O que são checkpoints do ciclo celular?
Checkpoints (pontos de checagem) são “portas de controle” que a célula usa para decidir se pode avançar para a próxima etapa do ciclo celular. A ideia central é simples: antes de dividir, a célula precisa confirmar que o DNA está íntegro, que a cópia do DNA foi concluída e que os cromossomos estão corretamente conectados ao maquinário que vai separá-los. Se algo estiver errado, a célula pode pausar para reparar, pode entrar em um estado de parada prolongada (sem prosseguir com a divisão) ou pode ativar apoptose (morte celular programada) para evitar que um erro perigoso seja transmitido às células-filhas.
Neste capítulo, vamos focar nos três checkpoints mais cobrados e mais úteis para entender prevenção de erros: G1/S, G2/M e o checkpoint do fuso (spindle checkpoint).
Checkpoint G1/S: a “catraca” antes de copiar o DNA
O que ele verifica
- Integridade do DNA: se há danos relevantes (quebras, lesões químicas) que tornariam arriscado iniciar a replicação.
- Condições gerais para a célula seguir: tamanho adequado, energia/nutrientes suficientes e sinais externos favoráveis (em muitos tecidos).
Por que isso importa
Copiar DNA danificado tende a “fixar” o problema: a lesão pode virar mutação estável após a replicação. Por isso, o checkpoint G1/S funciona como uma triagem: melhor reparar antes de duplicar do que duplicar um erro e distribuí-lo.
Passo a passo prático (como pensar esse checkpoint)
- Inspeção do DNA: a célula “detecta” se há dano significativo.
- Decisão: se o DNA está adequado, libera a entrada na fase de replicação; se não, bloqueia o avanço.
- Ação corretiva: ativa mecanismos de reparo e mantém a pausa.
- Desfecho: se o reparo resolve, a célula segue; se o dano é persistente/grave, pode ocorrer parada prolongada ou apoptose.
Box — O que acontece se o checkpoint G1/S falhar?
- Replicação de DNA danificado → aumento de mutações.
- Acúmulo de alterações genéticas ao longo de divisões sucessivas.
- Maior risco de instabilidade genômica, preparando o terreno para erros cromossômicos em divisões futuras.
Checkpoint G2/M: conferência final antes de entrar em mitose
O que ele verifica
- Replicação completa do DNA: todo o material genético deve estar duplicado.
- Integridade do DNA após a replicação: se surgiram danos durante a cópia (o que pode acontecer), a célula tenta corrigir antes de condensar cromossomos e separar cromátides.
Por que isso importa
Entrar em mitose com DNA incompleto ou com quebras aumenta a chance de separação desigual, perda de segmentos e formação de células-filhas com informação genética faltando ou reorganizada.
Passo a passo prático (como pensar esse checkpoint)
- Checagem de completude: a célula avalia se a duplicação terminou.
- Checagem de danos: procura sinais de DNA lesionado.
- Pausa para reparo: se houver problema, a entrada em mitose é bloqueada.
- Liberação: apenas quando a duplicação está completa e o DNA está em condição aceitável, a célula inicia a mitose.
Box — O que acontece se o checkpoint G2/M falhar?
- Entrada em mitose com DNA incompleto → cromossomos podem quebrar ou ser distribuídos de forma irregular.
- Quebras e rearranjos → podem gerar deleções/duplicações de regiões cromossômicas.
- Instabilidade cromossômica → aumenta a probabilidade de erros de segregação (incluindo não-disjunção) em ciclos seguintes.
Checkpoint do fuso (metáfase): garantindo a separação correta dos cromossomos
O que ele verifica
Este checkpoint atua durante a divisão nuclear, quando os cromossomos precisam estar corretamente conectados ao fuso mitótico para serem separados. Ele verifica principalmente:
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Ligação correta dos microtúbulos aos cinetócoros: cada cromossomo (mais precisamente, cada cromátide-irmã na mitose) deve estar preso ao fuso de modo apropriado.
- Alinhamento e tensão adequados: a conexão deve gerar uma “tensão” equilibrada, indicando que os lados opostos estão puxando corretamente.
Por que isso importa
Se um cromossomo não estiver bem preso, ele pode “ficar para trás” ou ir para o lado errado. O resultado pode ser não-disjunção (separação incorreta) e formação de células com cromossomos a mais ou a menos (aneuploidia).
Passo a passo prático (como pensar esse checkpoint)
- Montagem do fuso: microtúbulos se organizam e “procuram” cinetócoros.
- Captura: microtúbulos se ligam aos cinetócoros.
- Teste de qualidade: a célula avalia se todos os cromossomos estão presos de forma adequada e sob tensão correta.
- Correção: ligações incorretas tendem a ser desfeitas e refeitas até estabilizar.
- Liberação para separação: só quando todos estão corretamente conectados a célula permite a separação e migração para polos opostos.
Box — O que acontece se o checkpoint do fuso falhar?
- Não-disjunção → cromossomos (ou cromátides) podem ir juntos para a mesma célula-filha.
- Aneuploidia → uma célula-filha pode receber cromossomo extra e a outra ficar com falta.
- Mosaicismo (em tecidos) → diferentes células do mesmo organismo com números cromossômicos distintos, dependendo de quando o erro ocorreu.
- Instabilidade cromossômica → ciclos repetidos de segregação incorreta aumentam a variabilidade genética indesejada em células somáticas.
Como a célula evita a propagação de danos: parar, reparar ou eliminar
1) Sinais de parada (pausa do ciclo)
Quando um checkpoint detecta problema, a resposta mais imediata costuma ser interromper temporariamente o avanço. Essa pausa dá tempo para correções e evita que a célula “passe o erro adiante” por pressa de dividir.
| Checkpoint | Se detecta problema, a célula tende a… | Objetivo |
|---|---|---|
| G1/S | Não iniciar replicação | Evitar copiar DNA danificado |
| G2/M | Não iniciar mitose | Evitar dividir com DNA incompleto/danificado |
| Fuso | Não separar cromossomos ainda | Evitar segregação incorreta |
2) Reparo (corrigir antes de seguir)
Durante a pausa, a célula aciona sistemas de reparo do DNA (quando o problema é dano genético) ou mecanismos de correção de ligação do fuso (quando o problema é conexão inadequada dos cromossomos). Não é necessário decorar vias moleculares: o ponto-chave é que o checkpoint compra tempo para que a correção aconteça.
3) Apoptose (quando o risco é alto)
Se o dano é muito extenso ou não pode ser corrigido com segurança, a célula pode ativar apoptose. Isso funciona como uma medida de proteção do organismo: é preferível perder uma célula do que permitir que ela se divida carregando alterações graves que podem comprometer o tecido.
Exemplos práticos para fixar
Exemplo 1: dano no DNA antes da replicação
Imagine que uma célula sofreu uma lesão no DNA por um agente químico. No checkpoint G1/S, ela tende a parar antes de iniciar a cópia. Se o reparo ocorrer, a replicação segue com menor risco de mutações permanentes.
Exemplo 2: replicação incompleta
Se por falta de recursos ou por estresse celular a duplicação do DNA não termina, o checkpoint G2/M impede a entrada em mitose. Isso reduz a chance de cromossomos quebrados e distribuição desigual de material genético.
Exemplo 3: cromossomo mal conectado ao fuso
Durante a metáfase, um cromossomo pode estar preso de forma incorreta (por exemplo, sem a tensão adequada). O checkpoint do fuso mantém a célula “travada” até que a ligação seja corrigida. Se esse controle falhar, aumenta o risco de não-disjunção e aneuploidia.