Diagnóstico de Problemas em PCs: registro de hipóteses, resultados e laudo técnico

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Por que documentar o diagnóstico (e o que precisa constar)

Documentar o diagnóstico é transformar um conjunto de observações e testes em um registro verificável. Isso reduz retrabalho, facilita comunicação com o cliente e dá base técnica para recomendações (reparo, substituição ou manutenção preventiva). Um bom registro separa claramente: o que foi relatado (pelo cliente), o que foi observado (por você), o que foi testado (como e em quais condições), o que foi encontrado (resultados e evidências) e o que será feito (próxima ação e laudo).

Na prática, pense no seu documento como um “diário de bordo” do equipamento: qualquer técnico que o leia deve conseguir entender o caminho percorrido e reproduzir os testes principais.

Estrutura recomendada do registro

1) Formulário de entrada do equipamento (check-in)

O formulário de entrada é a base do diagnóstico. Ele protege você e o cliente, evitando dúvidas sobre estado físico, acessórios entregues e escopo do serviço.

  • Identificação: nome/contato do cliente, data e hora de entrada, número da OS.
  • Equipamento: tipo (desktop/notebook), marca/modelo, número de série, patrimônio (se houver).
  • Configuração declarada: CPU, RAM, armazenamento, GPU, fonte (quando aplicável), periféricos relevantes.
  • Acessórios recebidos: fonte/carregador, cabo de energia, cabo de vídeo, adaptadores, periféricos.
  • Estado físico: avarias, lacres, sinais de queda, oxidação aparente, parafusos faltando, poeira excessiva.
  • Sintomas relatados (texto do cliente): registrar literalmente, sem interpretar.
  • Condições do problema: quando ocorre, desde quando, após o quê (queda, atualização, troca de peça, falta de energia), frequência e mensagens exibidas (se houver).
  • Dados e privacidade: se há dados importantes, autorização para testes que envolvam inicialização/backup, senha fornecida (se necessário) e consentimento.

2) Sintomas relatados vs. sintomas observados

Separe em dois blocos. Isso evita que uma hipótese seja construída em cima de uma descrição imprecisa.

  • Relatado: “Desliga sozinho jogando”, “fica lento”, “não dá vídeo”.
  • Observado: o que você viu/mediu: temperatura, comportamento em carga, mensagens, logs, ruídos, cheiros, LEDs, etc.

Exemplo de registro objetivo: Relatado: reinicia ao abrir jogos. Observado: reinício após 3–5 min de stress GPU; sem tela azul; evento de Kernel-Power no log; temperatura GPU 84–86°C; VRM com hotspot elevado (termografia/sonda).

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3) Registro de hipóteses (com prioridade e justificativa)

Hipóteses são possibilidades plausíveis, não “chutes”. Registre sempre: hipótese, motivo e o teste planejado para confirmar/refutar.

  • Hipótese: causa provável.
  • Justificativa: evidência inicial que levou à hipótese.
  • Teste de confirmação: qual teste, em quais condições, qual resultado esperado para confirmar.
  • Prioridade: alta/média/baixa (por risco, impacto e probabilidade).

Boa prática: limite a 3–6 hipóteses por rodada. Muitas hipóteses ao mesmo tempo dificultam rastrear o que realmente mudou entre um teste e outro.

4) Plano de testes e controle de variáveis

Para que o registro seja útil, cada teste precisa ter condições claras. Sempre anote:

  • Configuração do equipamento no teste: peças instaladas, perfil de memória, versão de BIOS/UEFI, drivers relevantes, modo de energia.
  • Condições ambientais: temperatura ambiente aproximada, bancada/ gabinete fechado/ aberto, ventilação.
  • Procedimento: ferramenta usada, duração, carga aplicada, passos executados.
  • Critério de aprovação/reprovação: o que define “passou” ou “falhou”.
  • Próxima ação: o que fazer dependendo do resultado.

