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Criptografia Aplicada para Profissionais: o que usar, quando e por quê

Novo curso

22 páginas

Checklist de decisão e padrões recomendados para adoção consistente

Capítulo 22

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Por que um checklist de decisão é necessário

Em organizações reais, a maior parte dos incidentes envolvendo criptografia não acontece por “falta de algoritmo forte”, e sim por inconsistência: times diferentes adotam padrões distintos, bibliotecas diferentes, parâmetros diferentes, e cada projeto “reinventa” decisões que deveriam ser repetíveis. Um checklist de decisão serve para transformar escolhas criptográficas em um processo operacional: previsível, auditável, com critérios claros de aceitação e com padrões recomendados que reduzem variação. O objetivo é que duas equipes, diante do mesmo cenário, cheguem a decisões equivalentes e compatíveis.

Este capítulo foca em como padronizar a adoção consistente: como decidir, como registrar, como validar e como manter. Não é um capítulo para reexplicar fundamentos de algoritmos, TLS, PKI, gestão de chaves ou armadilhas já cobertas; aqui, a ênfase é em governança técnica prática e em um conjunto de padrões recomendados para uso repetível.

Conceito: “decisão criptográfica” como artefato

Uma decisão criptográfica não é apenas “usar X”. Ela inclui: escopo (onde se aplica), requisitos (o que precisa garantir), dependências (bibliotecas, serviços, chaves), parâmetros (tamanhos, curvas, formatos), interoperabilidade (quem consome/produz), e operação (rotação, monitoramento, incidentes). Para adoção consistente, trate cada decisão como um artefato versionado, revisável e rastreável, semelhante a um padrão interno.

Componentes mínimos de um artefato de decisão

  • Contexto e escopo: sistema, fluxo, dados, fronteiras de confiança, integrações.
  • Requisitos não funcionais: performance, latência, custo, compatibilidade, restrições regulatórias.
  • Padrão escolhido: primitivo/algoritmo, formato, parâmetros, bibliotecas aprovadas.
  • Justificativa: por que esse padrão atende ao caso; por que alternativas foram descartadas.
  • Critérios de aceitação: testes, validações, linting, scanners, evidências.
  • Plano operacional: rotação, expiração, revogação, migração, observabilidade.
  • Riscos residuais: o que fica de fora e como mitigar.
  • Owner e revisão: responsável, periodicidade de revisão, gatilhos de atualização.

Checklist de decisão: passo a passo prático

A seguir, um passo a passo que pode ser aplicado em um ticket, ADR (Architecture Decision Record) ou documento de padrão interno. A ideia é que cada item gere uma resposta objetiva e verificável.

Passo 1 — Classifique o cenário de uso

Antes de escolher qualquer coisa, categorize o que você está tentando fazer. Isso evita “misturar” soluções.

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  • Transporte: proteger comunicação entre componentes.
  • Armazenamento: proteger dados persistidos (banco, arquivo, objeto, backup).
  • Identidade e autenticação: provar quem é quem (usuário, serviço, dispositivo).
  • Integridade/assinatura: provar que algo não foi alterado e/ou foi produzido por um emissor.
  • Tokenização/representação: representar permissões/identidade/dados de forma compacta e verificável.
  • Derivação/segredo: produzir chaves/segredos a partir de material base (ex.: senha, chave mestre).

Regra prática: se o cenário envolve mais de uma categoria, separe em decisões menores. Exemplo: “API pública” normalmente envolve transporte (TLS), autenticação (tokens/certificados) e integridade (assinatura de artefatos ou mensagens). Cada uma deve ter seu padrão.

Passo 2 — Defina o perfil de interoperabilidade

Interoperabilidade determina formatos e restrições. Perguntas de checklist:

  • Quem são os consumidores/produtores (serviços internos, parceiros, apps mobile, dispositivos)?
  • Há legados que limitam versões/protocolos?
  • O formato precisa ser padronizado (ex.: JOSE, CMS, OpenPGP) ou pode ser interno?
  • Há necessidade de verificação offline (sem chamar um servidor)?

Exemplo prático: se você precisa que um parceiro valide assinaturas em múltiplas linguagens, um formato padronizado e bibliotecas amplamente suportadas reduzem risco de implementação divergente.

