DHCP na prática: alocação automática, reservas, opções e integração com DNS

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que é DHCP e por que ele importa na administração de servidores

DHCP (Dynamic Host Configuration Protocol) é o serviço que entrega automaticamente configurações de rede para clientes (estações, notebooks, impressoras, dispositivos IoT, VMs). Em vez de configurar IP manualmente em cada dispositivo, o cliente solicita parâmetros ao servidor DHCP e recebe um conjunto coerente: endereço IP, máscara/prefixo, gateway, DNS e outras opções. Para quem administra servidores, o DHCP é crítico por dois motivos: (1) reduz erros e tempo operacional na borda (usuários/IoT) e (2) precisa ser previsível para não causar indisponibilidade, especialmente quando há servidores que exigem IP fixo ou integrações com DNS.

DORA: o fluxo real de alocação automática

O processo clássico de obtenção de configuração via DHCP é conhecido como DORA:

  • Discover: o cliente, sem IP, envia um broadcast procurando servidores DHCP.
  • Offer: um servidor DHCP responde oferecendo um IP disponível e parâmetros (tempo de lease, opções etc.).
  • Request: o cliente escolhe uma oferta (normalmente a primeira que chega) e solicita formalmente aquele IP ao servidor.
  • Ack: o servidor confirma (ACK) e o cliente aplica a configuração.

Detalhe operacional importante: como o cliente ainda não tem IP no início, o tráfego é broadcast na rede local. Em redes segmentadas por VLAN/sub-rede, isso exige DHCP Relay (um roteador/switch L3 encaminhando as mensagens para o servidor DHCP em outra rede), mantendo a separação de redes sem perder a automação.

Renovação de lease (T1/T2) na prática

Depois de receber um IP, o cliente não “fica dono” dele para sempre: ele recebe um lease (concessão) com tempo definido. Em geral, o cliente tenta renovar em dois marcos:

  • T1: tenta renovar diretamente com o servidor que concedeu o lease (unicast).
  • T2: se falhar, tenta renovar com qualquer servidor DHCP disponível (pode virar broadcast).

Isso afeta manutenção e janelas de mudança: se você alterar opções DHCP (por exemplo, DNS), os clientes só verão a mudança ao renovar o lease (ou se você forçar um renew/release no cliente).

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Escopos (scopes), pools e o que realmente é entregue

Um escopo é o conjunto de regras para uma rede específica: qual faixa de IP pode ser distribuída, quais opções serão entregues e quais exclusões/reservas existem. Em ambientes com várias VLANs, normalmente há um escopo por VLAN/sub-rede.

Componentes típicos de um escopo

  • Pool (faixa dinâmica): intervalo de IPs que podem ser entregues automaticamente.
  • Exclusões: IPs que nunca devem ser entregues (por exemplo, faixa usada para equipamentos com IP fixo).
  • Lease time: duração do lease (curto para Wi-Fi convidado, mais longo para desktops, por exemplo).
  • Reservas: IP fixo “via DHCP” amarrado a um identificador do cliente (geralmente MAC).
  • Opções: parâmetros como gateway, DNS, domínio, NTP e outros.

Planejando leases: estabilidade vs. agilidade

Escolher o tempo de lease é um equilíbrio:

  • Leases longos (dias): menos tráfego DHCP e mais estabilidade para dispositivos que ficam sempre conectados; mudanças de opções demoram mais para propagar.
  • Leases curtos (horas): bom para redes com alta rotatividade (visitantes, BYOD), facilita reaproveitar IPs; aumenta tráfego DHCP e pode expor mais problemas se o DHCP ficar indisponível.

Boa prática: diferenciar por escopo (ex.: IoT pode ter lease mais longo se os dispositivos são estáveis; guest Wi‑Fi mais curto).

Reservas por MAC: IP previsível sem configuração manual

Reserva é quando o servidor DHCP entrega sempre o mesmo IP para um dispositivo específico, identificado normalmente pelo MAC address (ou por Client Identifier, dependendo do cliente). Isso é útil quando você quer previsibilidade (monitoramento, regras de firewall, mapeamento de inventário) sem ir ao dispositivo configurar IP manualmente.

Quando usar reserva vs. IP estático no dispositivo

  • Reserva DHCP: ideal para impressoras, câmeras, terminais, alguns appliances e até servidores pequenos quando você quer centralizar a gestão do endereço. Vantagem: você muda gateway/DNS/NTP de forma centralizada.
  • IP estático no dispositivo: recomendado para servidores críticos e infraestrutura (controladores, roteadores, switches gerenciáveis, storage, hypervisors), principalmente quando a disponibilidade do DHCP não pode ser um pré-requisito para o servidor “subir” com rede.

Observação prática: para servidores, uma abordagem comum é IP estático para o endereço principal e, quando necessário, DHCP apenas para interfaces secundárias ou redes de gerenciamento específicas (dependendo do padrão da empresa).

