Evitar totalmente o movimento costuma deixar o corpo mais sensível e menos preparado. Vamos escolher um nível que você controla, com técnica boa, e aumentar aos poucos. Você não precisa ‘aguentar no sofrimento’, mas também não precisa parar por qualquer desconforto.”

5) Alinhando expectativa de progresso (sem prometer ausência de dor)

“O objetivo não é zerar qualquer sensação, e sim aumentar sua capacidade: fazer mais com menos desconforto e recuperar mais rápido. Se a função melhora e a resposta do dia seguinte é boa, estamos no caminho certo.”

6) Quando pausar e procurar reavaliação

“Se aparecer inchaço importante, dor forte em repouso, travamento, falseio, perda de força ou você não conseguir apoiar, não é para ‘insistir’. Me avise e vamos reavaliar.”

Aplicando na prática: como conduzir uma conversa em 5 minutos

  1. Nomeie a sensação sem rótulo catastrófico: “dor localizada”, “sensibilidade”, “rigidez”, “desconforto pós-treino”.
  2. Classifique pelo padrão: DOMS vs tendão vs articulação vs sinais inflamatórios (use a tabela).
  3. Combine a zona de dor: “até 3–4/10 durante, sem piora progressiva”.
  4. Defina a regra das 24h: “amanhã você precisa estar igual ou melhor; se piorar, ajustamos”.
  5. Escolha 1 modificação pronta: reduzir amplitude, reduzir carga, reduzir impacto, reduzir volume, aumentar pausa, trocar exercício por variação equivalente.

Modificações rápidas (exemplos práticos por tipo de queixa)

Se parece DOMS

  • Manter atividade com intensidade leve a moderada e bom aquecimento.
  • Reduzir volume do mesmo padrão (menos séries/repetições) por 1–2 sessões.
  • Evitar “testar 1RM” ou excêntricos muito altos enquanto a rigidez estiver no pico.

Se parece dor tendínea

  • Reduzir picos (saltos, sprints, pliometria) e manter carga controlada.
  • Preferir exercícios com dor estável e técnica consistente; monitorar 24h.
  • Se a dor “acende” e fica reativa no dia seguinte, reduzir dose e progredir mais gradualmente.

Se parece dor articular

  • Ajustar amplitude (trabalhar em faixa tolerável) e reduzir impacto.
  • Checar se há travamento/falseio; se presente, priorizar reavaliação.
  • Evitar insistir em padrões que geram compensação evidente.

Se há sinais inflamatórios/irritação aguda

  • Reduzir carga e proteger a área; priorizar movimentos sem piora.
  • Observar evolução de inchaço, calor e função nas próximas 24–48h.
  • Se sinais de alerta, orientar avaliação médica quando indicado.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao orientar um iniciante a treinar com segurança, qual conduta está mais alinhada com a escala de dor e o “teste das 24 horas”?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A orientação é monitorar a dor durante a sessão (preferindo até 3–4/10, sem piora progressiva) e usar o teste das 24h: se no dia seguinte a dor estiver maior e/ou a função piorar, a dose deve ser reduzida e ajustada.

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