Citologia do Zero: citoesqueleto — forma, movimento e organização interna

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é o citoesqueleto (e por que ele é mais do que “andaime”)

O citoesqueleto é uma rede dinâmica de filamentos proteicos distribuída pelo citoplasma. Ele funciona como um sistema integrado de forma, resistência mecânica, organização interna e movimento. Em vez de ser rígido, ele é remodelado continuamente: filamentos crescem, encurtam, se reorganizam e se conectam a proteínas motoras e a estruturas de membrana.

Três componentes formam o “núcleo” do citoesqueleto em células eucarióticas: microfilamentos (actina), filamentos intermediários e microtúbulos. Cada um tem propriedades físicas e funções típicas, mas eles trabalham em conjunto, como se fossem cabos, molas e trilhos coordenados.

ComponenteProteína principal“Ideia” mecânicaFunções que mais aparecem
MicrofilamentosActinaFios finos e flexíveis, remodelagem rápidaForma cortical, contração, migração, citocinese
Filamentos intermediáriosQueratinas, vimentina, neurofilamentos, lâminasCabos resistentes à traçãoResistência mecânica, integridade tecidual, suporte nuclear
MicrotúbulosTubulinaTubos rígidos e polares, “trilhos”Transporte intracelular, cílios/flagelos, fuso mitótico

Microfilamentos (actina): forma cortical, contração e movimentos celulares

Estrutura e propriedades essenciais

Microfilamentos são polímeros de actina concentrados especialmente na periferia celular (o córtex de actina), logo abaixo da membrana plasmática. Eles são polares (têm extremidades diferentes) e podem ser montados/desmontados rapidamente, permitindo mudanças de forma em segundos.

Como contribuem para a forma celular

  • Suporte da membrana: o córtex de actina ajuda a manter a tensão superficial e a controlar deformações locais (por exemplo, formação de saliências).
  • Microvilosidades: feixes de actina sustentam projeções que aumentam a área de superfície (útil em absorção).

Como geram movimento: actina + miosina

A actina se associa a miosinas (proteínas motoras) para produzir força contrátil. A miosina “caminha” sobre a actina usando energia de ATP, aproximando filamentos e gerando encurtamento do conjunto.

  • Contração: em células musculares, a interação actina-miosina é altamente organizada; em células não musculares, forma redes contráteis para mudar forma e gerar tensão.
  • Citocinese: durante a divisão celular, um anel contrátil de actina e miosina estrangula a célula, separando-a em duas.

Exemplos práticos de movimentos dependentes de actina

  • Migração celular: a célula estende a borda frontal (polimerização de actina), adere ao substrato e puxa o corpo celular (contração por miosina).
  • Fagocitose: emissão de “braços” (pseudópodes) para englobar partículas, guiada por rearranjos de actina.
  • Corrente citoplasmática (em muitas células): movimentos internos podem envolver actina e miosinas transportando componentes ao longo de redes.

Passo a passo prático: como a célula “anda” usando actina

  1. Polarização: a célula define uma frente (direção do movimento) e uma traseira.
  2. Protrusão: actina polimeriza na borda frontal, empurrando a membrana e formando lamelipódios/filopódios.
  3. Adesão: a frente cria pontos de ancoragem no substrato (adesões focais), conectando actina ao exterior.
  4. Tração: miosina contrai a rede de actina, puxando o corpo celular para frente.
  5. Desprendimento traseiro: a parte posterior solta as adesões e é arrastada, completando o ciclo.

Filamentos intermediários: resistência mecânica e integridade estrutural

O que são e por que são “intermediários”

Filamentos intermediários têm diâmetro entre microfilamentos e microtúbulos. Diferente de actina e microtúbulos, sua principal característica é a resistência à tração (como cabos que evitam rasgos). Eles tendem a ser menos dinâmicos e mais estáveis, reforçando células e tecidos sujeitos a estresse mecânico.

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Como contribuem para forma e resistência

  • Distribuição de forças: ajudam a célula a não deformar permanentemente quando puxada ou comprimida.
  • Conexões com junções celulares: em muitos tecidos, filamentos intermediários se conectam a estruturas de adesão, formando uma “malha” que distribui tensão entre células.
  • Suporte do núcleo: as lâminas nucleares (filamentos intermediários) reforçam a face interna do envelope nuclear, ajudando a manter a forma do núcleo e a organizar regiões internas.

Exemplos de tipos e onde são importantes

  • Queratinas: comuns em epitélios; aumentam resistência a atrito e estiramento.
  • Vimentina: frequente em células de origem mesenquimal; contribui para arquitetura interna e resistência.
  • Neurofilamentos: em neurônios; ajudam a manter calibre de prolongamentos e suportar longas extensões.

Microtúbulos: trilhos para transporte, organização e divisão celular

Estrutura e dinâmica

Microtúbulos são tubos formados por tubulina e têm polaridade. Eles alternam fases de crescimento e encurtamento (dinâmica de instabilidade), o que permite reorganizações rápidas, especialmente durante a divisão celular.

Organização interna e posicionamento de estruturas

  • Arquitetura espacial: microtúbulos ajudam a posicionar organelas e a manter “corredores” internos para tráfego.
  • Centrossomo como organizador (em muitas células animais): atua como região que nucleia microtúbulos, contribuindo para uma organização radial.

Transporte intracelular: motores sobre microtúbulos

Microtúbulos funcionam como trilhos para proteínas motoras (como cinesinas e dineínas), que carregam vesículas e outros componentes. Isso é crucial em células grandes ou com longas distâncias internas (por exemplo, neurônios).