5) Evidências anexáveis

Evidência é tudo que sustenta a conclusão. Prefira evidências que possam ser auditadas.

  • Fotos do estado físico (antes/depois), conectores, oxidação, danos.
  • Capturas de tela de mensagens, logs, SMART, eventos, resultados de testes.
  • Leituras e medições (tensão, temperatura, consumo), com data/hora.
  • Vídeos curtos do sintoma (ex.: artefatos, ruído, desligamento).

Padronize nomes de arquivos: OS1234_2026-01-25_SMART.png, OS1234_StressGPU_10min.mp4.

Passo a passo prático: como preencher e manter o “diário de diagnóstico”

Passo 1 — Abrir a OS e preencher o check-in

Antes de qualquer teste, registre entrada, acessórios e estado físico. Se houver risco de discussão (arranhões, amassados), fotografe e anexe.

Passo 2 — Registrar o sintoma relatado (sem interpretação)

Evite “traduzir” o cliente. Escreva como foi dito e, se necessário, complemente com perguntas objetivas (quando ocorre, frequência, desde quando, após o quê).

Passo 3 — Reproduzir e registrar o sintoma observado

Execute um cenário mínimo para tentar reproduzir. Se não reproduzir, registre isso explicitamente e descreva as condições do teste (isso é tão importante quanto reproduzir).

Passo 4 — Criar hipóteses e um plano de testes por prioridade

Liste hipóteses com justificativa e defina a ordem dos testes. Priorize testes que:

  • reduzem o espaço de possibilidades rapidamente;
  • têm baixo risco para o equipamento;
  • geram evidências claras (logs, medições, resultados binários).

Passo 5 — Executar testes registrando condições e resultados

Registre cada teste em uma linha (ou bloco) com campos obrigatórios. Se você alterar algo (trocar cabo, mudar perfil de memória, atualizar driver), isso vira uma nova condição de teste.

Passo 6 — Consolidar evidências e fechar a causa provável

Ao final, selecione as evidências que sustentam a causa e descarte hipóteses refutadas (registrando por que foram descartadas). Se a causa for “provável” e não “confirmada”, declare o nível de certeza e o que faltou para confirmar.

Modelos prontos (checklists e tabelas)

Modelo 1 — Formulário de entrada do equipamento (campos sugeridos)

ORDEM DE SERVIÇO (OS): ________   Data/Hora entrada: ____/____/_____  ____:____  Técnico: ____________  Cliente: __________________  Contato: __________________  E-mail: __________________  Endereço (opcional): ______________________________  Equipamento: ( ) Desktop  ( ) Notebook  ( ) All-in-one  Marca/Modelo: __________________________  Nº de série/Service tag: __________________________  Configuração declarada: CPU: __________  RAM: __________  Armazenamento: __________  GPU: __________  Fonte/Carregador: __________  Sistema (se souber): __________________________  Acessórios recebidos: ( ) cabo energia  ( ) carregador  ( ) cabo vídeo  ( ) adaptador  ( ) periféricos: __________________  Estado físico (marcar e descrever): ( ) sem avarias aparentes  ( ) riscos  ( ) trincas  ( ) amassados  ( ) parafusos faltando  ( ) sinais de oxidação  ( ) poeira excessiva  Observações do estado físico: ____________________________________________  Sintomas relatados (texto do cliente): ____________________________________  Quando ocorre / frequência / desde quando: _______________________________  Eventos anteriores (queda, falta de energia, troca de peça, atualização): _____  Dados importantes no equipamento? ( ) sim  ( ) não  Autorização para testes e inicialização: ( ) sim  ( ) não  Autorização para backup (se aplicável): ( ) sim  ( ) não  Senha fornecida (se necessário): __________________  Observações adicionais: _________________________________________________

Modelo 2 — Checklist de diagnóstico (controle do que foi verificado)

Use como lista de controle para não esquecer etapas e para mostrar ao cliente o que foi feito (sem expor detalhes sensíveis).

