Arquitetura de mensagens é a forma como você organiza, prioriza e encadeia informações em um texto curto para que a pessoa entenda rapidamente: (1) o que está acontecendo, (2) o que isso significa para ela e (3) o que fazer a seguir. Em microcopy, a arquitetura não é “enfeite”: ela define a ordem de leitura, reduz esforço cognitivo e evita que detalhes importantes fiquem escondidos em frases secundárias.
Hierarquia de informação é a tradução prática dessa arquitetura: quais elementos aparecem primeiro, quais ficam como suporte, quais são opcionais e quais devem ser adiados para outro momento. Em interfaces, a hierarquia é percebida em segundos, então a ordem das frases, a presença de rótulos, o uso de listas e a separação entre mensagem principal e detalhes fazem diferença direta na taxa de conclusão de tarefas.
O que compõe uma boa arquitetura de mensagens
1) Mensagem principal (o “headline” do estado)
É a frase que resume o estado atual. Ela deve ser suficiente para a pessoa entender o que aconteceu sem precisar ler o resto. Em telas de erro, é o “problema”. Em onboarding, é o “próximo passo”. Em confirmação, é o “resultado”.
- Erro: “Não foi possível salvar suas alterações.”
- Sucesso: “Pagamento aprovado.”
- Onboarding: “Conecte sua conta para continuar.”
2) Contexto (por que isso aconteceu / o que está faltando)
É a camada que responde “por quê?” ou “o que está impedindo?”. O contexto deve ser curto e diretamente ligado ao estado. Ele evita interpretações erradas e reduz tentativas aleatórias.
- “Sua sessão expirou e precisamos que você entre novamente.”
- “Falta confirmar seu e-mail para liberar o acesso.”
3) Impacto e risco (o que muda para a pessoa)
Nem toda mensagem precisa de impacto, mas quando há risco (perda de dados, cobrança, bloqueio, privacidade), explicitar a consequência ajuda a pessoa a decidir com segurança. O impacto deve ser objetivo e, quando possível, quantificado.
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
- “Se você sair agora, suas alterações não salvas serão perdidas.”
- “Este arquivo ficará visível para qualquer pessoa com o link.”
4) Ação primária (o que fazer agora)
É a instrução que resolve o estado com o menor atrito. A ação primária deve estar próxima da mensagem principal e ser formulada como um próximo passo claro. Quando houver botão, o texto do botão e o texto da instrução precisam se reforçar, não competir.
- Mensagem: “Sua sessão expirou.” Ação: “Entrar novamente”
- Mensagem: “Falta confirmar seu e-mail.” Ação: “Reenviar confirmação”
5) Ações secundárias (alternativas e saídas)
São rotas alternativas: “tentar de novo”, “falar com suporte”, “voltar”, “salvar como rascunho”. A hierarquia aqui é crítica: alternativas demais no mesmo nível da ação primária geram indecisão. A regra prática é: uma ação principal, no máximo duas secundárias, e o restante como link discreto ou texto de ajuda.
6) Detalhes e evidências (para quem precisa)
Inclui IDs, códigos de erro, limites, requisitos, exemplos de formato, e informações técnicas. Esses elementos devem ficar “abaixo” na hierarquia (em texto menor, bloco separado, acordeão, ou linha final), para não atrapalhar quem só quer resolver.
- “Código do erro: 403”
- “Tamanho máximo: 10 MB”
- “Formato aceito: PDF, PNG”
Modelos de hierarquia que funcionam em microcopy
Modelo A: Estado → Causa → Próximo passo
Útil para erros simples e bloqueios.
- Estado: “Não foi possível concluir o envio.”
- Causa: “O arquivo excede 10 MB.”
- Próximo passo: “Escolha um arquivo menor ou compacte o arquivo.”
Modelo B: Resultado → O que acontece agora → Controle
Útil para confirmações e pós-ação (pagamentos, cadastros, solicitações).
- Resultado: “Solicitação enviada.”
- Agora: “Você receberá uma resposta em até 2 dias úteis.”
- Controle: “Acompanhar solicitação” / “Voltar ao início”
Modelo C: Recomendação → Benefício → Esforço/tempo
Útil para onboarding e permissões, quando você precisa justificar um passo.
- Recomendação: “Ative a verificação em duas etapas.”
- Benefício: “Ela protege sua conta mesmo se sua senha vazar.”
- Esforço: “Leva cerca de 1 minuto.”
Modelo D: Aviso → Risco → Opções
Útil para ações destrutivas e privacidade.
- Aviso: “Excluir este projeto?”
- Risco: “Isso remove arquivos e comentários e não pode ser desfeito.”
