Causas da Segunda Guerra Mundial: revisões territoriais, apaziguamento e expansão

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Como o pós-1919 abriu caminho para revisões e novas agressões

Depois de 1919, a Europa ficou com um mapa redesenhado e com regras novas para manter a paz. Na prática, vários países passaram a considerar essas regras injustas ou frágeis. Isso criou um ambiente em que “revisar fronteiras” (mudar o mapa) virou um objetivo político, e “testar limites” (ver até onde os outros deixariam) virou uma estratégia.

Três mecanismos que facilitaram a escalada

  • Reivindicações territoriais com base em “povos e fronteiras”: governos passaram a dizer que certas regiões deveriam “voltar” porque tinham população com a mesma língua/etnia. Esse argumento parecia razoável para parte da opinião pública, mas abria espaço para anexações forçadas.
  • Fragilidade da resposta coletiva: a ideia de segurança coletiva dependia de vários países agirem juntos e rápido. Quando a reação era lenta, dividida ou incerta, isso virava um incentivo para novas apostas agressivas.
  • Cálculo de risco: líderes expansionistas observavam: “Se eu avançar um pouco e ninguém reagir, avanço mais”. Cada crise resolvida sem custo real para o agressor aumentava a chance de uma próxima crise maior.

Exemplo prático: “teste de resistência” em política externa

Pense em um governo que quer mudar fronteiras. Em vez de começar por uma guerra total, ele costuma seguir um roteiro incremental: faz uma exigência, cria uma crise diplomática, mede a reação, e só então decide se recua ou se avança. Esse padrão aparece repetidamente na década de 1930.

Apaziguamento: conceito, por que foi adotado e seus limites

O que é apaziguamento (conceito claro)

Apaziguamento é uma política externa em que um país (ou grupo de países) tenta evitar guerra fazendo concessões ao país que está fazendo exigências, na esperança de que ele fique satisfeito e pare de avançar. Em termos simples: “ceder agora para não lutar depois”.

Por que foi adotado (motivos práticos)

  • Medo de outra guerra grande: a memória de destruição e perdas humanas ainda era muito recente, e a opinião pública tinha forte resistência a um novo conflito.
  • Tempo para rearmar: alguns governos viam as concessões como uma forma de ganhar tempo para fortalecer forças armadas e preparar a economia.
  • Crise econômica e prioridades internas: havia pressão para gastar com recuperação e emprego, não com mobilização militar.
  • Percepção de “reivindicações plausíveis”: certas demandas eram apresentadas como correções “limitadas” do mapa, o que facilitava aceitá-las diplomaticamente.
  • Divisões entre aliados: quando países que deveriam agir juntos discordam sobre o que fazer, a saída mais fácil vira negociar e adiar decisões duras.

Passo a passo: como o apaziguamento costuma funcionar na prática

  1. O agressor cria uma crise (ameaça, ultimato, mobilização, propaganda sobre “injustiça”).
  2. As potências tentam negociar para evitar combate imediato.
  3. Oferecem concessões (território, reconhecimento político, flexibilização de regras).
  4. Assinam um acordo apresentado como “solução final” para aquela disputa.
  5. O agressor interpreta a concessão como sinal de fraqueza e mede a falta de punição.
  6. Nova exigência aparece, geralmente maior, porque o custo anterior foi baixo.

Limites e consequências

  • Problema central: o apaziguamento só funciona se a outra parte realmente quiser parar após obter algo específico. Se o objetivo for expansão contínua, a concessão vira combustível.
  • Efeito “bola de neve”: cada concessão muda o equilíbrio estratégico (mais território, recursos, posições militares), tornando o agressor mais forte para a próxima etapa.
  • Perda de credibilidade: ameaças futuras de reação ficam menos críveis, porque o histórico mostra recuos anteriores.
  • Desmoralização e insegurança de países menores: estados ameaçados passam a duvidar de garantias e podem buscar soluções próprias (acordos forçados, neutralidade, rearmamento acelerado).

Sequência de expansões e anexações: linha do tempo e decisões estratégicas

A escalada até a guerra não foi um “salto” único, mas uma sequência de movimentos políticos e estratégicos. Abaixo, uma linha do tempo com foco no que foi decidido, por que foi importante e como aumentou a tensão.

