Citologia do Zero: retículo endoplasmático rugoso — produção e qualidade de proteínas

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é o retículo endoplasmático rugoso (RER) e por que ele é “rugoso”

O retículo endoplasmático rugoso (RER) é uma rede de membranas internas formada principalmente por cisternas achatadas (sacos membranosos) e túbulos, localizada em geral próxima ao núcleo. Ele recebe o nome “rugoso” porque sua face citosólica fica repleta de ribossomos aderidos, o que dá um aspecto granuloso ao microscópio eletrônico.

Funcionalmente, o RER é o principal local de produção e processamento inicial de proteínas que serão: secretadas (ex.: enzimas digestivas), inseridas em membranas (ex.: receptores, canais) ou enviadas a lisossomos (ex.: hidrolases lisossomais).

Estrutura do RER e continuidade com o envelope nuclear

Arquitetura em cisternas e lúmen

O RER é delimitado por uma bicamada lipídica e possui um espaço interno chamado lúmen (ou cisterna). Esse lúmen é crucial porque é nele que muitas proteínas recém-sintetizadas entram para dobrar e sofrer modificações iniciais.

Continuidade com o envelope nuclear

Uma característica-chave do RER é sua continuidade física com o envelope nuclear: a membrana externa do núcleo se prolonga e forma cisternas do RER. Isso cria um “corredor” membranoso integrado, facilitando a organização espacial entre núcleo (onde a informação genética é gerada) e o sistema de produção/triagem de proteínas destinadas ao caminho secretor.

RER versus REL (sem repetir o básico)

Na prática, RER e retículo endoplasmático liso (REL) são regiões do mesmo sistema membranoso. A presença de ribossomos e a predominância de cisternas achatadas são marcas do RER, associadas à síntese de proteínas voltadas ao sistema de endomembranas.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Quais proteínas “entram” no RER: secretadas, de membrana e lisossomais

Nem toda proteína feita por ribossomos será processada no RER. O RER é o destino das proteínas que possuem um sinal de endereçamento que direciona a síntese para a membrana do retículo e permite a translocação para o lúmen ou a inserção na membrana do RER.

  • Proteínas secretadas: entram no lúmen do RER e seguem para o complexo de Golgi, sendo depois liberadas por exocitose (ex.: hormônios peptídicos, enzimas).
  • Proteínas de membrana: são inseridas na membrana do RER durante a síntese; depois trafegam para membrana plasmática ou membranas de organelas do sistema endomembranar (ex.: receptores, transportadores).
  • Proteínas lisossomais: entram no lúmen do RER, seguem ao Golgi e recebem marcações específicas para serem encaminhadas a endossomos/lisossomos (ex.: enzimas hidrolíticas).

Passo a passo: como o RER participa da síntese e do direcionamento de proteínas

O processo abaixo descreve o “fluxo” típico de uma proteína destinada à secreção ou a membranas do sistema endomembranar.

1) Início da tradução no citosol

A síntese proteica começa em ribossomos no citosol. Se a proteína possui um peptídeo sinal (sequência curta de aminoácidos), esse sinal é reconhecido e muda o destino do ribossomo.

2) Direcionamento do ribossomo ao RER

O peptídeo sinal é reconhecido por uma partícula de reconhecimento de sinal (SRP), que pausa temporariamente a tradução e leva o complexo ribossomo–mRNA até a membrana do RER, onde há receptores e um canal de translocação.

3) Translocação para o lúmen ou inserção na membrana

Com o ribossomo acoplado ao canal, a tradução recomeça e a cadeia polipeptídica em crescimento é:

  • Translocada para o lúmen (proteínas secretadas e muitas lisossomais), ou
  • Inserida na membrana (proteínas transmembrana), usando segmentos hidrofóbicos como âncoras.

4) Dobramento assistido e formação de estruturas corretas

Ao entrar no lúmen, a proteína começa a dobrar. Esse dobramento não é “no escuro”: o RER possui chaperonas e enzimas que ajudam a atingir a conformação correta e a evitar agregação.

5) Modificações iniciais no RER

Enquanto dobra, a proteína pode sofrer modificações iniciais importantes, como:

  • Formação e rearranjo de pontes dissulfeto (estabilizam proteínas secretadas e luminais).
  • Glicosilação inicial (adição de carboidratos a certos resíduos), que influencia estabilidade, dobramento e reconhecimento posterior no Golgi.
  • Montagem de subunidades (muitas proteínas funcionam como complexos; o RER ajuda a montar e checar essas associações).

