Aplicações do cotidiano em termologia: interpretação de fenômenos térmicos e modelagem de problemas

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Como transformar situações do cotidiano em modelos de termologia

Neste capítulo, o foco é usar as ferramentas já estudadas (calor sensível, calor latente e equilíbrio térmico) para interpretar fenômenos reais e montar modelos físicos que permitam calcular temperaturas finais, massas de gelo que derretem, energia necessária para cozinhar, potência de resfriamento, entre outros resultados. A habilidade central é traduzir uma narrativa em um “mapa” de trocas de energia, com hipóteses explícitas e equações adequadas.

Roteiro de modelagem (checklist prático)

  • 1) Defina o sistema e a fronteira: o que você está analisando (água + gelo? panela + alimento? ar do quarto?) e o que fica “fora”.
  • 2) Liste os corpos que trocam energia: quem perde calor e quem ganha calor. Indique o sentido esperado (do mais quente para o mais frio).
  • 3) Decida as hipóteses (escreva-as): sistema isolado (sem perdas), perdas desprezíveis, recipiente com capacidade térmica desprezível ou não, mudança de fase ocorre ou não, temperatura uniforme (mistura bem mexida), etc.
  • 4) Identifique processos: aquecimento/resfriamento (calor sensível), fusão/vaporização (calor latente), processos em etapas (ex.: gelo aquece até 0 °C, funde, depois a água derretida aquece).
  • 5) Escolha as equações: Q = m·c·ΔT, Q = m·L, e o balanço ΣQ = 0 (para sistema isolado).
  • 6) Organize unidades antes de calcular: massa em kg (ou g, mas consistente), temperatura em °C para diferenças de temperatura, energia em J (ou cal, mas consistente). Se houver potência e tempo, use W e s.
  • 7) Verifique coerência: temperatura final deve ficar entre as iniciais (quando não há mudança de fase “travando” a temperatura), massas não podem ser negativas, e o resultado deve fazer sentido físico.

Estratégia para problemas com mudança de fase: teste de “energia suficiente”

Em narrativas com gelo, água fervendo, evaporação, geada, etc., é comum errar por assumir diretamente uma temperatura final. Um método robusto é:

  • Passo A: suponha que a mudança de fase ocorre completamente (ex.: todo o gelo derrete) e calcule a energia necessária para isso.
  • Passo B: compare com a energia que o outro corpo consegue fornecer (ou retirar). Se não for suficiente, a mudança de fase será parcial e a temperatura fica “presa” na temperatura de mudança de fase (ex.: 0 °C durante fusão).
  • Passo C: se for suficiente, após completar a mudança de fase, continue com calor sensível para achar a temperatura final.

Aplicações do cotidiano e como modelar

1) Bebidas com gelo: por que a bebida esfria “até certo ponto”

Ao colocar gelo em uma bebida, há dois efeitos principais: (i) o gelo pode aquecer até 0 °C (se estiver abaixo de 0 °C), (ii) o gelo funde (consome calor latente), e (iii) a bebida esfria (perde calor sensível). Em muitos casos, o maior “poder de resfriamento” vem da fusão do gelo.

Passo a passo de modelagem (bebida + gelo em copo):

  • Defina sistema: bebida + gelo (e, se necessário, o copo).
  • Hipótese inicial comum: perdas para o ambiente desprezíveis durante o intervalo analisado.
  • Liste processos: bebida resfria (m·c·ΔT), gelo funde (m·L), e possivelmente a água derretida aquece (m·c·ΔT).
  • Use ΣQ = 0: calor perdido pela bebida = calor ganho pelo gelo (aquecimento + fusão + aquecimento da água derretida).

Estudo de caso 1 (com dados realistas): gelo em suco

Situação: 300 mL de suco (assuma densidade ≈ 1 g/mL, então 300 g) a 25 °C recebem 50 g de gelo a 0 °C. Despreze o copo e perdas. Use c_água = 4,18 J/(g·°C) e L_fusão = 334 J/g. Pergunta: todo o gelo derrete? Se sim, qual a temperatura final? Se não, qual a massa de gelo restante?

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Organização dos dados:

  • Suco: m_s = 300 g, T_i = 25 °C, c ≈ 4,18 J/(g·°C)
  • Gelo: m_g = 50 g, T = 0 °C

Passo 1: energia para derreter todo o gelo

Q_fusão = m_g·L = 50·334 = 16700 J

Passo 2: energia que o suco pode ceder ao esfriar até 0 °C

Q_suco→0 = m_s·c·(25 - 0) = 300·4,18·25 = 31350 J

Como 31350 J > 16700 J, há energia suficiente para derreter todo o gelo e ainda sobrar energia para aquecer a água derretida e estabelecer equilíbrio acima de 0 °C.

