Citologia do Zero: membrana plasmática — estrutura, transporte e comunicação

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Membrana plasmática: o “limite inteligente” da célula

A membrana plasmática é uma estrutura fina e dinâmica que separa o meio interno do meio externo, controlando o que entra e o que sai. Ela não é uma “parede” rígida: funciona como uma barreira com permeabilidade seletiva, permitindo a passagem de algumas substâncias com facilidade e dificultando outras, de acordo com suas propriedades e com os mecanismos de transporte disponíveis.

Estrutura: bicamada lipídica e mosaico de proteínas

Bicamada lipídica (fosfolipídios)

A base da membrana é uma bicamada de fosfolipídios. Cada fosfolipídio tem uma “cabeça” hidrofílica (interage com água) e duas “caudas” hidrofóbicas (evitam água). Em meio aquoso, eles se organizam espontaneamente em duas camadas: cabeças voltadas para fora e para o citoplasma; caudas voltadas para o interior da membrana.

  • Consequência prática: moléculas pequenas e apolares (como O2 e CO2) atravessam com mais facilidade; íons e moléculas grandes/polares encontram barreira.

Proteínas integrais e periféricas

As proteínas são responsáveis por grande parte das funções específicas da membrana.

  • Proteínas integrais (transmembrana): atravessam a bicamada. Podem formar canais, transportadores (carreadores) e receptores.
  • Proteínas periféricas: ficam associadas à face interna ou externa, sem atravessar a bicamada. Atuam em ancoragem do citoesqueleto, organização local e sinalização.

Colesterol (em células animais)

Em células animais, o colesterol se intercala entre os fosfolipídios e ajuda a regular a fluidez e a estabilidade da membrana.

  • Em temperaturas mais altas, reduz fluidez excessiva (evita “amolecer demais”).
  • Em temperaturas mais baixas, evita empacotamento rígido (evita “endurecer demais”).

Em células vegetais, a membrana possui outros esteróis (fitosteróis) e, além disso, a célula conta com parede celular externamente, que influencia resistência mecânica e equilíbrio osmótico.

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Glicocálix: reconhecimento e proteção

Na face externa da membrana, é comum haver cadeias de carboidratos ligadas a lipídios e proteínas (glicolipídios e glicoproteínas), formando o glicocálix.

  • Funções: proteção, adesão entre células, reconhecimento (como “etiquetas” celulares) e participação em comunicação celular.

Permeabilidade seletiva: o que passa e por quê

A seletividade depende de dois fatores principais: (1) a bicamada lipídica (barreira hidrofóbica) e (2) as proteínas de membrana (canais, carreadores e bombas).

Tipo de substânciaTendência de atravessar a bicamada sozinhaExemplo
Pequena e apolarAltaO2, CO2
Pequena e polar sem cargaMédia/baixa (depende)H2O (muitas vezes usa aquaporinas)
Íons (carregadas)Muito baixaNa+, K+, Cl-
Grande e polarMuito baixaGlicose, aminoácidos

Transporte pela membrana: visão geral

Os transportes podem ser classificados em:

  • Passivos: não gastam ATP diretamente; ocorrem a favor do gradiente (de maior para menor concentração, ou a favor do gradiente eletroquímico).
  • Ativos: exigem energia (geralmente ATP) para mover contra o gradiente.
  • Vesiculares: usam vesículas para transportar grandes quantidades ou partículas (endocitose/exocitose).

1) Difusão simples

Difusão simples é a passagem direta pela bicamada lipídica, sem proteínas transportadoras, sempre a favor do gradiente de concentração.

  • Passam bem: gases (O2, CO2), moléculas apolares pequenas.

Situação aplicada: trocas gasosas

Em tecidos que consomem oxigênio, a concentração de O2 dentro das células tende a ser menor do que no sangue/fluido ao redor. Assim, o O2 difunde para dentro. O CO2, produzido no metabolismo, tende a estar mais concentrado no interior e difunde para fora.

Passo a passo prático (como prever o sentido da difusão simples)

  1. Identifique a substância (é pequena e apolar?).
  2. Compare as concentrações nos dois lados da membrana.
  3. Preveja o fluxo: do lado mais concentrado para o menos concentrado.

2) Difusão facilitada

Difusão facilitada também é passiva (sem gasto direto de ATP), mas ocorre com ajuda de proteínas, porque a substância não atravessa bem a bicamada.

  • Canais: formam poros seletivos (muito comuns para íons e água).
  • Carreadores (transportadores): ligam a substância e mudam de conformação para levá-la ao outro lado (comuns para glicose e aminoácidos).

Uma característica importante é a saturação: há um limite de velocidade, pois existe um número finito de proteínas transportadoras.

Situação aplicada: absorção de nutrientes

A entrada de glicose em muitas células ocorre por transportadores específicos (carreadores). Mesmo que a glicose esteja em maior concentração fora, ela precisa de proteína para atravessar com eficiência por ser polar e relativamente grande.

Passo a passo prático (como diferenciar difusão simples vs facilitada)

  1. Se a substância é íon ou grande/polar, desconfie de difusão facilitada.
  2. Verifique se o transporte ocorre a favor do gradiente (se sim, é passivo).
  3. Considere saturação: se aumentar a concentração não aumenta indefinidamente a velocidade, provavelmente há proteína envolvida.

3) Osmose

Osmose é a difusão de água através de uma membrana semipermeável, do meio com menor concentração de solutos (maior “água livre”) para o meio com maior concentração de solutos.

Em muitas células, a água atravessa principalmente por aquaporinas (canais de água), o que acelera o processo.