Passo 3 — Escolha um “perfil padrão” (baseline) e só então ajuste

Para consistência, defina perfis padrão por categoria (transporte, armazenamento, assinatura, tokens). O checklist aqui é: “Existe um perfil padrão aprovado que cobre este caso?” Se sim, use-o sem alterações. Se não, proponha um novo perfil e registre.

Perfis padrão devem ser poucos e bem documentados. Muitos perfis viram “cardápio” e perdem o objetivo.

Passo 4 — Fixe parâmetros e formatos (não deixe implícito)

Mesmo quando o algoritmo é “o mesmo”, parâmetros diferentes quebram compatibilidade e auditoria. Checklist:

  • Tamanhos, curvas, versões, formatos de chave, encoding (PEM/DER/JWK), serialização (JSON/CBOR), canonicalização.
  • Regras de validação: o que rejeitar (ex.: chaves fracas, parâmetros fora do perfil).
  • Compatibilidade de bibliotecas: quais versões mínimas são suportadas.

Exemplo prático: se um token é JSON, defina canonicalização e ordenação de campos quando houver assinatura, para evitar falhas de verificação entre linguagens.

Passo 5 — Defina limites de tempo e rotação como parte do padrão

Consistência exige que “tempo” seja padronizado: validade, expiração, janelas de aceitação, e rotação. Checklist:

  • Qual a validade máxima de credenciais/tokens/artefatos?
  • Qual o período de rotação e o período de sobreposição (dual-read/dual-verify)?
  • Como lidar com relógio incorreto (clock skew) e replays?

Exemplo prático: para tokens de acesso, padronize TTL curto e refresh controlado; para chaves de assinatura, padronize rotação com publicação antecipada de chave pública e janela de verificação de versões anteriores.

Passo 6 — Defina critérios de implementação segura e revisão

Checklist de implementação:

  • Bibliotecas aprovadas e proibidas (por linguagem), com versões mínimas.
  • Uso obrigatório de APIs de alto nível (evitar “montagem manual” de primitivas).
  • Tratamento de erros: falhar fechado (fail-closed), mensagens de erro sem vazamento.
  • Testes: vetores de teste, testes de interoperabilidade, testes negativos (inputs inválidos).
  • Revisão: security review obrigatório para exceções ao padrão.

Exemplo prático: para uma assinatura em mensagens, exija testes que alterem 1 byte do payload e confirmem falha de verificação; exija também teste com chave errada e com algoritmo/“kid” inesperado.

Passo 7 — Defina observabilidade e evidências

Sem evidência, não há consistência. Checklist:

  • Quais eventos serão logados (sem segredos): falha de verificação, expiração, algoritmo não permitido, versão de chave desconhecida.
  • Métricas: taxa de falhas de validação, uso por versão de chave, tentativas de downgrade, rejeições por política.
  • Alertas: picos de falha, uso de versão descontinuada, expiração próxima.

Exemplo prático: se você migra um padrão de token, acompanhe a métrica “% de tokens verificados por versão” para saber quando é seguro desativar a versão antiga.

Padrões recomendados: como estruturar um “Crypto Standard” interno

Em vez de listar dezenas de algoritmos, uma abordagem consistente é publicar um padrão interno com seções fixas e perfis. Abaixo está um modelo de estrutura e recomendações de conteúdo, para que a organização tenha um “manual de referência” que evolui com versionamento.

1) Matriz de perfis (por categoria)

Crie uma matriz curta com perfis aprovados. Cada perfil deve ter: nome, uso recomendado, bibliotecas aprovadas, parâmetros fixos, e critérios de validação. Exemplo de estrutura (não é uma lista exaustiva de algoritmos, e sim um formato de padronização):

Perfil: Transporte-Interno-Padrão v1  | Uso: tráfego serviço-a-serviço interno | Requisitos: mTLS, validação estrita, pinning opcional por ambiente | Evidências: scanner de configuração + testes de handshake negativos
Perfil: Token-Acesso-Padrão v1       | Uso: autorização entre serviços e apps | Requisitos: TTL máximo, audience, issuer, key rotation | Evidências: testes de validação + métricas de versão
Perfil: Assinatura-Artefatos v1      | Uso: build/release | Requisitos: assinatura obrigatória, verificação no deploy | Evidências: logs de verificação + policy-as-code

O ganho aqui é que o time escolhe um perfil, não “um conjunto de opções”. Exceções viram novos perfis ou adendos, com revisão.

