Baço: anatomia, hilo, vascularização e funções imunes

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Posição, orientação e marcos anatômicos

O baço é um órgão linfóide secundário altamente vascularizado, situado no hipocôndrio esquerdo, geralmente sob a proteção das costelas 9ª a 11ª, com seu eixo maior acompanhando aproximadamente o trajeto da 10ª costela. Em condições normais, não é palpável; quando aumenta (esplenomegalia), pode ultrapassar o rebordo costal esquerdo e tornar-se acessível ao exame físico.

Para orientar o estudo anatômico e a leitura de imagens (TC/US), é útil pensar no baço como uma estrutura com duas faces (diafragmática e visceral), duas extremidades (anterior e posterior) e bordas (superior e inferior). A borda superior costuma apresentar entalhes (incisuras esplênicas), um marco clássico para identificação e para diferenciar o baço de massas adjacentes.

Diagrama mental (superfícies, bordas e impressões)

  • Face diafragmática: convexa, lisa, voltada para o diafragma e parede torácica esquerda.
  • Face visceral: irregular, com impressões de órgãos vizinhos e o hilo esplênico.
  • Borda superior: com incisuras; referência em trauma e palpação.
  • Borda inferior: mais arredondada, relacionada ao cólon.

Relações anatômicas no hipocôndrio esquerdo

As relações do baço explicam tanto suas impressões viscerais quanto vias de acesso cirúrgico e padrões de lesão em trauma. Na face visceral, destacam-se as seguintes relações:

  • Estômago: relação pela impressão gástrica; o baço conecta-se ao estômago pelo ligamento gastroesplênico.
  • Rim esquerdo: relação póstero-medial (impressão renal), importante em abordagens posteriores e na interpretação de dor referida.
  • Cauda do pâncreas: situa-se próxima ao hilo; essa proximidade é crítica em esplenectomia, pois a cauda pancreática pode ser lesionada ao controlar vasos esplênicos.
  • Cólon (flexura esplênica): relação inferior (impressão cólica), relevante em distensão colônica e em mobilização cirúrgica.

Ligamentos peritoneais relevantes

O baço é intraperitoneal e é sustentado por pregas peritoneais que também conduzem vasos:

  • Ligamento gastroesplênico: entre curvatura maior do estômago e baço; conduz vasos gástricos curtos e, frequentemente, a artéria gastro-omental esquerda (dependendo da descrição anatômica adotada).
  • Ligamento esplenorrenal (lienorrenal): entre baço e rim esquerdo; conduz os vasos esplênicos e costuma abrigar a cauda do pâncreas em sua proximidade.

Na prática, esses ligamentos são “corredores” anatômicos: ao entender o que passa por eles, você antecipa onde estarão vasos a serem controlados e estruturas a serem preservadas.

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Hilo esplênico: conceito e organização

O hilo esplênico é uma área alongada na face visceral onde entram e saem estruturas vasculares e nervosas. Diferente de muitos linfonodos (que têm hilo para vasos linfáticos e sanguíneos), no baço o hilo é dominado por vasos sanguíneos (artéria e veia esplênicas) e por vasos linfáticos eferentes (o baço não recebe linfa por vasos aferentes como um linfonodo típico).

No hilo, a artéria esplênica se ramifica em ramos segmentares, e a veia esplênica coleta o retorno venoso. A disposição pode variar, mas a ideia funcional é constante: o hilo é a “porta” para a circulação esplênica e para a saída da linfa produzida no órgão.

Vascularização: trajetos e pontos de atenção

Artéria esplênica (trajeto e ramos)

A artéria esplênica é um ramo do tronco celíaco e segue um trajeto tipicamente tortuoso ao longo da borda superior do pâncreas, dirigindo-se ao hilo. Essa tortuosidade é um detalhe útil em imagem e em cirurgia: ajuda a reconhecer o vaso e também influencia a técnica de dissecção.

Ao aproximar-se do hilo, a artéria esplênica costuma dividir-se em ramos segmentares. Clinicamente, isso é importante porque o baço tem uma segmentação vascular relativamente definida: lesões ou ligaduras podem comprometer segmentos específicos, e em alguns cenários selecionados considera-se preservação parcial (esplenectomia parcial), quando viável.

Veia esplênica (trajeto e drenagem)

A veia esplênica emerge do hilo e segue geralmente posterior ao pâncreas. Ela recebe tributárias (incluindo veias gástricas curtas e outras veias relacionadas) e participa da formação do sistema porta ao unir-se à veia mesentérica superior (variações existem). A proximidade com o pâncreas reforça o cuidado ao mobilizar o baço: tração excessiva pode tensionar estruturas pancreáticas e venosas.

Passo a passo prático: como “seguir” os vasos do baço em imagem (TC/US)

  1. Localize o baço no hipocôndrio esquerdo, sob as costelas, identificando a face diafragmática convexa.
  2. Vá para a face visceral e procure uma área linear/alongada: o hilo.
  3. Identifique a artéria esplênica como um vaso tortuoso vindo do tronco celíaco e correndo junto ao pâncreas em direção ao hilo.
  4. Identifique a veia esplênica posterior ao pâncreas, coletando sangue do hilo e seguindo para a confluência portal.
  5. Cheque a cauda do pâncreas próxima ao hilo: é um marco para risco de lesão em procedimentos e para interpretar coleções/hematomas.

Drenagem linfática do baço

A drenagem linfática esplênica acompanha principalmente os vasos sanguíneos que saem pelo hilo. Os vasos linfáticos eferentes do baço dirigem-se aos linfonodos pancreatoesplênicos (ao longo dos vasos esplênicos) e, a partir deles, para os linfonodos celíacos. Esse caminho é relevante para entender padrões de disseminação de processos inflamatórios e neoplásicos do território esplênico e adjacências.

