Dificuldades comuns na alfabetização: trocas, omissões, inversões e segmentação

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que são “dificuldades comuns” na alfabetização (e por que elas aparecem)

Na leitura e na escrita iniciais, é frequente observar produções que fogem da ortografia convencional. Muitas delas são erros esperados do processo de aprender a relacionar sons e letras, automatizar procedimentos e lidar com regras ortográficas do português. Outras podem sinalizar necessidade de apoio mais intensivo quando persistem por muito tempo, aparecem em grande quantidade ou impedem o aluno de avançar.

Neste capítulo, o foco é mapear e interpretar dificuldades recorrentes: trocas (especialmente entre fonemas próximos), omissões, inversões, dificuldades com encontros consonantais e dígrafos, ausência de segmentação entre palavras e escrita espelhada. A ideia é olhar para o erro como pista: o que ele revela sobre o que a criança está percebendo, lembrando e automatizando?

Como diferenciar erro esperado de sinal de alerta

Critérios práticos para leitura pedagógica do erro

  • Frequência: acontece ocasionalmente ou em quase todas as tentativas?
  • Persistência: permanece por semanas/meses apesar de ensino e prática direcionados?
  • Generalização: ocorre em muitas palavras e contextos (inclusive em palavras já conhecidas)?
  • Impacto funcional: impede a compreensão do que lê/escreve ou bloqueia o avanço para tarefas um pouco mais complexas?
  • Consistência do padrão: há um padrão claro (ex.: sempre troca p/b) ou é aleatório?
  • Resposta à intervenção: melhora com apoio breve e específico ou não muda?

Regra de bolso para o professor

Erro esperado costuma ser: pontual, diminui com prática, aparece em itens novos e não impede a criança de compreender/ser compreendida na maior parte do tempo.

Sinal de alerta costuma ser: persistente, muito frequente, aparece até em palavras treinadas, vem acompanhado de baixa precisão na leitura e pouca consciência do próprio erro (não percebe a diferença mesmo com comparação explícita).

Trocas fonológicas próximas (p/b, t/d, f/v): o que indicam

O que são

São substituições entre fonemas que têm características articulatórias parecidas. Exemplos clássicos: p/b e t/d (diferem principalmente pela sonoridade), f/v (também diferem pela sonoridade). Na escrita, a criança pode registrar a letra “vizinha” porque ainda não estabilizou a discriminação auditiva e/ou a associação grafema-fonema em situações de fala rápida.

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Exemplos reais e como interpretar

Produção do alunoForma convencionalPossível interpretação
batopatoConfusão entre surdo/sonoro (p/b); pode indicar dificuldade de discriminação auditiva ou pouca automatização na escrita.
tentedenteTroca t/d; atenção para percepção do som inicial e comparação de pares mínimos.
facavacaTroca f/v; pode ocorrer mais quando a criança escreve rápido ou sem apoio visual.

Possíveis causas pedagógicas e linguísticas

  • Discriminação auditiva ainda instável: dificuldade em perceber diferenças finas (principalmente em fala rápida).
  • Memória fonológica: ao manter a palavra na mente para escrever, “perde” detalhes do som.
  • Pouca automatização: sabe a correspondência, mas não acessa com rapidez; sob pressão, escolhe a letra mais disponível.
  • Influência da fala: variações regionais e coarticulação podem “aproximar” sons na percepção infantil.

Passo a passo para intervir (curto e frequente)

  1. Selecione um par de fonemas por vez (ex.: p/b) e trabalhe por 1–2 semanas.
  2. Use pares mínimos com apoio visual: pato/bato, pote/bote, pico/bico. Peça para apontar, separar, comparar.
  3. Faça “teste de boca e garganta”: peça para colocar a mão no pescoço e sentir vibração em b, d, v (sonoros) e ausência em p, t, f (surdos).
  4. Ditado contrastivo curto (5 itens): alternar palavras do par e registrar rapidamente o padrão de erro.
  5. Reescrita com autocorreção guiada: apresente duas grafias (pato/bato) e peça que justifique qual “faz sentido” com a imagem/frase.

Omissões de letras e sílabas: quando a palavra “encurta”

O que são

Omissões acontecem quando a criança não registra um som (ou um grupo de sons) na escrita, ou quando “pula” partes na leitura. É comum em sílabas complexas, em palavras longas e em situações de baixa atenção/pressa.

Exemplos reais e interpretação

Produção do alunoForma convencionalPossível interpretação
casacaacasaOmissão de consoante medial; pode indicar dificuldade em manter a sequência sonora na memória.
pratopatopratoOmissão em encontro consonantal (r); ver seção de encontros consonantais.
elefanteefanteelefanteOmissão de sílaba inicial; pode ocorrer por baixa automatização e tentativa de simplificar.

