Desenvolvimento da leitura e da escrita na alfabetização: etapas e sinais de progresso

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Percurso típico do desenvolvimento: do “rabisco com intenção” à escrita alfabética

Na alfabetização, a leitura e a escrita se desenvolvem em etapas que costumam aparecer em uma sequência relativamente previsível, embora cada criança avance em ritmos diferentes e possa apresentar comportamentos de etapas distintas ao mesmo tempo. O foco pedagógico não é “classificar” a criança, e sim reconhecer as hipóteses que ela está construindo sobre como a escrita funciona, para propor intervenções adequadas.

Ao observar produções e comportamentos leitores, procure responder a perguntas práticas: a criança entende que a escrita representa a fala? Ela percebe que há uma direção e uma organização no texto? Ela tenta relacionar sons a letras? Ela reconhece palavras frequentes com estabilidade? Ela compreende o que lê/ouve ler?

1) Exploração de marcas gráficas (pré-convencional)

Nesta fase, a criança explora traços, desenhos, pseudo-letras e combinações sem correspondência estável com sons. Ainda assim, muitas vezes há intenção comunicativa: ela “escreve” para dizer algo.

  • O que costuma aparecer na escrita: rabiscos, desenhos misturados com letras, sequências de letras aleatórias, repetição de uma mesma letra, “assinaturas” próprias.
  • O que observar no comportamento leitor: “leitura” de memória (reconta a história olhando as imagens), aponta para o texto sem acompanhar palavra a palavra, finge ler com entonação.
  • Como intervir sem rotular: oferecer modelos de escrita funcional (listas, bilhetes), convidar a ditar para o adulto escrever, perguntar “o que você escreveu aqui?” para valorizar a intenção e coletar evidências.

2) Hipóteses sobre quantidade e variedade (pré-silábica)

A criança começa a supor que a escrita precisa ter um “tamanho mínimo” e variedade de sinais para “dizer” algo. Pode acreditar que palavras maiores precisam de mais letras, ou que não se pode repetir letras.

  • O que costuma aparecer na escrita: palavras com número de letras “inventado” (ex.: para “casa” escreve “BTRO”), preocupação com “ficar grande o suficiente”, alternância de letras para “variar”.
  • O que observar: diferencia desenho de escrita, tenta “organizar” em linha, pergunta “quantas letras tem?”, compara tamanhos de palavras.
  • Intervenções úteis: propor comparação entre palavras curtas e longas reais (ex.: “sol” e “borboleta”), jogos de localizar palavras iguais em um texto curto, atividades de nome próprio e de colegas (estabilidade visual).

3) Hipótese silábica (uma letra para cada sílaba)

A criança passa a relacionar fala e escrita, geralmente atribuindo uma letra para cada sílaba. Pode usar letras quaisquer (silábica sem valor sonoro) ou letras com algum vínculo com o som (silábica com valor sonoro).

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  • Exemplos típicos: “cavalo” → “CVL” (uma letra por sílaba); “banana” → “BNN” ou “BAA” (seleciona letras que “lembram” o som).
  • Comportamentos leitores: tenta “silabar” ao ler, aponta em blocos, busca pistas sonoras iniciais (primeiro som da palavra) para adivinhar.
  • Intervenções úteis: atividades de consciência silábica (bater palmas para sílabas), escrita de listas por tema (frutas, brinquedos) com apoio de letras móveis, comparação de palavras que começam igual (ex.: “bola” e “boca”).

4) Hipótese silábico-alfabética (transição)

A criança começa a perceber que a sílaba pode precisar de mais de uma letra e passa a registrar algumas sílabas com duas letras, outras com uma, alternando estratégias.

  • Exemplo: “boneca” → “BNECA” (algumas partes mais completas, outras reduzidas).
  • Comportamentos leitores: tenta decodificar, mas ainda “pula” letras; melhora ao reler; usa o contexto para confirmar.
  • Intervenções úteis: foco em correspondência fonema-grafema em palavras curtas, ditado interativo (o adulto pergunta: “que som você ouve no começo?”), leitura compartilhada com apontamento palavra a palavra em frases curtas.

5) Escrita alfabética (com consolidação ortográfica gradual)

A criança compreende o princípio alfabético: letras representam fonemas. A escrita passa a ter correspondência mais completa com os sons, ainda com erros ortográficos esperados (trocas, omissões, segmentação).