Passo 3: balanço de energia para achar a temperatura final

Calor perdido pelo suco ao ir de 25 °C até T_f:

Q_suco = m_s·c·(25 - T_f)

Calor ganho pelo gelo: fusão + aquecimento da água derretida de 0 °C até T_f:

Q_ganho = m_g·L + m_g·c·(T_f - 0)

Equilíbrio (sistema isolado): Q_suco = Q_ganho

300·4,18·(25 - T_f) = 50·334 + 50·4,18·T_f

31350 - 1254·T_f = 16700 + 209·T_f

14650 = 1463·T_fT_f ≈ 10,0 °C

Perguntas para justificar:

  • Por que a temperatura final não pode ser menor que 0 °C neste modelo?
  • Se o copo fosse de vidro espesso e inicialmente a 25 °C, o T_f seria maior ou menor? Justifique sem calcular.

2) Cozimento: energia para aquecer água e alimento (e por que a panela importa)

Em cozimento, há pelo menos três “destinos” para a energia fornecida pelo fogão: aquecer a panela, aquecer a água e aquecer o alimento. Se houver ebulição, parte da energia vai para vaporização (sem aumentar a temperatura da água enquanto ferve).

Modelagem típica:

  • Sistema: panela + água + alimento.
  • Entrada de energia: chama/resistência elétrica (pode ser tratada como energia total fornecida em um intervalo).
  • Saídas: perdas para o ambiente (muitas vezes não desprezíveis; pode-se incluir uma eficiência).

Estudo de caso 2: aquecer água para cozinhar massa (com eficiência)

Situação: você quer aquecer 2,0 L de água de 20 °C até 100 °C em uma panela de alumínio de 600 g, inicialmente a 20 °C. Um fogareiro fornece potência de 1,5 kW, mas apenas 60% vira aquecimento útil (o resto se perde). Use c_água = 4180 J/(kg·°C) e c_Al = 900 J/(kg·°C). Perguntas: (a) qual energia útil necessária? (b) quanto tempo leva?

Dados em SI:

  • Água: m = 2,0 kg, ΔT = 80 °C
  • Panela: m = 0,600 kg, ΔT = 80 °C
  • Potência: P = 1,5 kW = 1500 W
  • Eficiência: η = 0,60 → potência útil P_u = η·P = 900 W

Passo 1: energia para a água

Q_água = m·c·ΔT = 2,0·4180·80 = 668800 J

Passo 2: energia para a panela

Q_panela = 0,600·900·80 = 43200 J

Passo 3: energia útil total

Q_total = 668800 + 43200 = 712000 J

Passo 4: tempo com potência útil

t = Q_total / P_u = 712000 / 900 ≈ 791 s ≈ 13,2 min

Perguntas para justificar:

  • Se você ignorasse a panela, o tempo ficaria maior ou menor? Por quê?
  • Se a eficiência cair para 40%, o que muda no modelo: a energia necessária ou o tempo? Explique.

3) Resfriamento de ambientes: “tirar calor” do ar e do que está dentro

Ao resfriar um cômodo, não é só o ar que importa: paredes, móveis e objetos também trocam energia e podem dominar a carga térmica. Um modelo inicial útil é separar em “ar” e “massa térmica interna” (móveis/paredes), e tratar o ar como bem misturado.

Modelagem simplificada:

  • Energia a retirar do ar: Q_ar = m_ar·c_ar·ΔT.
  • Energia a retirar de objetos internos (aproximação): Q_obj ≈ m_obj·c_obj·ΔT.
  • Tempo estimado: t ≈ (Q_total) / P_fria, onde P_fria é a taxa de remoção de energia (potência de refrigeração).

Estudo de caso 3: estimativa rápida para um quarto

Situação: quarto de 3 m × 4 m × 2,5 m (volume 30 m³). Ar inicialmente a 30 °C, objetivo 24 °C. Use densidade do ar ≈ 1,2 kg/m³ e c_ar ≈ 1000 J/(kg·°C). Um aparelho remove energia a 1000 W (potência de refrigeração efetiva). Perguntas: (a) quanto tempo para resfriar apenas o ar? (b) por que na prática demora mais?