Possíveis causas

  • Memória fonológica limitada: dificuldade em segurar a palavra inteira enquanto escreve.
  • Segmentação sonora incompleta: percebe “pedaços grandes” e não todos os fonemas.
  • Complexidade silábica: sílabas com mais de uma consoante ou com dígrafos aumentam a chance de omitir.
  • Fadiga/atenção: em atividades longas, omissões aumentam.

Passo a passo para intervir

  1. Reduza a carga: ditados curtos, palavras de 2–3 sílabas antes de palavras longas.
  2. Use “marcação de partes”: bater palmas para sílabas e depois “contar letras que faltam” comparando com um modelo.
  3. Trabalhe com moldes (caixas): uma caixa por som ou por sílaba (defina um critério e mantenha por atividade).
  4. Revisão focada: peça para reler apontando com o dedo e procurar “onde a boca falou e a mão não escreveu”.
  5. Repetição espaçada: retomar as mesmas estruturas em dias diferentes para automatizar.

Inversões: quando a ordem se embaralha

O que são

Inversões ocorrem quando a criança altera a ordem de letras/sílabas na escrita ou na leitura. Podem aparecer em sílabas com consoantes próximas, em palavras longas ou quando a criança ainda está consolidando o rastreamento visual e a sequência fonológica.

Exemplos e interpretação

Produção do alunoForma convencionalPossível interpretação
probremaproblemaTroca de ordem em grupo consonantal; pode indicar dificuldade de sequenciar sons próximos.
calorclaro (na leitura)calorAntecipação/reestruturação; pode envolver atenção visual e expectativa por palavra conhecida.
pardepadreInversão de letras internas; observar se é pontual ou recorrente.

Possíveis causas

  • Sequenciação fonológica: dificuldade em manter a ordem dos sons.
  • Rastreamento visual: perde o ponto na palavra, especialmente em letras parecidas.
  • Baixa automatização: esforço alto para decodificar leva a “chutes” baseados em partes.

Passo a passo para intervir

  1. Trabalhe com leitura apontada (dedo ou régua) em palavras-alvo.
  2. Use montagem/desmontagem: cartões com sílabas/letras para ordenar corretamente (ex.: pro-ble-ma).
  3. Contraste com duas opções: padre vs parde; pedir que leia devagar e identifique qual corresponde ao que foi dito.
  4. Repetição com variação mínima: mudar só uma letra/posição por vez para treinar atenção à ordem.

Encontros consonantais e dígrafos: pontos de alta complexidade

O que são e por que geram erros

Encontros consonantais (ex.: pr, br, tr, pl) exigem registrar e articular dois sons em sequência na mesma sílaba. Dígrafos (ex.: nh, lh, ch, rr, ss, qu, gu) envolvem duas letras representando um som (ou uma regra específica), o que aumenta a chance de simplificação.

Erros comuns e interpretação

TipoProdução do alunoConvencionalO que pode estar acontecendo
Encontro consonantalpatopratoOmissão do r por simplificação da sílaba complexa.
Encontro consonantalbarancobarrancoRedução/regularização; atenção ao rr (dígrafo) e ao padrão de som forte.
Dígrafocaveirocachorro (exemplo de alvo em atividade)Substituição por grafia mais comum; pode indicar que o dígrafo ainda não está estabilizado.
DígrafobaniobanhoTroca/omissão em nh; a criança registra o som nasal de forma incompleta.

Como planejar intervenções

  • Ensinar por famílias: agrupar palavras com o mesmo encontro/dígrafo (ex.: pr: prato, preto, praia; nh: ninho, banho, caminho).
  • Foco no ponto difícil: sublinhar/realçar apenas o dígrafo/encontro na palavra, sem poluir o restante.
  • Leitura e escrita em ciclos curtos: ler 6–8 palavras, escrever 4–6, revisar 2–3 com comparação ao modelo.

Ausência de segmentação entre palavras: “tudojunto” e “separadodemais”

O que é

Segmentação é a capacidade de separar palavras na escrita com espaços. No início, é comum a criança escrever sem espaços (hipossegmentação) ou com espaços indevidos (hipersegmentação), especialmente com palavras pequenas e frequentes (artigos, preposições, pronomes).

Exemplos reais e interpretação

Produção do alunoConvencionalPossível interpretação
euvioumacaeu vi uma macaA criança escreve por “blocos de fala”; ainda não estabilizou fronteiras de palavra.
em boraemboraSeparação indevida por percepção de duas partes sonoras; precisa de referência visual e uso em frase.
a migoamigoHipersegmentação; pode ocorrer quando tenta “garantir” que cada sílaba vire uma palavra.

Possíveis causas

  • Unidade de percepção na fala: a criança percebe a frase como um fluxo e não como palavras separadas.
  • Palavras funcionais pouco salientes: “o, a, de, do, na, em” são curtas e podem “grudar” na palavra seguinte.
  • Pouca automatização de escrita de frases: esforço para formar letras reduz atenção ao espaço.