Passo a passo prático: raciocínio de drenagem

  1. Comece no hilo: a linfa sai do baço acompanhando vasos esplênicos.
  2. Primeira estação: linfonodos pancreatoesplênicos.
  3. Estação seguinte: linfonodos celíacos.
  4. Aplicação: ao avaliar linfonodomegalias abdominais superiores, correlacione aumento de linfonodos pancreatoesplênicos/celíacos com possíveis processos no baço e em estruturas intimamente relacionadas (estômago, pâncreas, etc.).

Microanatomia funcional: como o baço filtra sangue e coordena imunidade

O baço atua como um “filtro” do sangue (não da linfa), removendo hemácias envelhecidas/lesadas e participando de respostas imunes contra antígenos circulantes. Para conectar estrutura e função, foque em três compartimentos: polpa branca, zona marginal e polpa vermelha.

Polpa branca (imunidade adaptativa no sangue)

A polpa branca é tecido linfóide organizado ao redor de arteríolas, formando bainhas linfóides periarteriolares (ricas em linfócitos T) e folículos (ricos em linfócitos B). Quando antígenos circulantes chegam, células apresentadoras de antígeno e linfócitos interagem aqui, promovendo ativação e produção de anticorpos.

Zona marginal (interface de captura de antígenos)

A zona marginal circunda a polpa branca e funciona como uma área de “triagem”: é rica em macrófagos e células especializadas que capturam partículas e microrganismos do sangue. Ela é crucial para respostas rápidas a antígenos sanguíneos, conectando a chegada do antígeno à ativação de linfócitos na polpa branca.

Polpa vermelha (filtragem mecânica e remoção de hemácias)

A polpa vermelha contém cordões celulares e sinusoides por onde o sangue precisa passar. Hemácias com baixa deformabilidade (envelhecidas ou danificadas) têm dificuldade em atravessar esse microambiente e são removidas por macrófagos. Esse mecanismo explica por que alterações na função esplênica podem impactar a qualidade do sangue circulante.

Conectando fluxo sanguíneo e função (roteiro funcional)

  • Entrada: sangue chega por ramos arteriais até arteríolas centrais associadas à polpa branca.
  • Triagem imune: antígenos são capturados na zona marginal e apresentados, ativando linfócitos na polpa branca.
  • Filtragem: o sangue segue para a polpa vermelha, onde ocorre remoção de células sanguíneas alteradas e reciclagem de componentes.

Diagramas orientadores: superfícies, bordas e impressão visceral (para estudo e prática)

Mapa de relações na face visceral (impressões)

Região da face visceralImpressão/contato principalRelevância prática
Antero-medialEstômagoVasos gástricos curtos no gastroesplênico; risco de sangramento ao mobilizar curvatura maior
Póstero-medialRim esquerdoReferência em imagem; cuidado em dissecções posteriores
Medial (próximo ao hilo)Cauda do pâncreasRisco de lesão pancreática em esplenectomia; atenção a fístula pancreática
InferiorFlexura esplênica do cólonMobilização colônica pode ser necessária para acesso; distensão pode alterar posição

Checklist anatômico rápido (marcos que você deve localizar)

  • Incisuras na borda superior (identificação do órgão).
  • Hilo na face visceral (entrada/saída vascular).
  • Ligamento gastroesplênico (ponte com estômago; vasos gástricos curtos).
  • Ligamento esplenorrenal (ponte com rim; vasos esplênicos e proximidade da cauda pancreática).
  • Flexura esplênica do cólon inferiormente.

Pontos anatômicos relevantes para trauma e esplenectomia

Trauma esplênico: por que é frequente e onde observar

O baço é vulnerável em traumas do hemitórax/abdome superior esquerdo por ser friável e muito vascularizado, apesar da proteção costal. Em trauma, procure correlação entre dor no quadrante superior esquerdo, sinais de irritação peritoneal e achados de imagem como hematoma subcapsular, lacerações e líquido livre.

Marcos úteis:

  • Face diafragmática sob costelas 9–11: impacto lateral pode transmitir força ao baço.
  • Hilo: lesões próximas podem envolver vasos de maior calibre, elevando risco de hemorragia.
  • Relação com cauda do pâncreas: hematomas podem se estender e confundir origem pancreática/esplênica.

Esplenectomia: roteiro anatômico de segurança (passo a passo conceitual)

O objetivo aqui é entender a lógica anatômica do procedimento, destacando estruturas a identificar e proteger:

  1. Reconhecer o baço e suas bordas: identificar a borda superior com incisuras e a face visceral com o hilo.
  2. Mobilizar com base nos ligamentos: liberar o gastroesplênico (atenção aos vasos gástricos curtos) e o esplenorrenal (atenção aos vasos esplênicos e à cauda do pâncreas).
  3. Controlar vasos no hilo: identificar ramos arteriais e venosos; lembrar que a segmentação pode gerar múltiplos ramos.
  4. Proteger a cauda do pâncreas: manter dissecção cuidadosa próxima ao hilo e evitar tração excessiva.
  5. Revisar hemostasia: por ser órgão muito vascular, pequenos ramos podem sangrar após mobilização.

Em qualquer abordagem, a compreensão do hilo e dos ligamentos como “vias de passagem” é o que mais reduz risco de sangramento e lesão pancreática.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar uma esplenectomia, qual combinação de ligamentos e estruturas associadas deve receber atenção prioritária para reduzir risco de sangramento e lesão da cauda do pâncreas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O gastroesplênico conduz vasos gástricos curtos (risco de sangramento) e o esplenorrenal conduz vasos esplênicos e fica próximo à cauda do pâncreas, que pode ser lesionada durante a mobilização e controle do hilo.

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