  • Exemplos de produções: “pranta” por “planta”, “caza” por “casa”, “euvo” por “eu vou”.
  • Comportamentos leitores: decodifica com mais autonomia, reconhece palavras frequentes com rapidez, melhora fluência em textos conhecidos.
  • Intervenções úteis: ampliar repertório de palavras frequentes, trabalhar famílias de palavras (casa/casinha/caseiro), leitura em voz alta com foco em precisão e prosódia, revisão guiada (“vamos procurar onde falta espaço?”).

Como reconhecer hipóteses de escrita: perguntas-guia e sinais concretos

Para identificar a hipótese predominante em uma produção, use perguntas simples e observáveis, evitando termos rótulo na frente da criança. O objetivo é entender a lógica que ela está usando.

Perguntas-guia ao analisar uma amostra de escrita

  • Há intenção comunicativa? A criança consegue dizer o que “está escrito”?
  • Há linearidade e direção? Escreve em linha? Mantém orientação esquerda→direita?
  • Há relação com a fala? O número de marcas se relaciona com sílabas? Há tentativa de representar sons?
  • Quais letras escolhe e por quê? Usa letras do nome? Letras “do som” inicial?
  • Há segmentação entre palavras? Usa espaços? Junta tudo? Separa demais?
  • Consegue reler o que escreveu? A releitura bate com a intenção inicial?

Exemplo prático de análise (sem rotular)

Proposta: “Escreva uma lista de 3 animais.”

  • Produção: “CVL” (para “cavalo”), “GTO” (para “gato”), “PTO” (para “pato”).
  • Leitura da criança: aponta cada bloco e diz o animal correspondente.
  • Interpretação: há correspondência fala-escrita em unidades maiores (sílabas) e uso de letras como marcadores; a criança já entende que a escrita representa a fala, mas ainda não detalha fonemas.
  • Próximo passo didático: propor comparação “gato” x “pato” (muda só o primeiro som), explorar letras iniciais e finais, usar letras móveis para testar “quantas letras precisamos para falar ‘ga’?”

Comportamentos leitores: o que observar além de “acertar” palavras

O progresso na leitura envolve decodificação, reconhecimento automático de palavras frequentes e compreensão. Uma criança pode decodificar lentamente e compreender bem; outra pode “adivinhar” palavras e compreender pouco. Por isso, observe comportamentos durante diferentes situações: leitura compartilhada, leitura de palavras isoladas, leitura de frases curtas e escuta de textos lidos pelo adulto.

Indicadores de progresso na decodificação

  • Aponta para o texto e tenta acompanhar a sequência.
  • Usa pistas sonoras (início/fim) para confirmar a palavra, não apenas a imagem.
  • Consegue ler sílabas e palavras curtas em diferentes contextos (não só em uma lista decorada).
  • Reduz omissões e inversões ao reler.

Indicadores de reconhecimento de palavras frequentes (estabilidade)

  • Reconhece rapidamente palavras muito recorrentes (ex.: “o”, “a”, “de”, “em”, “um/uma”, “eu”, “meu/minha”, nomes próprios da turma).
  • Identifica a mesma palavra em fontes e tamanhos diferentes (cartaz, livro, folha).
  • Distingue palavras visualmente parecidas quando já são frequentes (ex.: “uma” x “u m a” com espaçamento irregular; “meu” x “seu”).

Indicadores de evolução na compreensão

  • Antecipações coerentes: prevê o que pode acontecer com base no texto (não só na imagem).
  • Responde perguntas literais (quem? onde? o que aconteceu?) e começa a justificar com trechos (“porque aqui diz…”).
  • Reconta com sequência temporal e mantém personagens/ações principais.
  • Percebe incoerências simples (“isso não faz sentido”) e pede esclarecimento.

Como registrar evidências de aprendizagem (sem burocratizar)

Registrar evidências ajuda a planejar intervenções e a comunicar avanços às famílias e à equipe. O registro deve ser leve, frequente e baseado em amostras reais, não em impressões gerais (“está fraco/forte”). Use três fontes principais: amostras de escrita, listas de palavras lidas e anotações de observação.

1) Amostras de escrita (portfólio)

O que coletar: produções espontâneas e propostas curtas, com data e contexto (o que foi pedido). Priorize comparabilidade: a mesma proposta reaplicada depois de algumas semanas mostra progresso com clareza.