Passo 1: massa de ar

m_ar = ρ·V = 1,2·30 = 36 kg

Passo 2: energia a retirar do ar

Q_ar = 36·1000·(30 - 24) = 216000 J

Passo 3: tempo ideal

t = Q_ar / P = 216000 / 1000 = 216 s ≈ 3,6 min

Interpretação: o resultado é muito pequeno porque o modelo considerou apenas o ar. Na prática, paredes e objetos quentes devolvem calor ao ar, há entrada de calor por infiltração e radiação solar, e o aparelho pode não operar sempre na potência máxima. Um modelo melhor incluiria uma massa térmica equivalente para móveis/paredes e um termo de ganho de calor do ambiente externo.

4) Escolha de materiais: isolantes e condutores em decisões práticas

Em situações reais, a pergunta costuma ser “qual material reduz a troca de calor?” (isolante) ou “qual material facilita a transferência?” (condutor). Mesmo sem entrar em equações detalhadas de condução, dá para modelar qualitativamente e, em alguns casos, quantitativamente por energia envolvida em aquecer/resfriar o próprio material.

Exemplos de decisão:

  • Cabo de panela: materiais com baixa condutividade e/ou geometria que dificulte a condução reduzem o aquecimento na mão.
  • Garrafa térmica: reduzir trocas por condução e convecção (vácuo/isolamento) e por radiação (superfícies refletivas).
  • Colher metálica no café: o metal facilita a transferência de energia para a colher e para o ar; além disso, a colher também “absorve” energia para aquecer sua própria massa.

Miniestudo de caso 4: colher no café (massa térmica do objeto)

Situação: 200 g de café a 80 °C recebem uma colher de aço de 30 g a 20 °C. Despreze perdas para o ambiente. Use c_café ≈ 4,18 J/(g·°C) e c_aço ≈ 0,50 J/(g·°C). Pergunta: qual a temperatura de equilíbrio aproximada?

Modelo: sistema isolado, sem mudança de fase. ΣQ = 0.

m_café·c_café·(80 - T_f) = m_colher·c_aço·(T_f - 20)

200·4,18·(80 - T_f) = 30·0,50·(T_f - 20)

836·(80 - T_f) = 15·(T_f - 20)

66880 - 836T_f = 15T_f - 30067180 = 851T_fT_f ≈ 79,0 °C

Leitura física: a colher tem pouca massa e baixo calor específico comparado ao café; por isso, a queda de temperatura do café é pequena. Ainda assim, a colher pode “parecer” esfriar o café mais do que esse cálculo sugere porque ela também aumenta a troca com o ar (mais área e condução eficiente até a parte exposta).

5) Mudanças de fase no clima: geada e evaporação

Fenômenos climáticos frequentemente envolvem mudanças de fase, que podem dominar o balanço de energia.

  • Evaporação e resfriamento: quando água evapora, ela retira energia do que está ao redor (pele, roupa, chão), reduzindo a temperatura local. Em um modelo simples, a energia retirada é Q = m·L_v.
  • Geada: a formação de gelo sobre superfícies ocorre quando a superfície e o ar próximo permitem que a água (líquida ou vapor) passe para sólido. A mudança de fase envolve liberação/absorção de energia; o ponto-chave de modelagem é reconhecer que a temperatura pode ficar próxima de 0 °C durante a mudança de fase, enquanto a energia continua sendo trocada.

Estudo de caso 5: resfriamento por evaporação (ordem de grandeza)

Situação: 20 g de água evaporam da pele durante atividade física. Use L_v ≈ 2250 J/g. Perguntas: (a) quanta energia é retirada? (b) compare com a energia para resfriar 500 g de água (aprox. massa de uma região do corpo/tecido com muita água) em 1 °C usando c ≈ 4,18 J/(g·°C).

Cálculos:

  • Q_evap = m·L_v = 20·2250 = 45000 J
  • Q_500g_1°C = 500·4,18·1 ≈ 2090 J

Interpretação: evaporar 20 g remove energia equivalente a resfriar 500 g de água em mais de 20 °C (pois 45000/2090 ≈ 21,5). Isso explica por que a evaporação é um mecanismo tão eficiente de resfriamento.