CHECKLIST DE DIAGNÓSTICO (OS ________)  Identificação e check-in: ( ) OK  Fotos do estado físico: ( ) anexadas  Acessórios conferidos: ( ) sim  Sintoma relatado registrado: ( ) sim  Sintoma observado reproduzido: ( ) sim  ( ) não (condições anotadas)  Configuração do teste registrada: ( ) sim  Versões registradas (BIOS/UEFI, drivers relevantes): ( ) sim  Logs/capturas anexados: ( ) sim  Medições anexadas (tensões/temperaturas): ( ) sim  Hipóteses listadas e priorizadas: ( ) sim  Testes executados com registro completo: ( ) sim  Evidências vinculadas à hipótese final: ( ) sim  Recomendações e justificativa: ( ) sim  Aprovação do cliente para ação (reparo/substituição): ( ) pendente  ( ) aprovada  ( ) recusada

Modelo 3 — Tabela de testes (campos obrigatórios)

Esta tabela é o coração do registro. Preencha uma linha por teste/variação.

IDData/HoraHipóteseCondiçõesConfiguraçãoProcedimentoResultadoEvidênciaPróxima ação
T01____/____ ____:____H1Ambiente __°C; gabinete aberto/fechado; tomada/filtroBIOS v__; XMP/EXPO __; RAM __GB; GPU __; driver __Teste __ por __ min; passos: __Passou/Falhou; detalhes objetivosFoto/Log/Print: arquivo __Repetir com variação __ / avançar para T02
T02____/____ ____:____H2..................

Modelo 4 — Registro de hipóteses (quadro rápido)

HipótesePrioridadeJustificativa (evidência inicial)Teste de confirmaçãoStatus
H1: __________________Alta/Média/Baixa____________________________________( ) aberta ( ) confirmada ( ) refutada
H2: __________________Alta/Média/Baixa____________________________________( ) aberta ( ) confirmada ( ) refutada

Como escrever um laudo técnico claro (estrutura e linguagem)

Princípios de redação

  • Clareza e objetividade: frases curtas, termos técnicos apenas quando necessários.
  • Separar fato de interpretação: “foi observado” vs “indica”.
  • Basear recomendações em evidências: cite o teste e o resultado que sustentam a recomendação.
  • Evitar absolutos sem confirmação: se não foi possível confirmar 100%, use “forte indício”, “causa provável”, e explique o porquê.
  • Ser específico no que será feito: “substituir SSD” é diferente de “verificar armazenamento”.

Estrutura sugerida do laudo

  • Identificação: OS, equipamento, data, técnico.
  • Queixa do cliente (relatada): texto curto.
  • Constatação (observada): o que foi reproduzido/medido.
  • Testes realizados (resumo): lista curta com IDs (T01, T02...).
  • Resultados e evidências: principais achados com anexos.
  • Diagnóstico: causa confirmada ou provável, com justificativa.
  • Recomendações: reparo/substituição/manutenção preventiva, com opções quando fizer sentido.
  • Riscos e observações: limitações do teste, intermitência, necessidade de validação após reparo.

Modelo de laudo (texto editável)

LAUDO TÉCNICO – OS ________  Data: ____/____/_____   Técnico: __________________  Equipamento: __________________________  Nº de série: __________________________  Queixa (relatada pelo cliente): __________________________________________  Constatação (observada em bancada): _____________________________________  Testes realizados (IDs): T01, T02, T03 (ver tabela de testes e anexos)  Principais resultados e evidências: - [T01] __________________________________ (Evidência: ____________) - [T02] __________________________________ (Evidência: ____________) - [T03] __________________________________ (Evidência: ____________)  Diagnóstico: ( ) Confirmado  ( ) Provável  Descrição: ______________________________________________________________  Justificativa baseada em evidências: ______________________________________  Recomendações: 1) Reparo: ____________________________________________________________    Motivo: ___________________________________________________________ 2) Substituição (se aplicável): ___________________________________________    Motivo: ___________________________________________________________ 3) Manutenção preventiva (se aplicável): ___________________________________    Motivo: ___________________________________________________________  Observações/limitações: _________________________________________________  Próximos passos (dependem de aprovação): ________________________________

Como transformar evidências em recomendações (reparo, substituição, preventiva)

Reparo

Recomende reparo quando a evidência aponta para um componente/condição corrigível e o custo/risco compensa. No laudo, descreva o que será reparado e como será validado após o serviço.