  • Entrega direcionada: cargas podem ser levadas a regiões específicas, evitando “difusão aleatória”.
  • Tráfego bidirecional: motores diferentes tendem a se mover em direções opostas ao longo da polaridade do microtúbulo, permitindo ida e volta de materiais.

Divisão celular: fuso mitótico

Durante a divisão, microtúbulos se reorganizam para formar o fuso mitótico, estrutura que captura e separa cromossomos para polos opostos. A precisão desse sistema é essencial para que cada célula-filha receba o conjunto correto de material genético.

Cílios e flagelos: microtúbulos como base do movimento

Como a estrutura gera batimento

Cílios e flagelos são projeções móveis cuja base estrutural é um arranjo organizado de microtúbulos. O movimento ocorre quando proteínas motoras associadas aos microtúbulos geram deslizamento entre eles; como o conjunto é “amarrado” por proteínas de ligação, o deslizamento se converte em flexão, produzindo batimentos coordenados.

Aplicações biológicas típicas

  • Locomoção: células móveis podem usar flagelos para deslocamento no meio.
  • Movimento de fluidos: cílios podem empurrar muco/fluido sobre superfícies celulares, mantendo fluxo direcional.

Integração: como os três sistemas se complementam

  • Forma imediata e mudanças rápidas: predominância de actina no córtex e em protrusões.
  • Resistência a estresse e “anti-rasgo”: predominância de filamentos intermediários distribuindo tração.
  • Organização interna, transporte e divisão: predominância de microtúbulos como trilhos e como base do fuso.

Na prática, uma célula que migra, por exemplo, usa actina para avançar, microtúbulos para direcionar entrega de componentes à frente e filamentos intermediários para suportar tensões durante deformações.

Atividades de leitura visual (sem microscópio): interpretando alterações no citoesqueleto

Atividade 1 — “Mapa de forma”: o que muda quando a actina falha?

Objetivo: relacionar actina com forma cortical, protrusões e citocinese.

Instruções (passo a passo):

  1. Imagine uma célula em migração vista de cima: uma borda frontal larga (lamelipódio) e uma traseira mais estreita.
  2. Agora descreva (em 3 a 5 frases) como essa célula ficaria se a polimerização de actina na borda frontal fosse reduzida.
  3. Em seguida, descreva o que aconteceria com a separação em duas células ao final da divisão (pense no anel contrátil).

Pistas para sua descrição: menos protrusões, borda mais “arredondada”, menor capacidade de englobar partículas, dificuldade de estrangulamento na citocinese.

Atividade 2 — “Teste de tração”: o papel dos filamentos intermediários

Objetivo: conectar filamentos intermediários à resistência mecânica e integridade tecidual.

Instruções (passo a passo):

  1. Visualize um tecido epitelial como um “mosaico” de células lado a lado, sujeito a atrito e estiramento.
  2. Descreva o que tende a acontecer com as células quando a rede de filamentos intermediários está enfraquecida: pense em deformação, ruptura e perda de coesão.
  3. Compare com uma situação em que actina e microtúbulos estejam normais, mas os filamentos intermediários estejam comprometidos: quais funções ainda ocorreriam e quais falhariam primeiro sob estresse mecânico?

Pistas para sua descrição: maior fragilidade, microlesões, células mais suscetíveis a rasgos; transporte por microtúbulos pode continuar, mas o tecido perde resistência.

Atividade 3 — “Trânsito interno”: quando os microtúbulos desorganizam

Objetivo: relacionar microtúbulos com transporte e posicionamento interno.

Instruções (passo a passo):

  1. Imagine o interior celular como uma cidade: microtúbulos são avenidas; motores são caminhões; vesículas são cargas.
  2. Descreva como ficaria a distribuição de vesículas se as “avenidas” fossem desmontadas: onde as cargas tenderiam a se acumular? O que ficaria mais lento?
  3. Agora aplique à divisão celular: descreva, em termos visuais, o que pode ocorrer se o fuso mitótico não se formar corretamente.

Pistas para sua descrição: tráfego menos direcionado, acúmulos locais, atrasos na entrega; na divisão, cromossomos podem não se separar adequadamente, gerando distribuição desigual.

Atividade 4 — “Batimento coordenado”: cílios/flagelos e microtúbulos

Objetivo: conectar a organização de microtúbulos ao movimento de cílios/flagelos.

Instruções (passo a passo):

  1. Visualize cílios como remos em sequência, batendo em ondas para empurrar fluido em uma direção.
  2. Descreva o efeito funcional se o batimento perder coordenação (cada “remo” bate fora de fase).
  3. Relacione essa perda de coordenação a um problema no mecanismo de deslizamento/flexão dos microtúbulos.

Pistas para sua descrição: fluxo reduzido ou turbulento, menor eficiência de deslocamento; batimento fraco/irregular por falha no mecanismo motor associado aos microtúbulos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a migração celular, qual combinação descreve melhor a função integrada do citoesqueleto para permitir avanço, direcionamento interno e suporte mecânico?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A migração depende de protrusão e tração por actina+miosina, enquanto microtúbulos organizam e direcionam o transporte interno. Filamentos intermediários atuam como cabos resistentes, ajudando a célula a suportar deformações e tração sem rasgar.

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Citologia do Zero: integração das organelas — tráfego vesicular e coordenação metabólica

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