Regulação osmótica: o que acontece com a célula

  • Meio hipotônico (menos soluto fora): água tende a entrar. Em célula animal, pode haver inchaço e até lise se extremo. Em célula vegetal, a parede celular limita o inchaço e surge turgor (célula túrgida).
  • Meio hipertônico (mais soluto fora): água tende a sair. Em célula animal, ocorre murchamento (crenação). Em célula vegetal, pode ocorrer plasmólise (membrana se afasta da parede).
  • Meio isotônico: equilíbrio de fluxos; volume tende a se manter.

Passo a passo prático (como prever o efeito osmótico)

  1. Compare a concentração de solutos fora vs dentro.
  2. Determine o tipo de meio: hipotônico, isotônico ou hipertônico.
  3. Preveja o movimento de água (sempre em direção ao maior soluto).
  4. Considere o tipo celular: animal (sem parede) vs vegetal (com parede e vacúolo).

4) Transporte ativo (bombas e gradientes)

Transporte ativo move substâncias contra o gradiente (de menor para maior concentração, ou contra o gradiente eletroquímico). Para isso, utiliza energia, geralmente de ATP, por meio de bombas (proteínas integrais).

Por que a célula “investe” energia nisso?

  • Manter diferenças de concentração entre interior e exterior (essenciais para volume celular, excitabilidade elétrica, entrada de nutrientes por mecanismos acoplados).
  • Controlar pH e composição iônica.

Exemplo clássico: bomba de Na+/K+ (células animais)

Uma bomba muito conhecida em células animais transporta Na+ para fora e K+ para dentro, consumindo ATP. Isso ajuda a manter gradientes iônicos importantes para diversas funções celulares.

Passo a passo prático (como identificar transporte ativo em exercícios)

  1. Veja se a substância está indo contra o gradiente (do menos para o mais concentrado).
  2. Procure indicação de ATP/energia ou “bomba”.
  3. Se houver manutenção de gradiente estável ao longo do tempo, suspeite de transporte ativo.

5) Transporte vesicular: endocitose e exocitose

Quando a célula precisa transportar partículas grandes, macromoléculas ou grandes volumes, ela usa vesículas (bolsas membranosas). Esse transporte é ativo, pois envolve reorganização de membrana e consumo de energia.

Endocitose (entrada por vesículas)

Na endocitose, a membrana envolve o material externo e forma uma vesícula para trazê-lo para dentro.

  • Fagocitose: “englobamento” de partículas grandes (ex.: restos celulares, microrganismos).
  • Pinocitose: entrada de fluido e solutos em pequenas vesículas.
  • Endocitose mediada por receptor: altamente seletiva; receptores reconhecem ligantes específicos e concentram a entrada.

Passo a passo prático (endocitose mediada por receptor)

  1. Um ligante específico se liga ao receptor na membrana.
  2. Os receptores se agrupam em regiões especializadas.
  3. A membrana invagina e forma uma vesícula interna.
  4. A vesícula pode se fundir a compartimentos internos para triagem e processamento.

Exocitose (saída por vesículas)

Na exocitose, vesículas internas se fundem à membrana plasmática e liberam seu conteúdo para fora, além de adicionar componentes à própria membrana.

  • Aplicações: secreção de proteínas, liberação de moléculas sinalizadoras, reposição de membrana.

Passo a passo prático (exocitose)

  1. O material é empacotado em uma vesícula no interior celular.
  2. A vesícula se desloca até a membrana plasmática.
  3. Ocorre fusão das membranas.
  4. O conteúdo é liberado no meio extracelular e a membrana da vesícula passa a integrar a membrana plasmática.

Comunicação celular na membrana: receptores e sinais

A membrana é um ponto central de comunicação. Receptores (geralmente proteínas integrais) reconhecem sinais externos (como moléculas sinalizadoras) e desencadeiam respostas internas, como alteração de atividade enzimática, abertura de canais, mudanças no citoesqueleto e expressão gênica (dependendo do tipo de sinal).

  • Especificidade: cada receptor reconhece ligantes específicos (modelo “chave-fechadura” ou ajuste induzido).
  • Glicocálix: contribui para reconhecimento e adesão, ajudando células a “identificarem” o que é compatível (por exemplo, em interações célula-célula).

Comparações essenciais: célula animal vs célula vegetal

AspectoCélula animalCélula vegetal
Colesterol na membranaPresente e importante na fluidezNão é o principal; há outros esteróis
Parede celularAusentePresente (fora da membrana), confere rigidez e proteção
Resposta a meio hipotônicoRisco de inchaço/lise em condições extremasFica túrgida; parede limita expansão e mantém pressão de turgor
Resposta a meio hipertônicoMurcha (crenação)Plasmólise (membrana se afasta da parede)
Transporte vesicularMuito comum (endo/exocitose)Também ocorre; a parede influencia interações com o exterior, mas a membrana realiza os mesmos princípios de transporte

Checklist de estudo (para resolver questões e interpretar situações)

  • Se atravessa a bicamada sem ajuda: pense em difusão simples (gases, apolares pequenas).
  • Se precisa de proteína e vai a favor do gradiente: difusão facilitada (canais/carreiros).
  • Se o foco é água e concentração de solutos: osmose (aquaporinas aceleram).
  • Se vai contra o gradiente e envolve ATP: transporte ativo (bombas).
  • Se envolve partículas grandes/volume e vesículas: endocitose/exocitose.
  • Em osmose, sempre diferencie: animal (sem parede) vs vegetal (com parede e turgor/plasmólise).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Uma célula vegetal é colocada em um meio hipertônico. Qual efeito é mais esperado e qual a explicação mais adequada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em meio hipertônico, há mais solutos fora da célula, então a água se desloca por osmose para o exterior. Em células vegetais, essa perda de água pode causar plasmólise, com a membrana se afastando da parede celular.

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