Passo a passo prático: criando uma reserva (visão genérica)

  1. Coletar o identificador: pegue o MAC da interface correta (atenção a Wi‑Fi vs. Ethernet, e a VMs com múltiplas NICs).
  2. Escolher um IP fora do pool dinâmico: mantenha uma faixa “reservada” (ex.: .10–.99) e um pool dinâmico (ex.: .100–.199). Assim você evita colisões e melhora a leitura da rede.
  3. Criar a reserva no escopo correto: associe MAC → IP e, se suportado, defina opções específicas do dispositivo (por exemplo, DNS diferente para um appliance).
  4. Documentar: registre motivo, dono do ativo, local, VLAN/escopo, data e referência de inventário.
  5. Forçar o cliente a renovar: reinicie a interface ou execute um renew para ele pegar o IP reservado.

Opções DHCP essenciais (e por que elas quebram coisas quando erradas)

Além do IP, o DHCP entrega opções. Algumas são tão importantes que um erro nelas “parece” problema de rede, mas é apenas configuração incorreta.

Gateway padrão (Default Gateway / Router)

Define para onde o cliente envia tráfego fora da rede local. Se estiver errado, o cliente acessa apenas recursos da mesma sub-rede e “a internet cai”. Em ambientes com múltiplas VLANs, cada escopo deve apontar para o gateway daquela VLAN.

DNS (servidores DNS)

Define quais resolvedores o cliente usa. Se estiver errado, o IP pode funcionar, mas nomes não resolvem (sintoma clássico: “ping no IP funciona, no nome não”). Para redes corporativas, normalmente você aponta para DNS internos (que encaminham para externos quando necessário).

Domínio de pesquisa (Domain Search / DNS Suffix)

Ajuda o cliente a resolver nomes curtos. Exemplo: se o sufixo for corp.exemplo, ao acessar intranet o cliente tenta intranet.corp.exemplo. Um sufixo errado gera confusão e tentativas de resolução desnecessárias.

NTP (Network Time Protocol)

Hora correta é requisito para autenticação, logs e correlação de eventos. Muitos dispositivos (especialmente IoT) dependem de NTP via DHCP. Se o NTP estiver errado ou inacessível, você verá sintomas como falhas de autenticação, certificados “inválidos” e logs com timestamps incoerentes.

Opções por escopo vs. por reserva

Boa prática: manter opções padrão no escopo (gateway, DNS, domínio, NTP) e usar opções específicas por reserva apenas quando necessário (por exemplo, um IoT que precisa de DNS diferente ou um servidor de tempo local específico).

Integração DHCP + DNS: nomes coerentes para IPs dinâmicos

Em redes onde clientes recebem IP dinâmico, a integração com DNS evita que você dependa de “descobrir o IP” para acessar máquinas. A ideia é que, ao conceder um lease, o DHCP (ou o próprio cliente) atualize registros DNS automaticamente.

O que costuma ser atualizado

  • Registro A/AAAA: nome → IP do cliente.
  • Registro PTR: IP → nome (reverse DNS), útil para logs, auditoria e alguns serviços.

Cuidados práticos

  • Segurança de atualização: atualizações dinâmicas devem ser controladas (para evitar que um cliente malicioso registre nomes indevidos).
  • Higiene de registros: quando leases expiram, registros antigos podem ficar “órfãos” se não houver política de limpeza/aging/scavenging.
  • Consistência de nomes: padronize hostname (por exemplo, prefixos por tipo: pc-, iot-, cam-) para facilitar inventário e troubleshooting.

Conflitos de IP: como acontecem e como diagnosticar

Conflito de IP ocorre quando dois dispositivos usam o mesmo endereço. Sintomas comuns: perda intermitente de conectividade, ARP “flapping”, sessões caindo, e mensagens do sistema operacional indicando duplicidade.

Causas frequentes

  • IP estático dentro do pool dinâmico: alguém configurou manualmente um IP que o DHCP também pode entregar.
  • Reserva mal planejada: reserva apontando para IP que já está em uso por outro dispositivo.
  • Dispositivo “teimoso”: cliente que mantém IP antigo após mudança de rede/VLAN.
  • Dois servidores DHCP no mesmo domínio de broadcast: cada um entregando endereços sem coordenação.

Passo a passo prático: triagem de conflito

  1. Identifique o IP em conflito (pelo alerta do cliente, logs do DHCP, ou reclamação de indisponibilidade).
  2. Verifique o lease no DHCP: veja para qual MAC o IP foi concedido e quando.
  3. Cheque a tabela ARP no gateway da VLAN: procure qual MAC está respondendo pelo IP (se alternar entre dois MACs, há conflito ativo).
  4. Localize o dispositivo: use o MAC para rastrear na rede (switch CAM table) e identificar porta/local.
  5. Corrija a causa: ajuste exclusões/pool, mova IP estático para faixa correta, corrija reserva, ou remova DHCP indevido.

Servidor DHCP concorrente (rogue DHCP): risco real e impacto

Um DHCP concorrente é qualquer servidor não autorizado respondendo a Discover/Request. Pode ser um roteador doméstico ligado indevidamente, um hotspot, ou até um serviço ativado por engano em um servidor.