- Opções: “Excluir projeto” (primária) / “Cancelar” (secundária)
Passo a passo prático para arquitetar uma mensagem
Passo 1: Defina o objetivo da mensagem em uma frase
Antes de escrever, responda: “O que eu quero que a pessoa faça ou entenda ao final?” Se você não consegue resumir, a mensagem provavelmente está tentando fazer coisas demais.
- Objetivo: “Fazer a pessoa entrar novamente sem perder o contexto.”
- Objetivo: “Fazer a pessoa corrigir o campo com formato inválido.”
- Objetivo: “Fazer a pessoa escolher um plano sem medo de cobrança inesperada.”
Passo 2: Identifique o tipo de estado
Classifique a situação, porque cada tipo pede uma hierarquia diferente.
- Bloqueio: impede continuar (ex.: sessão expirada).
- Erro recuperável: dá para corrigir e tentar de novo (ex.: campo inválido).
- Erro não recuperável: depende de suporte/sistema (ex.: falha no servidor).
- Confirmação: ação concluída (ex.: pedido criado).
- Alerta de risco: pode causar perda/impacto (ex.: exclusão).
- Orientação: instrução para avançar (ex.: onboarding).
Passo 3: Liste as perguntas que a pessoa fará (na ordem)
Uma forma prática de criar hierarquia é prever a sequência mental de dúvidas. Escreva as perguntas e responda com blocos curtos.
- “O que aconteceu?”
- “Por que aconteceu?”
- “O que eu faço agora?”
- “O que acontece se eu não fizer nada?” (quando relevante)
- “Como eu resolvo se isso continuar?” (fallback)
Passo 4: Escreva primeiro só os títulos dos blocos
Em vez de começar com frases completas, defina a estrutura. Isso evita textos longos e repetitivos.
Bloco 1: Estado (1 linha)
Bloco 2: Contexto (1 linha)
Bloco 3: Ação primária (verbo + objeto)
Bloco 4: Alternativa/ajuda (opcional)
Bloco 5: Detalhes técnicos (opcional)Passo 5: Preencha cada bloco com o mínimo necessário
Agora escreva as frases. Se um bloco ficar grande, ele está tentando carregar informação de outro bloco. Separe.
Exemplo (erro de login):
- Estado: “Não foi possível entrar.”
- Contexto: “E-mail ou senha incorretos.”
- Ação primária: “Tentar novamente”
- Alternativa: “Esqueci minha senha”
Passo 6: Ajuste a hierarquia visual com formatação textual
Mesmo sem falar de tipografia, você controla hierarquia com microestruturas: ordem, quebras em listas, rótulos e agrupamento. Use:
- Primeira frase forte (estado).
- Listas para requisitos e passos.
- Rótulos (“Dica:”, “Importante:”, “Opcional:”) para sinalizar prioridade.
- Última linha para detalhes técnicos.
Passo 7: Valide com um teste rápido de “leitura parcial”
Simule o comportamento real: a pessoa lê só a primeira linha e o botão. Pergunte: ela consegue agir corretamente? Se não, a mensagem principal está fraca ou a ação não está alinhada.
Regras práticas de hierarquia para diferentes áreas da interface
Em formulários: erro no campo vs erro no topo
Quando o problema é localizado (um campo), a hierarquia deve começar no próprio campo. O topo pode ter um resumo, mas a correção precisa estar onde a pessoa age.
Erro no campo (preferível):
- Rótulo do campo
- Mensagem curta de erro
- Exemplo de formato (se necessário)
Exemplo:
- “CPF”
- “Digite um CPF com 11 números.”
- “Ex.: 12345678901”
Erro no topo (quando há vários campos):
- “Revise os campos destacados.”
- Lista com links/nomes dos campos com erro (se aplicável)
Em onboarding: prioridade é reduzir incerteza e orientar sequência
Onboarding costuma falhar quando mistura explicação, benefício e instrução no mesmo nível. A hierarquia recomendada:
- Próximo passo: o que fazer agora.
- Motivo/benefício: por que vale a pena.
- Esforço: tempo, quantidade de etapas, o que será pedido.
- Alternativa: pular (se permitido) com consequências claras.
Exemplo (conectar conta):
- Próximo passo: “Conecte sua conta para importar seus dados.”
- Benefício: “Isso preenche automaticamente seus itens e economiza tempo.”
- Esforço: “Você fará login e autorizará o acesso.”
- Alternativa: “Fazer depois” (com nota: “Você pode conectar a qualquer momento em Configurações.”)
Em mensagens de sistema: diferencie falha temporária de bloqueio
Quando a falha é temporária (instabilidade, rede), a hierarquia deve reduzir ansiedade e oferecer uma ação simples. Quando é bloqueio (permissão, autenticação), a hierarquia deve apontar o requisito.