6) Controle de qualidade: só sai do RER o que está “aprovado”

Uma função central do RER é atuar como filtro de qualidade. Proteínas mal dobradas ou incompletas tendem a:

  • Ficar retidas no RER para tentar dobrar novamente com auxílio de chaperonas.
  • Ser direcionadas à degradação quando não atingem conformação adequada, evitando que proteínas defeituosas avancem no tráfego celular.

7) Empacotamento em vesículas e envio ao Golgi

Proteínas aprovadas são concentradas em regiões de saída do retículo e empacotadas em vesículas de transporte que seguem para o complexo de Golgi, onde ocorrerão modificações adicionais e triagem final para secreção, membrana ou lisossomos.

Dobramento e controle de qualidade proteica no RER (por que isso importa)

O problema biológico: proteínas precisam de forma correta

Proteínas são como ferramentas: uma pequena deformação pode impedir a função. Em células secretoras, o risco é maior porque grandes quantidades de proteína são produzidas continuamente. O RER reduz esse risco ao combinar ambiente químico adequado (para pontes dissulfeto e glicosilação) com maquinário de checagem.

O que o RER “verifica” na prática

  • Exposição de regiões hidrofóbicas indevidas (sinal de dobramento incorreto).
  • Presença/ausência de subunidades em proteínas multiméricas.
  • Padrões de glicosilação associados a estados de dobramento (glicanos podem funcionar como “etiquetas” de progresso do dobramento).

Exemplo prático de raciocínio: por que uma proteína mal dobrada não deve ser secretada

Imagine uma enzima digestiva produzida pelo pâncreas. Se ela for secretada mal dobrada, pode:

  • Ser inativa (perda de função).
  • Formar agregados (potencialmente tóxicos).
  • Desencadear respostas inflamatórias ou estresse celular.

O controle de qualidade do RER evita que o “produto com defeito” chegue ao exterior da célula ou a compartimentos onde causaria dano.

RER abundante e função secretora: como reconhecer células “fabricantes”

Células do pâncreas (acinares) e produção de enzimas

Células acinares do pâncreas sintetizam grandes quantidades de enzimas digestivas que serão secretadas. Por isso, apresentam:

  • RER muito desenvolvido, refletindo alta taxa de síntese de proteínas secretadas.
  • Organização celular polarizada: região basal rica em RER (produção) e região apical com grânulos de secreção (armazenamento/expulsão).

Relação estrutura–função: quanto maior a demanda por secreção proteica, maior a necessidade de área de membrana do RER, ribossomos associados e capacidade de dobramento/checagem.

Plasmócitos e produção de anticorpos

Plasmócitos são células especializadas em produzir e secretar imunoglobulinas (anticorpos). Eles tipicamente exibem:

  • RER extremamente abundante, pois anticorpos são proteínas secretadas em grande escala.
  • Alta atividade de dobramento e montagem, já que anticorpos possuem múltiplas cadeias e pontes dissulfeto.

Relação estrutura–função: a célula “investe” em RER para garantir volume de produção e qualidade do produto final (anticorpos funcionais).

Mapa mental rápido: destino da proteína e papel do RER

Destino finalO que o RER fazExemplo
SecreçãoTransloca para o lúmen, dobra, modifica e libera para tráfego ao GolgiEnzimas pancreáticas
MembranaInsere segmentos transmembrana e orienta domínios luminais/citosólicosReceptores de membrana
LisossomoProduz enzimas luminais e inicia modificações; segue ao Golgi para triagemHidrolases lisossomais

Checklist de estudo (aplicação prática)

  • Se a célula secreta muita proteína, espere RER abundante.
  • Se a proteína tem pontes dissulfeto e glicosilação inicial, pense em processamento no lúmen do RER.
  • Se a proteína é de membrana, lembre que a inserção ocorre durante a síntese no RER.
  • Se há risco de proteína defeituosa, o RER atua como controle de qualidade antes do envio ao Golgi.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual sequência descreve melhor o caminho de uma proteína destinada à secreção desde o início da síntese até o envio para processamento posterior?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Proteínas secretadas começam a ser traduzidas no citosol, são direcionadas ao RER por um peptídeo sinal, entram no lúmen para dobramento e modificações iniciais, passam por controle de qualidade e seguem em vesículas para o Golgi.

Próximo capitúlo

Citologia do Zero: retículo endoplasmático liso — lipídios, detoxificação e reserva de cálcio

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Citologia do Zero: Estruturas Celulares e Suas Funções
50%

Citologia do Zero: Estruturas Celulares e Suas Funções

Novo curso

18 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.