Impactos típicos

  • Gateway errado: clientes perdem acesso a redes externas ou passam a sair por um caminho inseguro.
  • DNS errado: redirecionamento de tráfego, falhas de resolução, risco de interceptação.
  • Endereços fora do padrão: clientes em sub-rede errada, sem acesso a recursos internos.

Passo a passo prático: como detectar e conter

  1. Observe ofertas múltiplas: em um capture na VLAN (ou logs do cliente), veja se há mais de um Offer.
  2. Identifique o IP do servidor DHCP que respondeu (campo Server Identifier nas mensagens DHCP).
  3. Rastreie a origem: use o IP/MAC para localizar a porta no switch.
  4. Remova/Isolar: desconecte o equipamento ou desative o serviço.
  5. Previna: habilite controles de camada 2 quando disponíveis (ex.: DHCP Snooping) e defina portas confiáveis apenas para uplinks/relays.

Servidores e serviços críticos: por que “depender do DHCP” pode ser um problema

Servidores que fornecem serviços essenciais (autenticação, virtualização, storage, monitoramento, DNS, roteamento, firewall) geralmente precisam de endereços estáveis e previsíveis. Se um servidor depende de DHCP e o DHCP estiver indisponível durante boot, ele pode subir sem rede, com IP antigo, ou com parâmetros incompletos.

Boas práticas para IP fixo em servidores

  • Defina uma faixa de IPs estáticos por VLAN (fora do pool DHCP) e aplique padrão por função (ex.: .10–.49 infraestrutura, .50–.99 servidores).
  • Evite “estático dentro do pool”: isso é a origem mais comum de conflitos.
  • Use reserva DHCP apenas quando fizer sentido operacional: por exemplo, para appliances que você quer gerenciar centralmente, mas que toleram depender do DHCP.

Exemplo de arquitetura: DHCP para estações e IoT, estático/reservado para servidores

A seguir, um exemplo prático de desenho que equilibra automação e previsibilidade. Considere três redes (VLANs) separadas:

SegmentoUsoEstratégia de IPLease sugeridoObservações
VLAN 10 - UsuáriosPCs/notebooksDHCP dinâmico + algumas reservas1 a 3 diasDNS interno, gateway da VLAN, sufixo de domínio
VLAN 20 - IoTCâmeras, sensores, TVsDHCP dinâmico + reservas para dispositivos críticos7 a 30 diasNTP obrigatório; limitar acesso por firewall
VLAN 30 - ServidoresServiços internosIP estático (preferencial) ou reservas bem controladasN/AEndereços documentados; sem pool dinâmico amplo

Como isso se conecta ao DHCP Relay

Se o servidor DHCP estiver na VLAN de servidores (VLAN 30), as VLANs 10 e 20 precisam de relay no gateway de cada VLAN. Assim, o broadcast DHCP do cliente é encaminhado ao servidor DHCP, que responde com base no escopo correto.

Separando pools e faixas para reduzir incidentes

Exemplo de organização dentro de uma VLAN (apenas como padrão operacional):

  • .1 gateway da VLAN
  • .2–.49 infraestrutura (APs, switches gerenciáveis, controladoras) com IP estático
  • .50–.99 reservas (impressoras, IoT crítico)
  • .100–.199 pool DHCP dinâmico
  • .200–.254 expansão/temporários

Boas práticas de documentação e previsibilidade

O que documentar (mínimo útil)

  • Escopos: VLAN/sub-rede, pool, exclusões, lease time, gateway, DNS, domínio, NTP.
  • Reservas: IP, MAC/Client ID, hostname esperado, dono do ativo, localização, motivo da reserva.
  • Integração com DNS: quem atualiza (cliente ou DHCP), política de aging/scavenging, padrão de nomes.
  • Relays: em quais gateways estão configurados e para qual servidor DHCP apontam.

Checklist operacional para mudanças seguras

  • Antes de alterar pool/exclusões, verifique conflitos com a faixa de estáticos e reservas.
  • Ao mudar DNS/gateway/NTP, planeje a propagação via renovação de lease (ou force renew em grupos críticos).
  • Mantenha alta disponibilidade do DHCP quando ele for essencial para grandes segmentos (reduz impacto de falhas).
  • Monitore taxa de utilização do pool (pool quase cheio causa falhas intermitentes de obtenção de IP).

Comandos úteis (cliente) para testar rapidamente

Em troubleshooting, é comum precisar liberar/renovar e verificar parâmetros recebidos:

# Windows (Prompt/PowerShell) ipconfig /release ipconfig /renew ipconfig /all
# Linux (varia por distro/cliente DHCP) sudo dhclient -r sudo dhclient ip a cat /etc/resolv.conf

Use esses comandos para confirmar: IP recebido, gateway, DNS, sufixo de domínio e tempo de lease. Se o IP muda para uma faixa inesperada, suspeite de escopo errado, relay incorreto ou DHCP concorrente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma rede com várias VLANs/sub-redes, por que é comum configurar DHCP Relay nos gateways?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Como o cliente ainda não tem IP, o processo inicia com broadcast na rede local. Em redes segmentadas, o DHCP Relay encaminha essas mensagens ao servidor DHCP em outra VLAN/sub-rede, mantendo a separação e a automação.

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