Propostas rápidas (5–10 min) para coletar amostras:

  • Escrever o próprio nome e dois nomes de colegas.
  • Escrever uma lista (3–5 itens) de um tema conhecido.
  • Escrever uma frase curta ditada pelo professor (ex.: “O gato bebe leite.”).
  • Escrever uma legenda para um desenho feito pela criança.

Como anotar junto à amostra: “Ditou antes de escrever?”, “pediu ajuda para quais palavras?”, “releu apontando?”, “apagou e corrigiu?”.

2) Lista de palavras lidas (monitoramento de estabilidade)

Monte uma lista curta e cumulativa com palavras frequentes e palavras do cotidiano da turma (nomes, materiais, dias da semana). A cada 2–4 semanas, verifique leitura em condições semelhantes.

Como aplicar (passo a passo):

  • Escolha 10–20 palavras (misture muito frequentes e algumas novas).
  • Apresente em cartões ou em uma folha, sem figuras.
  • Peça para ler em voz alta; marque: leu sozinho, leu com ajuda, não leu.
  • Repita parte da lista em outra ordem para verificar estabilidade (evita “memorização da sequência”).
  • Registre observações: soletra? silaba? reconhece de imediato? confunde com qual palavra?

3) Anotações de observação (comportamentos em situação real)

Use notas curtas, datadas, com foco em comportamento observável. Evite interpretações globais (“não tem interesse”). Prefira descrições (“escolheu livro, folheou, apontou título, pediu para reler”).

CampoExemplo de registro objetivo
ContextoLeitura compartilhada em roda (texto curto no cartaz)
ComportamentoAcompanhou com o dedo; antecipou “era uma vez”; perguntou o significado de “gigante”
EvidênciaReconheceu “o” e “a” sem ajuda; confundiu “de” com “do”
Próximo passoTrabalhar contraste “de/do” em frases; reforçar vocabulário do texto

Interpretar avanços sem rotular: linguagem e critérios

Rótulos (“atrasado”, “não acompanha”, “pré-silábico como se fosse identidade”) tendem a reduzir expectativas e obscurecer progressos reais. Prefira uma linguagem de processo: “neste momento, está usando principalmente…”; “já demonstra…”; “ainda precisa de apoio em…”.

Critérios de avanço (o que conta como progresso)

  • Mais controle do sistema: passa a manter direção, linearidade, espaços, releitura mais consistente.
  • Mais relação som-letra: começa a escolher letras pelo som (mesmo com erros).
  • Mais estabilidade: reconhece as mesmas palavras em dias diferentes e em suportes diferentes.
  • Mais autonomia estratégica: tenta reler, autocorrige, pede ajuda específica (“qual é o som do ‘nh’?”) em vez de “não sei”.
  • Mais compreensão: responde e justifica, reconta com coerência, faz inferências simples.

Como descrever para famílias e equipe (modelos)

  • Em vez de: “Ele é silábico.” Use: “Ele já relaciona fala e escrita e costuma registrar uma letra por sílaba; estamos ampliando a atenção aos sons dentro da sílaba.”
  • Em vez de: “Ela não lê.” Use: “Ela reconhece algumas palavras frequentes e tenta decodificar palavras novas; precisa de apoio para manter a correspondência letra-som até o fim da palavra.”
  • Em vez de: “Está regredindo.” Use: “Em tarefas novas, ela experimenta estratégias diferentes; vamos comparar com amostras anteriores para ver o que se mantém e o que precisa de reforço.”

Checklists de sinais observáveis (para uso em sala)

Use os checklists como guia de observação, não como prova. Marque data e contexto. Reavalie periodicamente para ver tendências.

Checklist 1 — Direção e organização da escrita

  • ( ) Diferencia desenho de escrita (aponta “aqui é onde escreve”).
  • ( ) Mantém escrita em linha (não espalha pelo papel).
  • ( ) Direção predominante esquerda → direita.
  • ( ) Retorno de linha quando necessário (em textos mais longos).
  • ( ) Usa algum tipo de separação entre itens em listas (ponto, traço, quebra de linha).
  • ( ) Reconhece que letras têm orientação (não gira aleatoriamente).