Como escrever o balanço de energia sem se perder

Modelo “tabela de trocas”

Uma forma organizada de evitar erros é montar uma tabela com cada corpo e cada etapa. Exemplo genérico:

Corpo/etapaExpressão de QSinalObservações
Corpo quente resfriam·c·(T_i - T_f)+Representa calor cedido
Corpo frio aquecem·c·(T_f - T_i)+Representa calor recebido
Fusãom·L_f+Temperatura constante durante a fase
Vaporizaçãom·L_v+Temperatura constante durante a fase

Depois, imponha Q_cedido = Q_recebido ou ΣQ = 0 com um padrão de sinais consistente.

Armadilhas comuns (e como evitar)

  • Esquecer etapas: gelo a -10 °C não “vai direto” para água a 10 °C; há aquecimento até 0 °C, fusão, e depois aquecimento.
  • Confundir temperatura com variação de temperatura: em Q = m·c·ΔT, use ΔT em °C ou K (mesmo valor numérico), mas não misture escalas em valores absolutos sem necessidade.
  • Assumir que sempre derrete tudo: faça o teste de energia suficiente.
  • Ignorar eficiência/perdas quando o contexto pede: fogão, ambiente e resfriamento de cômodos quase sempre têm perdas relevantes; inclua uma eficiência quando fornecida.

Problemas-síntese (combinações de conversão de escala, calor sensível/latente e equilíbrio térmico)

Problema 1 — Bebida, gelo abaixo de 0 °C e conversão de escala

Uma bebida de 250 g está a 77 °F. Você adiciona 40 g de gelo a -10 °C. Despreze o copo e perdas. Use c_água = 4,18 J/(g·°C), c_gelo = 2,1 J/(g·°C), L_f = 334 J/g. (a) Converta 77 °F para °C. (b) Verifique se todo o gelo derrete. (c) Determine a temperatura final ou a massa de gelo restante. Exija que sua solução mostre claramente as etapas e as unidades.

Problema 2 — Cozimento com ebulição (sensível + latente)

Você aquece 1,0 kg de água de 25 °C até 100 °C e mantém fervendo até evaporar 120 g. Despreze a panela. Use c_água = 4180 J/(kg·°C) e L_v = 2,26×10^6 J/kg. (a) Calcule a energia para aquecer até 100 °C. (b) Calcule a energia para evaporar 120 g. (c) Qual fração da energia total foi gasta na vaporização? Justifique por que a temperatura não aumenta durante a ebulição no modelo.

Problema 3 — Resfriamento de ambiente com “massa térmica equivalente”

Um escritório tem 40 m³ de ar a 29 °C e deve chegar a 23 °C. Além do ar, estime uma massa térmica equivalente de 80 kg com c = 900 J/(kg·°C) (móveis/paredes próximos). Use ρ_ar = 1,2 kg/m³ e c_ar = 1000 J/(kg·°C). Um aparelho remove 1200 W de energia. (a) Calcule a energia total a retirar (ar + massa equivalente). (b) Estime o tempo ideal. (c) Cite duas razões físicas para o tempo real ser maior, sem usar “porque sim”.

Problema 4 — Mistura com mudança de fase parcial (equilíbrio em 0 °C)

Em um recipiente isolado, misturam-se 150 g de água a 10 °C com 80 g de gelo a 0 °C. Use c_água = 4,18 J/(g·°C) e L_f = 334 J/g. (a) Determine se todo o gelo derrete. (b) Se não derreter, calcule a massa de gelo que permanece. (c) Qual é a temperatura final do sistema? Mostre o teste de energia suficiente.

Problema 5 — Cadeia completa: conversão de escala + gelo + aquecimento final

Você tem 400 g de água a 293 K e coloca 60 g de gelo a 0 °C em um recipiente isolado. Depois de atingir equilíbrio, você adiciona mais 200 g de água a 60 °C. Use c_água = 4,18 J/(g·°C) e L_f = 334 J/g. (a) Converta 293 K para °C. (b) Resolva a primeira etapa (água + gelo): determine se o gelo derrete e encontre o estado final (temperatura e massas). (c) Use esse estado como condição inicial para a segunda etapa e encontre a temperatura final após adicionar a água a 60 °C. Organize a solução em duas partes com ΣQ = 0 em cada etapa.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um problema de mistura bebida + gelo, qual procedimento ajuda a evitar assumir uma temperatura final incorreta quando pode haver mudança de fase?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O teste de energia suficiente evita supor um T final impossível: compara-se a energia disponível com a necessária para a mudança de fase. Se não houver energia suficiente, a mudança de fase é parcial e a temperatura permanece na temperatura de transição (ex.: 0 °C na fusão).

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