2) Catálogo de formatos e serialização

Padronize formatos para reduzir divergência:

  • Chaves: formatos aceitos (ex.: PEM/DER/JWK), regras de armazenamento e transporte.
  • Tokens: formato e campos obrigatórios, regras de canonicalização, limites de tamanho.
  • Assinaturas: envelope, metadados, identificação de chave (kid), versionamento.
  • Metadados de criptografia: como registrar versão de perfil, versão de chave, algoritmo permitido, data de criação.

Exemplo prático: para dados criptografados em repouso em formato próprio, defina um cabeçalho fixo com: versão do esquema, identificador de chave, algoritmo do perfil, e parâmetros necessários para decriptação. Isso evita “adivinhar” como decriptar no futuro.

3) Política de compatibilidade e descontinuação

Consistência ao longo do tempo exige regras de migração:

  • Compatibilidade retroativa: por quanto tempo versões antigas são aceitas (verificação) após rotação/migração.
  • Descontinuação: como anunciar e remover suporte a versões antigas.
  • Janela de migração: métricas que determinam “pronto para cortar” (ex.: <1% de uso por 30 dias).
  • Exceções: processo formal com prazo e owner.

Exemplo prático: ao mudar o perfil de token, mantenha verificação de duas versões por um período definido e registre no padrão a data limite para aceitar a versão antiga.

4) Padrão de “policy-as-code” para validação automática

Para adoção consistente, transforme regras em validações automáticas sempre que possível. Checklist do que automatizar:

  • Validação de configurações (ex.: parâmetros permitidos, versões mínimas).
  • Checagem de dependências (bibliotecas proibidas, versões vulneráveis).
  • Validação de pipelines (ex.: artefato só promove se assinatura verificada).
  • Testes de interoperabilidade em CI (ex.: gerar token em linguagem A e validar em linguagem B).

Exemplo prático: um repositório de “regras criptográficas” pode fornecer um pacote reutilizável que falha o build se detectar uso de um perfil descontinuado ou parâmetros fora do padrão.

Checklist operacional para adoção consistente (para times e revisores)

Use esta lista como “Definition of Done” para mudanças que envolvem criptografia. Ela é intencionalmente prática e verificável.

Checklist de design

  • O caso de uso foi classificado (transporte/armazenamento/identidade/assinatura/token/derivação)?
  • Foi escolhido um perfil padrão existente? Se não, foi criado um novo perfil com revisão?
  • Interoperabilidade foi definida (quem consome/produz, formatos, versões)?
  • Parâmetros e formatos foram fixados (sem defaults implícitos)?
  • Há estratégia de versionamento (perfil e esquema de dados)?

Checklist de implementação

  • Biblioteca aprovada e versão mínima documentadas.
  • APIs de alto nível usadas; primitivas não foram “combinadas manualmente” sem justificativa.
  • Validações estritas implementadas (rejeitar algoritmo inesperado, chave desconhecida, versão inválida).
  • Testes positivos e negativos cobrindo: dados alterados, metadados alterados, expiração, chave errada, versão antiga.
  • Erros não vazam detalhes sensíveis; falhas são fail-closed.

Checklist de operação

  • Rotação e expiração definidas (com janela de sobreposição e rollback).
  • Observabilidade definida: logs (sem segredos), métricas e alertas.
  • Runbook de incidentes: o que fazer em caso de comprometimento de chave, falha massiva de validação, ou incompatibilidade.
  • Plano de migração e descontinuação com datas e critérios.

Exemplos práticos de aplicação do checklist

Exemplo 1 — Padronizar tokens entre múltiplos serviços

Cenário: vários serviços internos em linguagens diferentes emitem e validam tokens. Problemas recorrentes: campos inconsistentes, validação parcial, e migrações dolorosas.