Checklist 2 — Segmentação inicial (palavras e frases)

  • ( ) Em lista, separa itens (um por linha ou com marcador).
  • ( ) Em frase, tenta usar espaços entre palavras.
  • ( ) Junta palavras frequentes (“oque”, “pramim”) em alguns momentos.
  • ( ) Separa demais (“e u v o u”) em alguns momentos.
  • ( ) Ao reler, percebe quando a segmentação atrapalha a leitura.

Checklist 3 — Correspondência som-letra emergente

  • ( ) Escolhe letras do próprio nome para escrever outras palavras.
  • ( ) Usa letra inicial coerente com o som (ex.: “B” em “bola”).
  • ( ) Representa som final em algumas palavras (ex.: “sol” com “L”).
  • ( ) Mantém algumas correspondências estáveis (ex.: sempre usa “P” para /p/).
  • ( ) Consegue comparar palavras que começam igual (ex.: “pato” e “panela”).
  • ( ) Tenta registrar encontros consonantais (ex.: “pr”, “bl”), mesmo com omissões.

Checklist 4 — Reconhecimento estável de palavras frequentes

  • ( ) Reconhece o próprio nome e nomes de colegas sem apoio.
  • ( ) Reconhece artigos e preposições muito frequentes em diferentes textos.
  • ( ) Lê a mesma palavra em dias diferentes (estabilidade temporal).
  • ( ) Lê a mesma palavra em suportes diferentes (cartaz, livro, folha).
  • ( ) Distingue palavras frequentes parecidas (ex.: “no”/“na”, “meu”/“seu”).

Checklist 5 — Evolução na compreensão leitora

  • ( ) Identifica personagens e cenário após leitura/escuta.
  • ( ) Reconta com começo–meio–fim (mesmo que curto).
  • ( ) Responde perguntas literais com precisão.
  • ( ) Faz inferência simples (ex.: “ele ficou triste porque…”).
  • ( ) Localiza informação no texto com ajuda (“mostra onde está escrito…”).
  • ( ) Ajusta compreensão ao reler (corrige entendimento).

Rotina prática de acompanhamento (15 minutos por semana)

Uma rotina curta e consistente gera dados suficientes para planejar intervenções sem sobrecarregar.

Passo a passo

  • Passo 1 — Escolha 3 crianças por semana (rodízio para cobrir a turma em 3–4 semanas).
  • Passo 2 — Colete 1 amostra de escrita rápida (lista de 3 itens ou uma frase ditada). Date e anote o contexto.
  • Passo 3 — Aplique 1 mini-lista de leitura (8–12 palavras). Marque leu sozinho/com ajuda/não leu.
  • Passo 4 — Registre 2 observações objetivas (ex.: “apontou palavra a palavra”, “autocorrigiu ao reler”).
  • Passo 5 — Defina 1 foco de intervenção para a semana seguinte (ex.: segmentação em frases; contraste de sons iniciais; reforço de palavras frequentes).

Modelo simples de ficha (para copiar e usar)

Nome: ____________________   Data: ____/____/____   Contexto: ____________________
Amostra de escrita (cole/foto/descrição): _______________________________________
O que a criança disse que escreveu: _____________________________________________
Observáveis (marque):
[ ] direção E→D  [ ] linearidade  [ ] espaços entre palavras  [ ] releitura coerente
Som-letra:
[ ] som inicial  [ ] som final  [ ] mais de 1 letra por sílaba em partes
Leitura de palavras (S=sozinho / A=ajuda / N=não leu):
1) ______ ( )S ( )A ( )N   2) ______ ( )S ( )A ( )N   3) ______ ( )S ( )A ( )N
4) ______ ( )S ( )A ( )N   5) ______ ( )S ( )A ( )N   6) ______ ( )S ( )A ( )N
Observações objetivas (2):
- _____________________________________________________________________________
- _____________________________________________________________________________
Próximo foco (1): ______________________________________________________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar a escrita de uma criança que registra uma letra para cada sílaba e, na leitura, aponta “em blocos” e tenta silabar, qual intervenção pedagógica é mais adequada para apoiar seu avanço?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Esse padrão indica hipótese silábica: a criança relaciona fala e escrita por sílabas. Intervenções como consciência silábica, comparação de palavras com início semelhante e uso de letras móveis ajudam a refinar a relação som-letra e avançar na escrita.

Próximo capitúlo

Consciência fonológica na alfabetização: ouvir, segmentar e manipular sons

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