  • Exemplo de redação: Recomenda-se reparo do sistema de refrigeração (substituição de pasta térmica e ajuste de fixação), pois em T02 foi observado throttling e temperatura sustentada acima do esperado sob carga, normalizando após intervenção de teste. Validar com repetição do teste por 20 min e registro de temperaturas.

Substituição

Recomende substituição quando a evidência indica falha do componente, degradação ou risco de recorrência. Inclua alternativa (peça equivalente) e impacto.

  • Exemplo de redação: Recomenda-se substituição do armazenamento, pois o teste T03 apresentou falhas consistentes e os indicadores de integridade apontam degradação. Evidências anexas: relatório e captura do teste. Após substituição, reinstalar sistema e validar com novo relatório.

Manutenção preventiva

Preventiva deve ser justificável: você recomenda porque há sinais objetivos de que a falta dela aumenta risco de falha (poeira excessiva, temperaturas elevadas, ventoinha instável, cabos danificados, etc.).

  • Exemplo de redação: Recomenda-se limpeza preventiva e organização interna, pois foi observado acúmulo de poeira e fluxo de ar comprometido (fotos anexas). Isso reduz margem térmica e aumenta chance de instabilidade sob carga.

Exemplo completo (mini-caso) de registro bem feito

Entrada

OS 2481 – Entrada 25/01/2026 10:12. Relatado: “PC reinicia quando abro jogo”. Acessórios: cabo de energia e HDMI. Estado físico: poeira moderada, sem avarias externas.

Sintoma observado

Observado: reinício sem tela azul após 4–6 min de carga gráfica. Log do sistema registra evento de perda inesperada de energia. Temperaturas: GPU 85°C sustentado; CPU 78°C. Gabinete fechado, ambiente 27°C.

Hipóteses

  • H1 (alta): instabilidade sob carga por alimentação/energia → confirmar com teste de carga controlada e monitoramento.
  • H2 (média): superaquecimento/limite térmico → confirmar com repetição em gabinete aberto e monitoramento.
  • H3 (baixa): driver/software → confirmar se persistir após estabilizar condições físicas.

Trecho da tabela de testes (resumo)

IDData/HoraCondições/ConfiguraçãoProcedimentoResultadoEvidênciaPróxima ação
T0125/01 10:40Gabinete fechado; perfil memória padrão; driver atualCarga gráfica 10 minFalhou: reinício em 5 minVídeo OS2481_T01.mp4; log eventos OS2481_T01.pngExecutar T02 com gabinete aberto
T0225/01 11:10Gabinete aberto; mesma configuraçãoMesma carga 15 minPassou: sem reinício; GPU 79–81°CPrint monitoramento OS2481_T02.pngInspecionar fluxo de ar e ventoinhas; propor preventiva

Como isso vira laudo

Diagnóstico provável: instabilidade causada por temperatura elevada sob carga (evidência: falha em T01 com GPU 85°C e estabilidade em T02 com redução de temperatura). Recomendações: manutenção preventiva do sistema de refrigeração e melhoria de fluxo de ar; repetir teste pós-serviço para validação e anexar novo registro.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao registrar um diagnóstico de PC, qual prática torna o registro mais verificável e útil para outro técnico reproduzir os testes?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um registro verificável descreve claramente relato, observação e testes, com condições, procedimento e critérios de sucesso/falha. Anexar evidências (logs, prints, medições, fotos) permite auditoria e ajuda outro técnico a reproduzir o caminho do diagnóstico.

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