Dificuldades Comuns na Atenção Plena: inquietação, tédio, sono e autocrítica

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que essas dificuldades aparecem (e por que não significam “fracasso”)

Ao começar a praticar atenção plena, é comum encontrar obstáculos que parecem “provar” que você não leva jeito: inquietação, tédio, sono, emoções intensas e autocrítica. Na prática, esses estados são sinais de que você está percebendo com mais clareza como seu corpo e sua mente funcionam em tempo real. O objetivo aqui é aprender a ajustar a prática como quem ajusta a postura ao sentar: sem drama, com precisão.

Pense em cada dificuldade como um “tipo de clima interno”. Você não controla o clima, mas pode escolher como se posicionar: mudar a âncora, reduzir a intensidade, abrir os olhos, praticar em movimento, ou encurtar o tempo. A habilidade central é reconhecer cedo o que está acontecendo e aplicar uma intervenção simples.

Inquietação: quando o corpo pede movimento

Como reconhecer

  • Vontade de mexer pernas/mãos, coceiras e ajustes constantes.
  • Sensação de “pressa” ou de que ficar parado é insuportável.
  • Mente procurando algo para fazer (planejar, checar celular, levantar).

O que isso costuma significar

Inquietação pode ser excesso de ativação (energia alta, ansiedade, estresse), desconforto físico real (postura ruim) ou uma expectativa rígida de “ter que ficar imóvel”. Em iniciantes, é muito frequente confundir prática com imobilidade.

Soluções práticas

1) Ajuste a âncora (sem “recomeçar do zero”)

Se a respiração estiver “fina” demais para sustentar a atenção, troque para uma âncora mais concreta:

  • Do ar no nariz → para contato dos pés no chão.
  • Do peito → para mãos apoiadas (peso, temperatura, formigamento).
  • Do corpo todo → para um ponto específico (ex.: sola do pé direito).

Regra simples: quanto mais agitado, mais “pesada e tátil” pode ser a âncora.

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2) Prática em movimento (quando ficar parado piora)

Escolha um movimento repetitivo e seguro (caminhar devagar, alongar leve, lavar louça). A instrução é manter a atenção no padrão sensorial do movimento.

Passo a passo (caminhada curta de 3–5 minutos):

  1. Fique em pé e sinta os pés tocando o chão por 10–15 segundos.
  2. Dê passos lentos e note: levantar do pé, deslocar, pousar.
  3. Quando a mente sair, volte para “levantar–mover–pousar”.
  4. Se acelerar, reduza o ritmo e amplie a sensação dos pés.

3) “Movimento consciente permitido” (microajustes)

Se houver dor ou desconforto, ajuste a postura de forma deliberada: note a intenção de mexer, execute o movimento lentamente, observe as sensações antes e depois. Isso transforma “mexer por impulso” em “mexer com consciência”.

Tédio: quando a mente pede novidade

Como reconhecer

  • Sensação de monotonia: “isso é sempre a mesma coisa”.
  • Impulso de encurtar a prática ou buscar estímulo.
  • Sonolência leve misturada com desinteresse.

O que isso costuma significar

Tédio frequentemente é uma forma de evitar contato com sutilezas (sensações pequenas, emoções de fundo) ou uma expectativa de que a prática deve ser “especial”. A saída não é forçar motivação, e sim mudar a atitude para curiosidade investigativa.

Soluções práticas

1) A técnica do “detalhamento sensorial”

Em vez de “respiração”, procure microdetalhes por 60–90 segundos:

  • Temperatura do ar (mais frio na inspiração, mais morno na expiração?).
  • Textura (suave, áspera, intermitente?).
  • Ritmo (constante, irregular, com pausas?).
  • Amplitude (curta, média, longa?).

O tédio costuma diminuir quando você troca “rótulo geral” por “observação específica”.

2) Curiosidade guiada por perguntas

Use uma pergunta de cada vez, sem precisar responder com palavras:

  • “Onde isso é mais nítido no corpo?”
  • “Isso muda de lugar, intensidade ou forma?”
  • “Qual é o começo, meio e fim de uma expiração?”