Falha temporária:
- Estado: “Não conseguimos carregar agora.”
- Contexto: “Pode ser uma instabilidade momentânea.”
- Ação: “Tentar novamente”
- Fallback: “Se continuar, verifique sua conexão.”
Bloqueio por permissão:
- Estado: “Você não tem acesso a este relatório.”
- Contexto: “Apenas administradores podem visualizar.”
- Ação: “Solicitar acesso”
- Detalhe: “Seu perfil atual: Colaborador.”
Técnicas para reforçar hierarquia sem aumentar o texto
Use “rótulos de intenção” para orientar leitura
Rótulos curtos ajudam a pessoa a escanear e entender a prioridade.
- Importante: para risco e irreversibilidade.
- Opcional: para passos que não bloqueiam.
- Recomendado: para melhores práticas.
- Dica: para atalhos e boas escolhas.
Exemplo:
- “Importante: ao sair, você perderá alterações não salvas.”
- “Opcional: adicione uma foto para personalizar seu perfil.”
Transforme requisitos em checklist
Quando há múltiplas condições, uma frase longa vira ruído. Checklist cria hierarquia por itens e reduz retrabalho.
Antes (difícil de escanear): “Sua senha deve ter no mínimo 8 caracteres, uma letra maiúscula, uma minúscula e um número.”
Depois (hierarquia por itens):
- “Sua senha precisa ter:”
- “• 8+ caracteres”
- “• 1 letra maiúscula”
- “• 1 letra minúscula”
- “• 1 número”
Separe instrução de explicação
Um erro comum é explicar antes de orientar, fazendo a pessoa ler mais para descobrir o que fazer. Em geral, coloque a instrução primeiro e a explicação depois, exceto quando a explicação for necessária para escolher entre opções.
Exemplo (upload):
- Instrução: “Envie um arquivo em PDF.”
- Explicação: “Outros formatos podem perder a formatação.”
Adie detalhes para “ajuda contextual”
Quando o detalhe é útil apenas para uma parte das pessoas, ele deve ficar em uma camada inferior: link “Saiba mais”, tooltip, ou linha final. Assim, a mensagem principal permanece leve.
Exemplo:
- Mensagem: “Não foi possível sincronizar.”
- Ajuda: “Ver detalhes”
- Detalhe (ao abrir): “Falha de autenticação. Token expirado.”
Exemplos comparativos: mesma informação, hierarquia melhor
Exemplo 1: erro de pagamento
Antes (tudo no mesmo nível): “Houve um problema ao processar seu pagamento. Verifique se os dados do cartão estão corretos, se há limite disponível e tente novamente. Se o problema persistir, entre em contato com o suporte informando o código 9281.”
Depois (arquitetura em camadas):
- Estado: “Não foi possível processar o pagamento.”
- Contexto: “O banco recusou a transação.”
- Ação primária: “Tentar novamente”
- Ação secundária: “Trocar forma de pagamento”
- Ajuda: “Se continuar, fale com o suporte.”
- Detalhe: “Código: 9281”
Exemplo 2: confirmação de cadastro
Antes: “Seu cadastro foi realizado com sucesso e agora você precisa confirmar seu e-mail para acessar todos os recursos. Enviamos uma mensagem para seu endereço e você deve clicar no link.”
Depois:
- Resultado: “Cadastro criado.”
- Agora: “Confirme seu e-mail para liberar o acesso.”
- Ação primária: “Abrir caixa de entrada”
- Ação secundária: “Reenviar e-mail”
- Detalhe: “Enviado para: nome@dominio.com”
Exemplo 3: aviso de exclusão
Antes: “Tem certeza que deseja excluir? Essa ação é irreversível e você perderá todos os dados relacionados.”
Depois (hierarquia com risco explícito):
- Aviso: “Excluir conta?”
- Risco: “Você perderá acesso e seus dados serão removidos.”
- Controle: “Excluir conta” / “Cancelar”
- Alternativa (quando aplicável): “Prefere desativar temporariamente?”
Checklist de revisão de hierarquia (para usar no dia a dia)
- A primeira linha comunica o estado sem depender do resto?
- Existe uma ação primária única e óbvia?
- As ações secundárias estão claramente abaixo da primária?
- Contexto e causa estão presentes apenas quando ajudam a decidir ou corrigir?
- Riscos e consequências estão explícitos quando há perda, cobrança, privacidade ou irreversibilidade?
- Detalhes técnicos (códigos, limites, formatos) estão em camada inferior?
- Se a pessoa ler apenas a primeira linha e o botão, ela age corretamente?
- Requisitos múltiplos viraram lista/checklist em vez de frase longa?