DataEvento (expansão/anexação)Decisão política/estratégicaPor que aumentou a tensão
1931Japão ocupa a ManchúriaUso de força para garantir recursos e posição estratégica no leste asiáticoMostrou que agressões poderiam ocorrer sem resposta eficaz e imediata, enfraquecendo a ideia de segurança coletiva
1935–1936Itália invade a EtiópiaExpansão colonial para prestígio e controle; teste da reação internacionalSanções limitadas e falta de unidade reforçaram a percepção de que a punição seria administrável
1936Remilitarização da RenâniaMovimento calculado: recuperar posição militar em área estratégica e testar reaçãoAlterou o equilíbrio militar na Europa Ocidental e sinalizou que acordos poderiam ser desafiados com baixo custo
1936–1939Guerra Civil Espanhola (intervenções externas)Uso do conflito como laboratório de táticas, armas e alianças; disputa de influênciaAumentou polarização e experiência militar, além de aproximar regimes por cooperação prática
Março de 1938Anschluss (anexação da Áustria)Unificação forçada e ganho territorial sem guerra aberta contra grandes potênciasReforçou a ideia de que anexações rápidas poderiam ser “normalizadas” diplomaticamente
Setembro de 1938Crise dos Sudetos e Acordo de MuniqueConcessão territorial para evitar guerra imediata; promessa de “última reivindicação”O agressor ganhou posição estratégica e legitimidade; o apaziguamento mostrou seu limite quando a ambição não era limitada
Março de 1939Ocupação do restante da TchecoslováquiaPasso além de “reunir populações”: controle direto de um EstadoQuebrou a narrativa de reivindicações “apenas étnicas” e evidenciou projeto de expansão mais amplo
Março–Abril de 1939Pressão e anexação/controle sobre áreas estratégicas (ex.: Memel) e exigências à PolôniaBusca de corredor/posições e revisão de fronteiras por coerçãoElevou o risco de guerra generalizada porque atingiu um ponto em que concessões significariam colapso de soberania
Agosto de 1939Pacto de não agressão Alemanha–URSS (com protocolos secretos)Neutralizar risco de guerra em duas frentes e “organizar” esferas de influênciaRemoveu um grande obstáculo estratégico para a invasão da Polônia e redesenhou cálculos de reação europeia
1º de setembro de 1939Invasão da PolôniaDecisão de usar força total para impor revisão territorial e estratégicaAcionou garantias e compromissos; o conflito deixou de ser crise local e virou guerra europeia ampla

Como ler a linha do tempo (um “mapa mental” de decisões)

Para entender a escalada, observe três perguntas em cada etapa:

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  • O que o agressor ganhou? território, recursos, posição militar, prestígio, tempo.
  • Qual foi o custo imediato? sanções, isolamento, risco militar, ou quase nenhum.
  • O que mudou para a próxima crise? se o ganho foi alto e o custo baixo, a próxima exigência tende a ser maior.

Decisões políticas e estratégicas por trás da escalada

1) Estratégia incremental: “fatiar o problema”

Em vez de declarar guerra total de início, a expansão ocorreu por etapas que pareciam “administráveis” para quem queria evitar conflito. Cada etapa era apresentada como exceção, correção ou caso especial. Isso dificultava uma reação firme e unificada.

2) Uso de propaganda e plebiscitos/pressão interna

Reivindicações territoriais foram frequentemente justificadas com argumentos de proteção de minorias, unidade nacional ou injustiças do mapa. Mesmo quando havia apoio local real, a presença de coerção, ameaça militar e controle de informação distorcia a ideia de “escolha livre”.

3) Cálculo de alianças e neutralizações

Antes de movimentos maiores, buscou-se reduzir riscos: garantir neutralidade de um possível adversário, dividir potenciais coalizões e criar incerteza sobre quem realmente lutaria. A diplomacia, nesse sentido, funcionou como preparação estratégica para a guerra.

4) O ponto de ruptura do apaziguamento

Quando a expansão passou de “revisões pontuais” para controle direto de Estados e exigências que ameaçavam a soberania de vizinhos, o apaziguamento perdeu espaço. A crise deixou de ser sobre ajustar fronteiras e passou a ser sobre aceitar ou não um padrão de agressão contínua.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Por que a política de apaziguamento tende a falhar quando o objetivo do agressor é a expansão contínua?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando o agressor quer continuar expandindo, concessões não encerram a disputa: elas aumentam seu poder e mostram que o custo da agressão é baixo. Isso incentiva novas crises e exigências maiores, reduzindo a credibilidade de futuras ameaças de reação.

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