3) Alternância de âncoras por blocos curtos

Se o tédio persistir, faça blocos de 1 minuto: respiração → sons → contato dos pés → respiração. A estrutura dá variedade sem virar dispersão.

Sono: quando a prática vira “soneca”

Como reconhecer

  • Cabeça caindo, bocejos, visão embaçada.
  • “Apagões” (perde trechos e volta sem saber como).
  • Sensação de peso e relaxamento excessivo.

O que isso costuma significar

Às vezes é cansaço real (dívida de sono). Outras vezes é queda de ativação por postura muito confortável, ambiente quente/escuro, ou prática em horário de baixa energia. O objetivo não é lutar contra o sono com tensão, e sim ajustar condições para ficar alerta e gentil.

Soluções práticas

1) Ajuste de postura (mais dignidade, menos colapso)

  • Coluna mais ereta (sem rigidez), queixo levemente recolhido.
  • Ombros soltos, peito aberto o suficiente para respirar bem.
  • Se estiver deitado, experimente sentar ou ficar em pé.

2) Olhos e luz

  • Pratique com olhos semiabertos, olhando para um ponto no chão.
  • Aumente a iluminação do ambiente.

3) Horário e duração

Se você sempre dorme, teste:

  • Praticar em um horário de maior energia (manhã ou após lavar o rosto).
  • Reduzir para 2–5 minutos e repetir mais vezes ao dia.

4) Âncora mais ativa

Troque para sons, sensação dos pés em pé, ou caminhada lenta. Âncoras “de movimento” tendem a sustentar alerta.

Emoções intensas: quando fica “demais”

Como reconhecer

  • Choro, aperto no peito, nó na garganta, taquicardia.
  • Impulso de interromper imediatamente ou “resolver” pensando.
  • Sensação de inundação: “não dou conta disso”.

O que isso costuma significar

Às vezes, ao reduzir distrações, emoções que estavam em segundo plano ficam mais visíveis. Atenção plena não exige que você “mergulhe” em tudo. Uma prática segura é aquela em que você consegue manter algum grau de estabilidade e escolha.

Soluções práticas (regulação primeiro, exploração depois)

1) Ancorar no corpo em áreas neutras

Se a emoção estiver muito forte, escolha uma área menos carregada:

  • Pés no chão.
  • Mãos tocando uma superfície.
  • Contato das costas na cadeira.

Fique com essa âncora por 30–60 segundos antes de decidir se volta para a emoção.

2) Abrir os olhos e orientar-se no ambiente

Olhe ao redor e nomeie mentalmente (de forma simples): “parede”, “janela”, “cadeira”. Isso ajuda a reduzir a sensação de ameaça e traz o sistema nervoso para o presente.

3) Reduzir tempo e intensidade

Passo a passo (protocolo de 90 segundos):

  1. 30s: pés no chão (sensação de pressão e apoio).
  2. 30s: notar a respiração como “subindo/descendo” (sem aprofundar).
  3. 30s: olhar ao redor e perceber 3 cores ou formas.

Depois, pare a prática formal se necessário e faça uma atividade de aterramento (água no rosto, caminhar, falar com alguém).

4) Alternar “aproximar e afastar” (titrar)

Em vez de ficar preso na emoção, faça ciclos curtos:

  • 10–20s notando a emoção no corpo (onde e como aparece).
  • 30–60s voltando para uma âncora neutra (pés/mãos/sons).

Isso treina tolerância sem sobrecarga.

Autocrítica: quando a mente transforma treino em julgamento

Como reconhecer

  • Frases internas: “sou ruim nisso”, “não consigo”, “de novo distraí”.
  • Comparação com um ideal de mente “vazia” ou “calma”.
  • Desânimo e vontade de desistir após perder o foco.

O que isso costuma significar

Autocrítica é um hábito de controle: a mente tenta garantir desempenho por meio de cobrança. Em atenção plena, isso costuma aumentar tensão e reduzir consistência. O ponto-chave é reinterpretar “perdi o foco” como uma repetição do exercício, não como erro.