  • Passo 1 (classificação): tokenização/identidade/autorização.
  • Passo 2 (interoperabilidade): precisa funcionar em pelo menos 3 linguagens; validação offline em alguns serviços.
  • Passo 3 (perfil): adotar “Token-Acesso-Padrão v1”.
  • Passo 4 (parâmetros): definir campos obrigatórios (issuer, audience, subject, exp, iat, jti), regras de validação (audience exata, exp obrigatório, clock skew máximo), e identificação de chave (kid obrigatório).
  • Passo 5 (tempo): TTL máximo padronizado; refresh via fluxo específico; rejeitar tokens sem exp.
  • Passo 6 (implementação): bibliotecas aprovadas por linguagem; testes de interoperabilidade (emitir em A, validar em B e C); testes negativos (algoritmo inesperado, kid ausente).
  • Passo 7 (observabilidade): métrica de falhas por motivo (expirado, audience inválida, assinatura inválida, kid desconhecido) e painel de migração por versão.

Resultado esperado: redução de variação entre serviços e migrações controladas via versionamento e métricas.

Exemplo 2 — Criptografia de payload em mensageria com versionamento de esquema

Cenário: mensagens em um tópico precisam ser protegidas e consumidas por múltiplos consumidores ao longo do tempo. O problema típico é perder a capacidade de decriptar mensagens antigas após mudanças.

  • Passo 1: armazenamento/transporte de mensagens (na prática, proteção de payload persistido no broker e em replays).
  • Passo 3: adotar “Payload-Protegido-Padrão v1”.
  • Passo 4: definir envelope com cabeçalho: versão do esquema, id da chave, algoritmo do perfil, timestamp, e campos necessários para validação/decriptação.
  • Passo 5: definir retenção e compatibilidade: consumidores devem suportar N versões do envelope; produtores sempre emitem a versão mais nova.
  • Passo 6: testes de compatibilidade: consumidor v2 deve ler mensagens v1; testes negativos alterando cabeçalho e payload.
  • Passo 7: métricas: % de mensagens por versão; alertas quando versão antiga ainda aparece após data de corte.

Resultado esperado: migração previsível e capacidade de auditoria do que está em produção.

Como lidar com exceções sem perder consistência

Exceções são inevitáveis (legado, parceiro, restrição de hardware). O problema é quando exceção vira regra informal. Padronize o processo:

  • Exceção precisa de prazo: data de expiração e plano de migração.
  • Exceção precisa de owner: responsável por manter e remover.
  • Exceção precisa de compensações: controles adicionais (monitoramento, limitação de escopo, segmentação).
  • Exceção precisa de rastreabilidade: ticket/ADR, revisão de segurança, e registro no inventário de padrões.

Exemplo prático: um parceiro exige um formato específico. Em vez de permitir “qualquer formato” no sistema, crie um perfil “Integração-Parceiro-X v1” com escopo restrito, gateway dedicado e métricas de uso, e mantenha o restante da plataforma no perfil padrão.

Template reutilizável (copie e preencha)

Use o template abaixo para registrar decisões e garantir que nada essencial fique implícito:

Nome da decisão/perfil: ____________________________  Versão: ________________  Data: ________________  Owner: ____________________

1) Escopo
- Sistemas/fluxos: ________________________________________________
- Produtores/consumidores: ________________________________________
- Dados envolvidos: _______________________________________________

2) Categoria do caso de uso
- ( ) Transporte  ( ) Armazenamento  ( ) Identidade  ( ) Assinatura  ( ) Token  ( ) Derivação

3) Perfil adotado
- Perfil padrão existente? ( ) Sim ( ) Não
- Nome do perfil: _________________________________________________
- Exceções necessárias: ___________________________________________

4) Parâmetros e formatos fixos
- Formatos (chave/token/envelope): ________________________________
- Campos obrigatórios/metadados: __________________________________
- Regras de validação (rejeições): _________________________________

5) Tempo e ciclo de vida
- TTL/validade: __________________  Rotação: ______________________
- Janela de sobreposição: _________________________________________

6) Implementação
- Bibliotecas aprovadas e versões: _________________________________
- Testes (positivos/negativos/interoperabilidade): __________________

7) Operação e evidências
- Logs/métricas/alertas: __________________________________________
- Runbook e resposta a incidentes: _________________________________
- Plano de migração/descontinuação: ________________________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual é o principal benefício de tratar uma decisão criptográfica como um artefato versionado e rastreável em uma organização?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Correta: como artefato, a decisão inclui escopo, requisitos, parâmetros, critérios de aceitação e plano operacional, permitindo governança prática, revisão e rastreabilidade para reduzir inconsistência entre times.

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