Passo a passo para intervir

  1. Trabalhe com tiras de frase: escreva uma frase curta e recorte em palavras; peça para montar e depois copiar com espaços.
  2. Use “marcador de espaço”: ao copiar, a criança coloca um pequeno traço a lápis entre palavras e depois apaga, ou usa o dedo mindinho para marcar o espaço.
  3. Ditado de frase com contagem de palavras: antes de escrever, conte quantas palavras há na frase e faça um risquinho para cada uma.
  4. Revisão guiada: peça para circular palavras pequenas (o, a, de, em) e verificar se estão “coladas” indevidamente.

Escrita espelhada: quando aparece e como lidar

O que é

Escrita espelhada ocorre quando a criança inverte a orientação de letras/números (ex.: b/d, p/q) ou escreve da direita para a esquerda em algum trecho. Em fases iniciais, pode aparecer como parte do ajuste de lateralidade, direção da escrita e consolidação visual das letras.

Quando tende a ser esperado

  • Em momentos iniciais de aprendizagem das letras, especialmente com letras “em par” (b/d, p/q).
  • Quando a criança alterna entre copiar e escrever de memória e ainda não automatizou o traçado.

Sinais de atenção para apoio mais intensivo

  • Persistência por longo período sem redução, mesmo com treino de traçado e leitura apontada.
  • Inversões frequentes que afetam muitas letras e comprometem a legibilidade e a leitura.
  • Dificuldade marcante de direção (começar pelo lado errado) em várias atividades.

Passo a passo para intervir

  1. Fixe referências visuais: seta discreta indicando direção da escrita na folha; margem bem marcada.
  2. Treine letras em pares contrastivos: b vs d, com pistas de traçado (onde começa, para que lado “fecha”).
  3. Copiar com modelo próximo: modelo acima da linha de escrita, evitando que a criança precise alternar muito o olhar.
  4. Leitura de verificação: após escrever, pedir que leia o que escreveu; se não fizer sentido, comparar com o modelo e corrigir.

Roteiro de análise de erros para planejar intervenções

Passo a passo (use em uma amostra curta)

  1. Coleta rápida: peça uma escrita de 6–10 palavras e 1 frase curta (ou use uma produção do caderno).
  2. Classifique os erros em categorias: trocas (quais?), omissões (onde?), inversões, encontros/dígrafos, segmentação, espelhamento.
  3. Conte e marque padrões: ex.: “troca p/b em 7 de 10 palavras com p/b”; “omite r em pr/br em quase todas”.
  4. Levante hipótese principal: discriminação auditiva? memória fonológica? automatização? rastreamento visual? (Escolha 1–2, não muitas.)
  5. Defina um alvo prioritário: o erro mais frequente e com maior impacto (ex.: segmentação em frases; encontro pr).
  6. Planeje microintervenções de 10–15 minutos, 3–4 vezes por semana, com registro do antes/depois.

Exemplo de diagnóstico pedagógico e intervenção

Amostra do aluno: bato (pato), tente (dente), euvioumaca (eu vi uma maca), pato (prato).

  • Padrões: trocas surdo/sonoro (p/b, t/d), ausência de segmentação, omissão de r em encontro.
  • Hipóteses: discriminação auditiva + baixa automatização; complexidade silábica em encontros.
  • Prioridade 1 (1–2 semanas): segmentação em frases curtas (impacto alto na escrita de textos).
  • Prioridade 2 (em paralelo, 5 min): pares mínimos p/b e t/d com “mão no pescoço” + ditado contrastivo.
  • Prioridade 3 (após estabilizar): encontro pr com família de palavras e montagem de sílabas.

Quadro de referência: erro → pista → ação

Erro observadoPista provávelAção imediata (sala)
Trocas p/b, t/d, f/vDiscriminação auditiva/sonoridade; automatizaçãoPares mínimos + teste de vibração + ditado contrastivo curto
Omissões em palavras longasMemória fonológica; fadigaReduzir extensão; caixas/moldes; revisão “faltou som?”
Omissão em encontros (pr, br, tr)Sílaba complexa; simplificaçãoFamílias de palavras; montagem de sílabas; leitura lenta apontada
Erros em dígrafos (nh, lh, ch, rr, ss)Regra ortográfica ainda instávelRealce do dígrafo; lista curta; reescrita com comparação ao modelo
Sem espaços entre palavrasFronteira de palavra não consolidadaTiras recortadas; contagem de palavras; marcador de espaço
Escrita espelhada (b/d, p/q)Orientação/direção; traçado não automatizadoPistas visuais; treino contrastivo; copiar com modelo próximo

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar a escrita de um aluno, qual conjunto de critérios ajuda a decidir se um erro é esperado do processo de alfabetização ou um sinal de alerta que exige apoio mais intensivo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A decisão depende de indicadores como frequência, persistência, generalização, impacto funcional, consistência do padrão e resposta à intervenção. Erros esperados tendem a diminuir com prática; sinais de alerta persistem e atrapalham o avanço.

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