Soluções práticas

1) Reinterpretação operacional: “voltar é a repetição”

Troque a narrativa:

  • De: “eu falhei porque distraí”
  • Para: “eu notei a distração; agora estou fazendo a parte principal do treino: voltar”

Se quiser, use um rótulo curto e neutro: “pensando” → “voltando”.

2) Autocompaixão em formato de frase funcional

Escolha uma frase breve (sem dramatizar) para usar quando perceber julgamento:

  • “Isso é difícil às vezes.”
  • “Posso recomeçar daqui.”
  • “Estou treinando, não performando.”

Diga mentalmente uma vez e volte à âncora. A frase é um atalho, não um debate interno.

3) Medir consistência por “retornos”, não por “tempo sem distração”

Uma forma prática de mudar o critério de sucesso é contar retornos: quantas vezes você percebeu e voltou hoje? Mais retornos = mais treino realizado.

Guia rápido de decisões: “se acontecer X, experimente Y”

Se acontecer XExperimente Y (intervenção simples)Por quanto tempo
Inquietação forte, corpo não paraMudar âncora para pés/mãos; ou caminhar lentamente2–5 min
Inquietação por desconforto/dorAjuste consciente de postura (lento e deliberado)30–60 s
Tédio/monotoniaDetalhamento sensorial (temperatura, ritmo, microvariações)60–90 s
Tédio persistenteAlternar âncoras em blocos de 1 min (respiração/sons/pés)3–6 min
Sonolência leveOlhos semiabertos + postura mais ereta1–3 min
Sonolência recorrenteMudar horário; reduzir duração; praticar em pé ou em movimento1 semana de teste
Emoção intensa (inundação)Pés no chão + orientar no ambiente (olhar e nomear objetos)60–90 s
Emoção intensa continuaReduzir tempo; alternar aproximar/afastar; encerrar e aterrar2–5 min
Autocrítica após distraçãoFrase funcional (“posso recomeçar daqui”) + voltar à âncora10–20 s
Autocrítica repetitivaContar “retornos” como métrica de treino; encurtar prática3–7 dias

Orientações de segurança emocional (respeitar limites)

Princípios de prática segura

  • Você pode pausar. Interromper uma prática quando há sobrecarga é uma habilidade de autorregulação, não falta de disciplina.
  • Regulação vem antes de exploração. Se o corpo está em alarme, priorize âncoras neutras e orientação no ambiente.
  • Menos pode ser mais. Práticas curtas e frequentes costumam ser mais seguras e sustentáveis do que sessões longas em momentos difíceis.
  • Escolha contextos adequados. Evite praticar formalmente em situações de risco (dirigindo, operando máquinas) ou quando você precisa de atenção externa total.

Sinais de que vale reduzir a intensidade

  • Aumento progressivo de ansiedade/pânico durante a prática.
  • Sensação de dissociação (irrealidade, “sumir”, desligar do corpo) ou confusão.
  • Memórias traumáticas intrusivas com forte ativação.
  • Choro ou angústia que não diminuem ao ancorar no corpo e orientar-se no ambiente.

O que fazer nesses casos

  • Abra os olhos, mova o corpo, levante-se e caminhe.
  • Volte para o ambiente: descreva 5 coisas que vê, 4 que sente ao toque, 3 que ouve.
  • Procure suporte: conversar com alguém de confiança ou buscar um profissional de saúde mental, especialmente se isso for recorrente.

Um “plano de emergência” simples (para ter à mão)

1) Abrir os olhos e olhar ao redor (10–20s) 2) Sentir os pés no chão e pressionar levemente (20–30s) 3) Respirar sem aprofundar, apenas notar subir/descer (20–30s) 4) Decidir: continuar por mais 1 minuto OU encerrar e fazer algo de aterramento

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber autocrítica após se distrair durante a prática de atenção plena, qual resposta está mais alinhada com uma abordagem útil e treinável?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na atenção plena, voltar após perceber a distração é a “repetição” do exercício. Uma resposta funcional é notar o julgamento, rotular de forma neutra (ex.: “pensando”) e retornar à âncora com gentileza.

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